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RELATÓRIO ESPECIAL

Globalização do Projeto 2025

Exportación del autoritarismo y el nacionalismo cristiano a todo el mundo por parte de Estados Unidos

Resumo executivo

Globalização do Projeto 2025 examina os fundamentos ideológicos, a implementação interna e a expansão internacional do Projeto 2025, um plano político liderado pela Heritage Foundation e por uma coligação de organizações conservadoras. Embora publicamente enquadrada como um esforço para reformar as instituições governamentais, a iniciativa representa uma tentativa abrangente de remodelar os Estados Unidos e a ordem política global em torno de um quadro nacionalista cristão. Este relatório demonstra como a agenda do Projeto 2025 está a ser implementada internamente e, simultaneamente, exportada para o estrangeiro através de iniciativas diplomáticas, redes transnacionais de defesa, ajuda condicional e governos aliados.

Na sua essência, o Projeto 2025 está enraizado no nacionalismo cristão, um movimento político que afirma que os Estados Unidos da América devem ser governados de acordo com uma interpretação de extrema-direita da doutrina cristã. Os autores do projeto argumentam que a sobrevivência da nação depende do restabelecimento da autoridade religiosa sobre a vida pública e da substituição da governação secular por políticas baseadas no que descrevem como valores bíblicos.

Historicamente, as alianças entre instituições religiosas e movimentos políticos autoritários produziram sistemas que limitam as liberdades civis e visam as comunidades vulneráveis. O Projeto 2025 segue um padrão semelhante, infundindo teologia numa estratégia de governo antidirteitos detalhada. Os seus autores baseiam-se em estruturas ideológicas como o Mandato das Sete Montanhas, que apela à influência ou ao controlo cristão sobre sete setores-chave da sociedade, incluindo o governo, a educação, os meios de comunicação social e as empresas. Dentro desta visão de mundo, o pluralismo, a igualdade de género e os direitos LGBTQ+ são tratados não como princípios democráticos, mas como ameaças a uma sociedade ordenada divinamente.

O relatório documenta como esta ideologia passou rapidamente da teoria à prática. Desde que Trump retomou o cargo, muitas das políticas delineadas no Projeto 2025 começaram a aparecer em ações executivas, diretivas administrativas, aplicação da lei, políticas de imigração e alterações regulamentares. As alterações políticas adicionais visaram proteções de direitos civis de longa data. Os programas de diversidade, equidade e inclusão foram desmantelados em todas as agências governamentais e entre os prestadores de serviços federais. As ordens executivas redefiniram o sexo estritamente como masculino ou feminino na política federal, enquanto as agências removeram as referências à identidade de género dos programas governamentais e da recolha de dados. Os membros transgénero do serviço militar foram impedidos de prestar serviço militar e perderam o acesso a cuidados de afirmação de género através de programas federais. Enquanto isso, as políticas de saúde reprodutiva foram reformuladas através de restrições ao acesso ao aborto, cortes no financiamento de programas de planeamento familiar e a reintrodução da Política da Cidade do México que rege a assistência internacional na área da saúde.

O Projeto 2025 também define uma estratégia agressiva para reformular o ensino superior e as instituições de investigação públicas. As campanhas de pressão federais procuraram forçar as universidades, incluindo as do estrangeiro, a abandonar as iniciativas de diversidade e a alinhar as prioridades de investigação com a agenda do governo. Estas medidas representam uma tentativa mais ampla de alinhar as instituições independentes, incluindo as universidades e a investigação científica, com a agenda política e ideológica do governo. Ao mesmo tempo, a administração tomou medidas para desmantelar ou enfraquecer instituições que promovem o jornalismo independente no estrangeiro. O encerramento da Voice of America, que durante décadas transmitiu notícias independentes, e os cortes nos esforços jornalísticos no estrangeiro, são destacados como um exemplo marcante dos esforços do Projeto 2025 para reformular a educação, os meios de comunicação social e as instituições culturais para se adequarem à sua visão ideológica.

Além da política interna, o Projeto 2025 apela a uma reformulação fundamental da política externa dos EUA. O relatório documenta como as prioridades diplomáticas, como a promoção da democracia, o apoio aos direitos humanos e o financiamento da assistência humanitária, estão a ser substituídas por iniciativas destinadas a promover uma coligação global centrada na oposição ao direito ao aborto, na igualdade LGBTQ+, nos programas de igualdade para mulheres e raparigas e na definição da família, de acordo com uma interpretação nacionalista cristã.

Um instrumento central desta mudança é a Declaração do Consenso de Genebra (DCG), uma iniciativa iniciada na primeira presidência de Trump que afirma que não existe um direito internacional ao aborto e promove uma definição de família limitada ao casamento heterossexual. Desde que os Estados Unidos da América voltaram a aderir à declaração em 2025, esta cresceu e transformou-se numa rede de 40 países, incluindo governos autocráticos com violações dos direitos humanos amplamente documentadas. Através deste quadro, os Estados Unidos alinharam-se com governos que partilham um interesse em fazer retroceder os direitos das mulheres e as proteções LGBTQ+, ao mesmo tempo que desafiam as normas internacionais estabelecidas em matéria de direitos humanos.

O relatório destaca El Salvador como um exemplo proeminente de como estes esforços se cruzam com disputas jurídicas internacionais sobre os direitos reprodutivos. No caso Beatriz v. El Salvador do Tribunal Interamericano dos Direitos Humanos (TIDH), foi negado o aborto a uma mulher que sofria de complicações potencialmente fatais durante a gravidez, devido à proibição absoluta do país. O TIDH concluiu que o governo salvadorenho tinha violado os seus direitos à saúde e à dignidade. No entanto, organizações alinhadas com a rede do Projeto 2025 intervieram em processos judiciais para defender a proibição do aborto no país.

Em toda a África, o relatório identifica padrões semelhantes através da expansão da rede do Consenso de Genebra e de iniciativas como o programa Protego, liderado pelo Institute for Women’s Health. O Quénia tem sido um caso de teste para as intervenções americanas nos sistemas de saúde e para a promoção da extração de recursos em detrimento dos direitos humanos e da democracia. Os governos de países como o Uganda e o Burundi estabeleceram parcerias com organizações ligadas ao Projeto 2025 para promover políticas que enfatizam a educação baseada apenas na abstinência, a oposição à contraceção e as restrições aos direitos LGBTQ+. No Uganda, estes desenvolvimentos coincidem com a aprovação de uma das leis anti-LGBTQ+ mais agressivas do mundo, incluindo a imposição da pena de morte em certos casos.

O relatório também destaca a Hungria como um exemplo europeu fundamental de como o quadro ideológico por trás do Projeto 2025 se cruza com os modelos de governação existentes. Sob o governo do primeiro-ministro Viktor Orbán, a Hungria adotou políticas que restringem os direitos LGBTQ+, limitam o reconhecimento de género e promovem uma visão apoiada pelo Estado de “valores familiares tradicionais”. A Hungria é reverenciada pelo Projeto 2025, enquanto a União Europeia e os países europeus que promovem a democracia inclusiva e os direitos humanos plenos são reformulados como inimigos “fracos” e “woke” da civilização ocidental.

O relatório observa que várias destas medidas refletem de perto as políticas promovidas por organizações alinhadas com o Projeto 2025. Nos últimos anos, a Hungria tornou-se um centro de conferências e redes internacionais que promovem políticas anti-LGBTQ+ e contra os direitos das mulheres, e as suas instituições financiadas pelo governo desempenham agora um papel de coordenação dentro da rede do Consenso de Genebra. Este alinhamento ilustra como a agenda do Projeto 2025 está a convergir com as tendências autoritárias existentes na Europa.

O envolvimento diplomático e a política de ajuda externa também desempenharam um papel na expansão desta rede. As investigações citadas no relatório sugerem que o apoio à iniciativa do Consenso de Genebra foi por vezes acompanhado de incentivos diplomáticos ou de acesso a redes de doadores conservadores, ajudando a promover a declaração e a sua agenda política em todo o mundo.

Ao mesmo tempo, instituições-chave que historicamente promoveram a governação democrática e a assistência humanitária foram desmanteladas ou significativamente enfraquecidas. O relatório destaca o encerramento da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID), um pilar da ajuda humanitária americana durante mais de seis décadas, como um exemplo fundamental. Os programas da USAID ajudaram a prevenir mais de 91 milhões de mortes entre 2001 e 2021, particularmente através de esforços para combater o VIH/SIDA, a malária e outras doenças importantes. A eliminação da agência perturbou os programas de saúde e assistência humanitária globais em todo o mundo.

A influência do Projeto 2025 também se estende através de uma rede crescente de organizações de defesa que trabalham para reformular os sistemas jurídicos e políticos a nível global. Grupos como a Alliance Defending Freedom, o Institute for Women’s Health, a Family Watch International e o American Center for Law and Justice operam em vários continentes, promovendo legislação, litigância estratégica e formação política alinhados com a agenda da iniciativa. Através de conferências, campanhas e intervenções jurídicas internacionais, estas organizações estão a exportar a agenda antidireitos do Projeto 2025 para outros países.

Várias das figuras-chave por trás da iniciativa ocupam agora posições de poder que moldam a sua implementação. O presidente da Heritage Foundation, Kevin Roberts, descreveu abertamente o movimento como parte de uma “segunda Revolução Americana”. Russell Vought, um dos principais arquitetos do Projeto 2025, lidera agora o Gabinete de Gestão e Orçamento e desempenhou um papel central na implementação de planos para desmantelar partes do Estado administrativo federal. Internacionalmente, figuras como Valerie Huber, do Institute for Women’s Health, e Sharon Slater, da Family Watch International, estão a trabalhar para expandir a rede do Consenso de Genebra e coordenar a defesa antidireitos em toda a África, América Latina e Europa.

Em conjunto, os desenvolvimentos descritos neste relatório ilustram uma transformação mais ampla da governação interna e da política internacional. As instituições criadas para promover a democracia, os direitos humanos e a cooperação internacional estão a ser desafiadas por uma rede emergente construída em torno do nacionalismo religioso, da retórica da supremacia branca e de alianças ideológicas.

No entanto, o relatório também documenta uma onda crescente de resistência. Organizações da sociedade civil, defensores dos direitos humanos, jornalistas e organizações jurídicas estão a contestar as políticas do Projeto 2025 em tribunais, legislaturas e instituições internacionais. Ações judiciais, campanhas públicas e reportagens de investigação expuseram a implementação do Projeto 2025, enquanto os movimentos de base e as organizações globais de direitos humanos continuam a mobilizar-se contra estes esforços para desmantelar as proteções democráticas e fazer retroceder os direitos humanos fundamentais.

A expansão do Projeto 2025 para além das fronteiras dos EUA sublinha os riscos globais destes desenvolvimentos. As mesmas redes que estão a remodelar as instituições americanas estão ativamente a construir alianças internacionais, estratégias jurídicas e quadros políticos concebidos para consolidar esta agenda em todo o mundo. A investigação da GPAHE sublinha que o confronto destes esforços requer respostas internacionais coordenadas, a sensibilização pública sustentada e instituições democráticas e cívicas fortes, capazes de resistir a agendas autoritárias e extremistas.

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Autoritarismo e nacionalismo cristão: a base ideológica do Projeto 2025

“Estamos no processo da segunda Revolução Americana, que permanecerá sem derramamento de sangue se a esquerda permitir”, disse o presidente da Heritage Foundation, Kevin Roberts, a uma audiência em 2024.

Apresentou-se na forma de uma campanha de extrema-direita para refazer a democracia americana. O Projeto 2025, liderado por Roberts e escrito e apoiado por uma coligação de organizações nacionalistas cristãs, define a estratégia. O objetivo não é apenas a reforma política. É substituir a república secular por um governo onde reina uma interpretação do cristianismo.

A GPAHE passou meses a documentar como as mesmas organizações que escreveram o manual — a Heritage Foundation, a Alliance Defending Freedom, o Institute for Women’s Health, o Global Center for Human Rights — o levaram para o estrangeiro, apoiadas por impostos dos EUA, acesso ao Departamento de Estado e um acordo antiaborto pouco conhecido da era Trump chamado Declaração do Consenso de Genebra. Este relatório começa com o que o Projeto 2025 já fez ao país para o qual foi escrito e, em seguida, identifica os grupos que levam a agenda para o estrangeiro e como operam.

A evidência dessa operação é específica. Neydy Casillas, uma advogada que trabalha para o ramo internacional da ADF, foi a Assunção em 2016 e reuniu-se com um legislador paraguaio no Supremo Tribunal. Em poucos dias, esse legislador apresentou um projeto de lei ao Congresso para restringir os direitos reprodutivos. Os evangélicos americanos promoveram a legislação “pró-família” em Kampala, enquanto os cortes do PEPFAR deixaram as clínicas ugandesas sem medicamentos para o VIH.

O primeiro-ministro Victor Orbán alterou a constituição da Hungria para restringir o reconhecimento de género 90 dias depois de Trump ter assinado um decreto executivo que dizia o mesmo quase palavra por palavra. Este relatório nomeia as organizações, segue o dinheiro e identifica os agentes no terreno.

O padrão histórico

O nacionalismo cristão e o controlo autoritário andam de mãos dadas e seguem um padrão histórico consistente.

Durante a década de 1920, o Papa Pio XI declarou que Deus tinha “colocado Mussolini no nosso caminho” e assinou o Tratado de Latrão de 1929, dando à Igreja a Cidade do Vaticano em troca da bênção do fascismo. Alianças semelhantes espalharam-se por toda a Europa — Áustria, Portugal, Croácia.

A Espanha de Franco mostrou como era a parceria enquanto durou. Trinta e seis anos. Os homens gays iam para instalações onde os médicos administravam terapia de choques elétricos como suposta cura. As mulheres que saíam da linha acabavam em instituições de “reeducação” administradas pela Igreja. O divórcio era ilegal. Tal como a contraceção. As pessoas transgénero eram presas — não uma vez, mas dezenas de vezes — pelo ato de serem visíveis. O regime prendeu mais de 40 000 mulheres cujas vidas não estavam em conformidade com o ideal católico da maternidade silenciosa.

O ataque da Alemanha nazi às pessoas LGBTQ+ começou cedo. O Instituto de Ciência Sexual foi invadido em maio de 1933. Os estudantes arrastaram o conteúdo da biblioteca para as ruas e queimaram-no na Bebelplatz. Milhares de homens gays acabaram em campos de concentração. Triângulos cor-de-rosa nos seus uniformes marcavam-nos para o pior tratamento, tanto por parte dos guardas como dos outros prisioneiros.

As táticas consistiam em visar grupos vulneráveis, apagar ideias concorrentes e tornar certas identidades ilegais. Todos os movimentos autoritários desde então estudaram esses métodos e, mais adiante neste relatório, analisaremos mais profundamente os países que caminham para o autoritarismo.

Os exemplos incluem a Argentina, onde a junta militar recebeu bênçãos de funcionários da igreja enquanto fazia desaparecer dezenas de milhares de almas.

Jair Bolsonaro levou o movimento evangélico do Brasil ao poder dizendo a dezenas de milhões de crentes que a civilização cristã estava a morrer e que ele era o único disposto a salvá-la. As instituições democráticas que se atravessaram no seu caminho foram atacadas.

Na Hungria, Viktor Orbán defende a democracia “iliberal” para desmantelar os tribunais, silenciar os meios de comunicação e criar uma “Disneylândia conservadora cristã”, conhecida como um dos países mais corruptos da União Europeia.

O Projeto 2025 inspira-se em tudo isso. A criminalização das pessoas LGBTQ+, os papéis de género obrigatórios, o controlo reprodutivo, a fusão entre Igreja e Estado estão a regressar, e o Projeto 2025 tem os recursos do governo mais poderoso do mundo a apoiá-lo.

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O que é o nacionalismo cristão e porque é importante

O padrão que se repete desde a Espanha de Franco até à América de Trump não é acidental. O nacionalismo cristão é uma ideologia específica e um movimento político que exige que o governo imponha uma interpretação restrita do cristianismo a todos — crentes e não crentes — que está enraizada no fanatismo, não na Bíblia.

Os adeptos acreditam que a América deve ser uma nação cristã com leis que reflitam os valores cristãos, e que o desvio dos fundamentos cristãos ameaça a sobrevivência nacional e espiritual. Cerca de 30% dos americanos aceitam esta visão como adeptos ou simpatizantes — cerca de 100 milhões de pessoas que pensam que a democracia deve estar subordinada à sua interpretação particular da vontade de Deus.

A investigação mostrou que os nacionalistas cristãos favorecem líderes poderosos que podem agir sem restrições democráticas. É mais provável que concordem que “precisamos de um líder forte que esteja disposto a quebrar as regras” e que “o compromisso é, na verdade, apenas vender os próprios princípios”. Não há lugar para a deliberação democrática quando se põem em prática mandamentos divinos.

Académicos de Harvard que estudam o nacionalismo cristão a nível global descobriram que este está consistentemente ligado a “misoginia, autoritarismo, oposição às vacinas, visões anticientíficas e pró-violência” e este padrão verifica-se em todos os países examinados. Em todos os lugares onde o nacionalismo cristão se estabelece, “enfraquece a democracia e promove o autoritarismo”.

O nacionalismo cristão em ação: táticas e implementação

Os cientistas políticos que estudam movimentos autoritários reconhecem o que o nacionalismo cristão está a fazer porque já o viram antes. O primeiro passo é sempre o controlo da informação: reduzir o universo de fontes fiáveis a pastores, figuras dos meios de comunicação aprovadas e líderes do movimento e, em seguida, treinar os seguidores para rejeitarem tudo o que estiver fora desse círculo como “notícias falsas”. Uma vez desaparecida a base partilhada para a verdade, o movimento pode definir a realidade nos seus próprios termos.

A segunda tática é fabricar uma perseguição inexistente. Os nacionalistas cristãos tratam o secularismo como um ataque espiritual ao seu modo de vida. Descrevem a imigração usando a linguagem da guerra santa, fronteiras invadidas por hordas invasoras. Acusam as pessoas LGBTQ+ de perseguirem os cristãos e de perverterem as crianças. O que uma democracia funcional processaria como divergências políticas, o movimento processa como batalhas entre o bem e o mal.

Depois vem a contradição que mantém tudo unido. A América é simultaneamente a nação escolhida por Deus e um país sob ocupação demoníaca. Esse paradoxo funciona realmente: se a nação é divinamente ordenada e sitiada por Satanás, então agarrar o poder por qualquer meio deixa de ser subversão e passa a ser obediência.

“Quando dizemos “tomar a montanha do governo”, não queremos dizer apenas influenciar a política”, explica Lance Wallnau, figura-chave do movimento. “Os cristãos com a nossa visão de mundo têm de ser os que redigem a legislação, tomam decisões e determinam a política.”

Quando a lei de Deus substitui a lei humana, alguém tem de interpretar o que Deus quer. Quem reivindica essa autoridade detém o poder absoluto sem controlo democrático. O compromisso transforma-se na colaboração com o mal. Os adversários políticos não são concidadãos — são inimigos de Deus que têm de ser eliminados.

A especialista em nacionalismo cristão Kristin Kobes Du Mez descreve onde isto termina: “Não haverá liberdade religiosa significativa. Haverá essencialmente uma sociedade de dois níveis entre os “verdadeiros americanos” — aqueles que aceitam isto, ou fingem aceitar — e depois o resto dos americanos. As leis serão reescritas em todos os aspetos. Os direitos, como os entendemos, deixarão de existir e, em vez disso, teremos um quadro de lei bíblica.”

A teologia do Projeto 2025 baseia-se em Génesis 1:26-28, que ordena à humanidade que “seja fecunda e se multiplique, e encha a terra e a subjugue; e tenha domínio sobre” todos os seres vivos. Os nacionalistas cristãos veem o “domínio” como um mandato divino para assumir o controlo de todas as instituições da sociedade. O Projeto 2025 interpreta isso como ordens de marcha.

Isto está ligado ao “Mandato das Sete Montanhas” – a crença de que, antes do regresso de Cristo, os crentes devem conquistar sete montanhas: o governo, a educação, os meios de comunicação social, a família, a religião, as artes e as empresas.

Sob esta visão de mundo, a igualdade de género é uma rebelião contra a ordem divina. As leis que protegem as minorias são perseguição dos fiéis. O pluralismo atravessa-se no caminho de Deus. E qualquer pessoa que discorde não está apenas errada — está a fazer a obra de Satanás.

O Projeto 2025 pegou nessa teologia e construiu uma agenda de governo a partir dela. O manual foi escrito por mais de 100 organizações, coordenadas pela Heritage Foundation — grupos com um longo historial de promover o ódio e o nacionalismo cristão na política dominante.

Trump chamou o Projeto 2025 de “abismal” durante a campanha. A investigação da GPAHE provou o contrário. O Projeto 2025 tornou-se a fonte das políticas antidemocráticas de Trump. Desde 20 de janeiro de 2025, os Estados Unidos promulgaram políticas destinadas a reprimir a democracia.

Liberdade religiosa redefinida: no Projeto 2025, a liberdade religiosa é usada como uma licença para discriminar. Um empregador cristão que se recuse a contratar uma pessoa gay não está a discriminar, mas está a exercer a liberdade religiosa. Um prestador de cuidados de saúde que recuse tratamento a um paciente transgénero não está a violar direitos, está a seguir a lei de Deus como a vê. Isto inverte a liberdade religiosa, passando da proteção da consciência individual para a proteção da supremacia religiosa sobre os outros.

Mandatos de estrutura familiar: o Projeto 2025 determina que o governo “mantenha uma definição de casamento e família baseada na Bíblia e reforçada pelas ciências sociais”. Na prática, isso significa que apenas um arranjo se qualifica: um homem e uma mulher casados a criar filhos juntos. Todos os outros — pais solteiros, casais não casados, famílias do mesmo sexo — ficam totalmente fora do quadro.

Controlo reprodutivo: sobre a reprodução, o documento trata a ideia de que a vida começa na conceção como um facto estabelecido. Os seus autores propõem a mudança de nome do Departamento de Saúde e Serviços Humanos para “Departamento da Vida”, a criminalização do aborto, a restrição da FIV e a limitação do acesso à contraceção, tudo com base numa doutrina de “pessoalidade” que concederia direitos constitucionais aos embriões.

Comunidade LGBTQ+ como alvo: o Projeto 2025 visa explicitamente as comunidades LGBTQ+ a nível nacional e internacional, exigindo o desmantelamento de programas que promovam a diversidade, a equidade e a inclusão. Programas prejudiciais como a terapia de conversão poderiam ser promovidos no futuro, em vez de proibidos, uma vez que o movimento nacionalista cristão vê o “transgenerismo” e a homossexualidade como um flagelo profano. A “pornografia”, escreve o Projeto 2025, “manifesta-se hoje na propagação omnipresente da ideologia transgénero”, que está a “envenenar os nossos filhos”.

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O presidente da Heritage Foundation, Kevin Roberts, prometeu uma “segunda Revolução Americana” e, em seguida, construiu as alianças internacionais para a exportar, da Hungria de Orbán à Argentina de Milei.

Implementação e impacto globais

O Anexo F chegou no primeiro dia de Trump de volta ao cargo: 20 de janeiro de 2025. Reclassifica dezenas de milhares de funcionários públicos de carreira como nomeados políticos que podem ser demitidos sem justa causa.

Russell Vought escreveu o capítulo do Projeto 2025 sobre o desmantelamento do Estado administrativo. Agora dirige o Gabinete de Gestão e Orçamento (OMB), implementando o seu próprio plano.

Vought declarou abertamente o seu objetivo: “Queremos que os burocratas sejam afetados de forma traumática. Quando acordam de manhã, queremos que não queiram ir trabalhar porque são cada vez mais vistos como os vilões… Queremos colocá-los em trauma.”

Esta purga de pessoal permite diretamente a agenda nacionalista cristã global. No Departamento de Estado, os diplomatas de carreira que negociaram acordos internacionais de direitos humanos durante décadas estão a ser substituídos por nomeados políticos. A sua principal qualificação? Lealdade à ideologia nacionalista cristã e à cruel agenda do Projeto 2025.

A Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID) ajudou países que sofriam de catástrofes, pobreza e na promoção da democracia. Os profissionais de desenvolvimento da USAID, que coordenavam programas de saúde que salvavam vidas, resposta a catástrofes e segurança alimentar, foram demitidos ou transferidos. O conhecimento institucional necessário para implementar tratados internacionais, gerir respostas a pandemias, coordenar a ajuda humanitária, manter relações diplomáticas está a ser sistematicamente destruído. No seu lugar: executores ideológicos comprometidos em impor a doutrina nacionalista cristã à política externa dos EUA.

O Projeto 2025 estende a sua agenda nacionalista cristã muito para além das fronteiras americanas. O documento exige que a USAID elimine as palavras “género”, “aborto”, “saúde reprodutiva” e “direitos sexuais e reprodutivos” de todos os programas, contratos e documentos de política e cesse a “promoção da agenda DEI, incluindo a agenda de assédio LGBTQ+”.

O Projeto 2025 apelou à retirada do apoio dos EUA a organizações internacionais que promovam a igualdade de género ou a autonomia reprodutiva. Isso aconteceu. Trump assinou um memorando presidencial a 7 de janeiro de 2026, retirando os Estados Unidos da América de 66 organizações internacionais — 31 entidades da ONU e 35 organismos não pertencentes à ONU. O Departamento de Estado culpou os “mandatos DEI”, as campanhas de “igualdade de género” e a “ortodoxia climática” e associou a medida ao encerramento da USAID. A OMS, a UNESCO, o Conselho de Direitos Humanos da ONU e 380 milhões de dólares em subvenções do Fundo de População da ONU já tinham desaparecido. O Banco Mundial e o FMI sobreviveram, mas o FMI fundiu as suas unidades de clima e género num único gabinete e o Banco Mundial retirou a sua proibição de financiamento da energia nuclear. Washington cortou 800 milhões de dólares da sua contribuição para o Banco Mundial, mantendo o veto.

O Projeto 2025 também procura reavivar a Declaração do Consenso de Genebra, que analisaremos mais adiante no relatório, uma iniciativa da era Trump que redefine os direitos humanos para excluir as proteções LGBTQ+ e a liberdade reprodutiva. Neste quadro, todos os compromissos diplomáticos dos EUA devem estar alinhados com a “lei natural” e promover “valores familiares tradicionais”, ou seja, código para se opor ao acesso ao aborto, aos programas de contraceção e a qualquer reconhecimento dos direitos LGBTQ+ no estrangeiro.

A discussão do Projeto 2025 sobre a África apela explicitamente ao fim das iniciativas de igualdade LGBTQ+ em África, onde 31 países criminalizam a atividade sexual entre pessoas do mesmo sexo e o Uganda impõe a pena de morte pela chamada “homossexualidade agravada”.

O Projeto 2025 critica os “progressistas, que veem as ONG locais — especialmente as ONG religiosas proeminentes em África e na América Latina — como obstáculos à promoção do aborto, do radicalismo de género, do extremismo climático e de outras ideias woke”.

O caminho para o autoritarismo religioso

Ruth Ben-Ghiat, a historiadora da NYU que estuda o colapso democrático, descreveu o Projeto 2025 num ensaio de 2024 como “um plano para uma tomada de poder autoritária dos Estados Unidos que tem um nome enganosamente neutro”, concebido para “destruir as culturas jurídicas e de governação da democracia liberal e criar novas estruturas burocráticas, compostas por novos quadros politicamente aprovados, para apoiar o governo autocrático”.

Trump negou qualquer conhecimento do Projeto 2025 durante a campanha e agora designa publicamente Russell Vought como seu colega “da fama do Projeto 2025”.

A transformação dos Estados Unidos de república constitucional em estado teocrático está agora bem encaminhada, e a revolução prometida por Kevin Roberts, da Heritage, está a acontecer. Na linha da frente, tem como alvo a autonomia das mulheres, a existência LGBTQ+, a liberdade de expressão e a genuína liberdade religiosa — o direito de todas as pessoas a crer ou não crer conforme a consciência lhes ditar. E está a coordenar-se internacionalmente, expandindo a sua frente para reestruturar várias nações simultaneamente fora das fronteiras dos Estados Unidos.

O alerta da GPAHE de novembro de 2023 acabou por ser profético. O autoritarismo religioso passou de ameaça abstrata a realidade concreta, nos EUA e no estrangeiro — este relatório documenta essa transformação.

A história interna é apenas o começo. Antes de examinarmos como isto se está a espalhar internacionalmente, precisamos de compreender a profundidade e a rapidez com que o Projeto 2025 remodelou a vida americana. Vamos analisar essa transformação: o primeiro ano de implementação em solo americano, traçado através de ordens executivas, casos encerrados, compromissos cancelados e vidas fundamentalmente alteradas.

Depois, expandir-nos-emos para o exterior para examinar como a administração de Trump está a desmantelar toda a estrutura pós-Segunda Guerra Mundial, peça por peça. Estas são as instituições criadas especificamente para impedir que o poder autoritário em todo o mundo se consolide da forma como se encontra.

A Alliance Defending Freedom, uma das principais apoiantes do Projeto 2025, tem, por si só, operações em seis países europeus, em toda a América Latina e em toda a África Subsaariana. A análise país a país que se segue documenta onde estão essas operações, quem as gere, com que dinheiro são financiadas e o que aconteceu às instituições democráticas e aos direitos humanos no terreno desde que chegaram. A secção final examina o que está a funcionar para fazer recuar.

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Projeto 2025 na América

Às 12:47 do dia 20 de janeiro de 2025, o Presidente Trump assinou a Ordem Executiva 14168. O governo dos Estados Unidos reconheceria agora apenas “dois sexos, masculino e feminino”. Estes sexos eram “imutáveis”. À noite, as agências federais começaram a desmantelar as proteções que levaram décadas a construir.

O que se seguiu foi a implementação imediata das políticas do Projeto 2025 e um modelo de trabalho para as aplicar a países de todo o mundo; uma antevisão de quão rápido e abrangente pode ser o autoritarismo para uma democracia vulnerável. Em poucos dias, a administração começou a relegar os direitos das mulheres, das minorias e dos americanos LGBTQ+ para a marginalidade. Em menos de um ano, a administração Trump cumpriu quase metade dos objetivos nacionalistas cristãos que o Projeto 2025 colocou no papel.

  • Estabeleceu um sistema de informadores em que os funcionários federais denunciavam colegas por violações da DEI.

  • Utilizou o financiamento da investigação como arma para forçar as universidades a uma conformidade ideológica, fazendo da Columbia um exemplo, enquanto Harvard ripostou ao custo de milhares de milhões.
  • Sancionou a violência contra as clínicas de aborto, perdoando os bloqueadores condenados e desmantelando a aplicação da lei, e depois cortou os cuidados de saúde reprodutiva a centenas de milhares de mulheres — cortes que afetaram mais duramente as mulheres negras, que já têm cinco vezes mais probabilidades de morrer no parto.
  • Retirou aos membros transgénero do serviço militar os seus cuidados de saúde e proibiu-os de prestar serviço militar.

Cada ação serviu uma estratégia maior: demonstrar como desmantelar os direitos civis e lançar um golpe autoritário a partir de dentro, conforme detalhado no Projeto 2025, mantendo ao mesmo tempo uma aparência de democracia.

Apagar uma comunidade inteira

Os apoiantes do Projeto 2025, liderados por Russell Vought, tinham preparado uma série de ordens executivas que aguardavam a assinatura de Trump após a tomada de posse. A perseguição das mulheres e das comunidades LGBTQ+ começou poucos minutos após o início do seu segundo mandato. Em 48 horas, o Departamento de Educação removeu o marcador de género “X” dos pedidos federais de ajuda a estudantes. Um dia depois, o Departamento de Estado deixou de processar passaportes com qualquer marcador, exceto “M” ou “F”. A 27 de janeiro, as prisões federais começaram a transferir mulheres transgénero para instalações masculinas.

As agências federais eliminaram a recolha de dados de identidade de género no prazo de 120 dias. O Departamento de Educação removeu perguntas de inquéritos que monitorizavam a discriminação em 96 000 escolas. O Departamento de Saúde e Serviços Humanos eliminou os dados de saúde LGBTQ+ dos seus painéis. A Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais deixou de comunicar os números de encarceramento de transgéneros.

Uma eliminação mais ampla de vocabulário varreu as agências federais, incluindo “transgénero”, “identidade de género”, “LGBTQ”, “não binário” e “pronomes”. O Williams Institute calculou que quase 14 000 funcionários federais transgénero e mais de 100 000 funcionários LGBTQ+ de contratados federais foram afetados, todos a trabalhar para um governo que negava a sua existência.

Ao remover a identidade de género da investigação federal, a administração tornou impossível o estudo das disparidades de saúde que afetam os americanos transgénero. Sem dados, não há contagem. Sem contagem, não há proteção.

A Ordem Executiva 14183, assinada a 27 de janeiro, proibiu o alistamento militar de qualquer pessoa “com um historial de disforia de género” e suspendeu os cuidados de afirmação de género para 4240 membros transgénero do serviço militar na ativa, a quem foi dito para se demitirem, e para aproximadamente 9000 veteranos transgénero que recebiam cuidados do Departamento de Assuntos de Veteranos (VA).

A administração também restringiu o acesso a cuidados de afirmação de género para indivíduos com menos de 19 anos em todos os programas federais. A incerteza fez com que muitas clínicas parassem de prestar cuidados, incluindo uma clínica de endocrinologia pediátrica em Seattle que tratava jovens transgénero há 15 anos. 

Destruir a diversidade

No dia 21 de janeiro, Trump assinou “Acabar com os Programas e Preferências DEI Governamentais, Radicais e Desperdiçadores“. As iniciativas de diversidade, equidade e inclusão eram agora “programas de discriminação ilegais e imorais”. Os efeitos desta Ordem Executiva sobre as mulheres, as comunidades LGBTQ+ e as minorias têm sido devastadores, pois a força da diversidade é subjugada pela falsidade do racismo desenfreado “antibranco”, uma crença central dos criadores do Projeto 2025, que procuram colocar homens heterossexuais, brancos e cristãos no comando do poder.

A marginalização começou rapidamente. O diretor interino do Gabinete de Gestão de Pessoal (OPM), Charles Ezell, ordenou que todos os funcionários do gabinete da DEI fossem colocados em licença administrativa remunerada até 23 de janeiro. A segurança escoltou-os para fora dos seus edifícios. As agências tinham oito dias para apresentar planos de despedimentos em massa.

A diretiva incluía um endereço de e-mail para onde os funcionários podiam denunciar colegas que pudessem estar a usar “linguagem codificada ou imprecisa” para disfarçar os programas de DEI. A administração estava a estabelecer um sistema de informadores.

Vários mecanismos de denúncia entraram em funcionamento. Os funcionários federais podiam fazer denúncias através dos canais das agências. Os prestadores de serviços tinham portais separados. O público podia apresentar queixas através de um site federal. O OPM criou linhas diretas para denunciar funcionários suspeitos de continuarem o trabalho de DEI sob nomes diferentes.

Grupos de recursos de funcionários que existiam há décadas enfrentaram investigações, incluindo grupos para mulheres, minorias, trabalhadores LGBTQ+, veteranos e pessoas com deficiência.

O decreto revogou o Decreto Executivo 11246 de 1965, pondo fim aos requisitos de ação afirmativa para os prestadores de serviços federais e eliminando 59 anos de legislação sobre direitos civis. Agora, os prestadores de serviços federais também eram obrigados a certificar que não estavam envolvidos em atividades de DEI. As denúncias anónimas permitiram que a concorrência transformasse o processo numa arma.

A América empresarial alinhou-se. As grandes empresas começaram a desmantelar preventivamente os programas de DEI. Os diretores de diversidade foram demitidos e os grupos de recursos de funcionários dissolvidos, à medida que as políticas federais criavam um quadro que permitia a discriminação privada.

O impacto psicológico estendeu-se para além dos alvos diretos. Os funcionários federais deixaram de mencionar a diversidade, mesmo quando era relevante para o seu trabalho. Os gestores evitavam discutir as disparidades raciais ou de género. Os programas de formação sobre preconceito inconsciente desapareceram. A aparência de apoiar a inclusão tornou-se um fim de carreira.

Os cuidados de saúde definham

No dia 24 de janeiro de 2025, Trump assinou a ordem executiva “Aplicação da Emenda Hyde”, revogando duas ordens da era Biden que protegiam o acesso a clínicas de aborto e à contraceção.

Nesse dia, um memorando do Departamento de Justiça instruiu os procuradores federais a limitarem a aplicação da Lei da Liberdade de Acesso às Entradas das Clínicas (FACE), uma lei que proíbe a obstrução do acesso a clínicas de saúde reprodutiva e a casas de culto, que resultou de uma onda de violência contra clínicas de aborto e prestadores de serviços na década de 1990, apenas em “circunstâncias extraordinárias”. Três casos pendentes da Lei FACE foram imediatamente arquivados.

Trump já tinha perdoado 23 pessoas condenadas ao abrigo da Lei FACE em 23 de janeiro, incluindo manifestantes que bloquearam as entradas de clínicas e feriram funcionários. Em poucas semanas, os bloqueios às clínicas foram retomados. Em julho, seis ativistas antiaborto – incluindo dois que Trump acabara de perdoar – entraram numa clínica de aborto da Pensilvânia fingindo ser pacientes e, em seguida, fizeram entrar outros manifestantes que espalharam água benta e sal por toda a instalação enquanto tentavam bloquear os serviços. A National Abortion Federation relatou seis “invasões” de clínicas e três bloqueios nos primeiros nove meses de 2025, em comparação com cinco invasões e um bloqueio em todo o ano de 2024.

A administração reteve mais de 65 milhões de dólares em subsídios de planeamento familiar do Título X a organizações que servem 842 000 pacientes em 865 centros de saúde. Embora isto esteja a ser contestado nos tribunais, sete estados perderam todos os serviços do Título X: Califórnia, Havai, Maine, Mississippi, Missouri, Montana e Utah. O Instituto Guttmacher estimou que pelo menos 834 000 pessoas perderiam o acesso a cuidados críticos. Durante o primeiro mandato de Trump, cortes semelhantes fizeram com que o número de pacientes do Título X caísse de 3,9 milhões para 1,5 milhões, ou 61%.

A Política da Cidade do México foi reintroduzida em 23 de janeiro, abrangendo toda a assistência global na área da saúde dos EUA. As organizações que prestam cuidados de saúde reprodutiva em países em desenvolvimento tiveram de escolher: deixar de prestar serviços de aborto ou aconselhamento ou perder todo o financiamento americano, incluindo para prevenção do VIH, contraceção, saúde materna e tratamento da malária.

As mulheres negras suportam um fardo desproporcional, pois têm 31% mais probabilidades de depender do Medicaid para cuidados de saúde reprodutiva do que as mulheres brancas. No Estado de Nova Iorque, as mulheres negras sofrem cinco vezes mais mortes durante o parto do que as mulheres brancas. Os cortes da administração ao CDC eliminaram a equipa que recolhia dados sobre gravidez, monitorizando as razões pelas quais as mulheres negras têm piores resultados de saúde materna. A investigação sobre as orientações de contraceção para pacientes com anemia falciforme foi encerrada.

Universities

Repressão no ensino superior

O governo Trump transformou o financiamento federal da investigação numa arma para a conformidade ideológica ao atacar o coração da liberdade de expressão na América, o sistema de ensino superior, que recebeu golpe após golpe na batalha pela conformidade autoritária.

No início de maio, os Institutos Nacionais de Saúde tinham encerrado mais de 800 milhões de dólares em subsídios; quase metade deles, 323 dos 669 projetos cancelados, centravam-se na saúde LGBTQ+. O Estado da Flórida perdeu 41 milhões de dólares em investigação de prevenção do VIH dirigida a adolescentes e jovens adultos, que sofrem um quinto das novas infeções anualmente. Os estudos sobre o cancro na Ohio State e na Universidade do Alabama, que examinavam as taxas elevadas em populações de minorias sexuais, terminaram abruptamente. Os laboratórios que se preparavam para se expandir começaram, em vez disso, a despedir pessoal. Simon Rosser, professor da Universidade do Minnesota, cujo laboratório estudava o cancro em pessoas LGBTQ+ antes de ser retirado um financiamento significativo, chamou as coisas pelos nomes: “Certas pessoas nos Estados Unidos não deveriam ser tratadas como sujeitos de investigação de segunda classe. Isso, penso eu, é a definição de intolerância para qualquer pessoa. Intolerância na ciência.”

A Universidade de Columbia foi a primeira a sofrer uma repressão mais ampla. Em março de 2025, a administração suspendeu mais de 400 milhões de dólares em financiamento federal. As exigências: suspender os estudantes que participaram nas ocupações pró-Palestina do campus em 2024, implementar novas políticas de antissemitismo e reformular as admissões para eliminar as considerações de diversidade. Após meses de pressão, a Columbia capitulou em julho.

O acordo custou 221 milhões de dólares e impôs três anos de supervisão federal. A Columbia teve de proibir programas “ilegais” de DEI, contratar novos professores para supervisionar os estudos do Médio Oriente (sujeitos a aprovação federal), instalar agentes da polícia no campus com poderes de detenção e aceitar um monitor independente. A universidade insistiu que “não admitiu culpa”. Mas tinha entregado a autonomia aos supervisores federais.

Harvard optou pela resistência, mantendo a esperança de que os direitos da Primeira Emenda prevalecessem sobre Trump. Quando a administração fez exigências semelhantes em abril de 2025, Harvard recusou e apresentou uma ação judicial, apelidando as exigências de “um excesso ilegal de autoridade governamental”.

A administração congelou mais de 2,2 mil milhões de dólares em financiamento para investigação — a maior ação isolada de retirada de financiamento académico na história moderna dos EUA. Os ensaios sobre o cancro foram interrompidos a meio do estudo. A investigação climática que funcionava há 40 anos parou. As experiências de física de partículas no CERN foram interrompidas.

O ataque intensificou-se, com Trump a ameaçar revogar o estatuto de isenção fiscal de Harvard e proibir os estudantes internacionais, que representam 27% do corpo estudantil. Um juiz federal bloqueou temporariamente a proibição de estudantes internacionais, apelidando-a de “punitiva e arbitrária”.

O professor de direito de Harvard, Nikolas Bowie, descreveu o que estava a acontecer: “Trump está a violar os direitos da Primeira Emenda das universidades e do corpo docente ao exigir que, se as universidades quiserem manter este dinheiro, têm de suprimir a nossa liberdade de expressão e mudar o que ensinamos e como estudamos.”

Em setembro, um juiz federal declarou o congelamento do financiamento ilegal, comentando que é “difícil concluir qualquer outra coisa senão que [a administração Trump] usou o antissemitismo como cortina de fumo para um ataque direcionado e ideologicamente motivado às principais universidades deste país, e o fez de uma forma que viola a [lei federal]”. Os fundos foram, na maioria dos casos, libertados.

O governo Trump lançou investigações visando a UCLA, a Duke e a George Mason. Mais de 150 reitores universitários assinaram uma declaração a condenar o “excesso de poder sem precedentes do governo”. Nada mudou.

Os membros do corpo docente começaram a autocensurar a investigação e o ensino. As universidades cancelaram oradores controversos. Os professores removeram leituras que poderiam desencadear investigações. Um ex-professor da Columbia descreveu “um clima de confusão, medo e falta de segurança” em que as universidades já não podiam funcionar como espaços de livre investigação.

Resposta e resistência

As salas de audiências tornaram-se campos de batalha pela democracia quase da noite para o dia. Até outubro de 2025, os advogados tinham apresentado 190 processos ativos contra a administração Trump — incluindo 18 ações judiciais separadas visando apenas a ordem executiva de “Ideologia de Género”. Seis membros transgénero do serviço militar levaram a sua luta ao tribunal federal, contestando a proibição militar que lhes retirou as suas carreiras e cuidados de saúde. Um juiz federal da Califórnia interveio, bloqueando temporariamente partes das restrições aos cuidados de afirmação de género.

Estas vitórias, no entanto, continuaram a revelar-se frustrantemente incompletas. As ordens judiciais protegiam queixosos específicos, por vezes apenas os de jurisdições específicas, deixando todos os outros expostos. Os recursos prolongaram os casos durante meses. E os verdadeiros danos ocorreram através de manobras administrativas — cortes de financiamento, eliminação de dados, diretivas de agências — que eram muito mais difíceis de contestar em tribunal. Os recursos estão a  decorrer.

A incerteza alcançou o que as políticas pretendiam. Os prestadores deixaram de oferecer serviços. As comunidades viviam com medo e esse medo tornou-se o seu próprio mecanismo de aplicação. A Rainbow Railroad, uma organização global sem fins lucrativos que ajuda pessoas LGBTQ+ a escapar da violência e da perseguição patrocinadas pelo Estado, informou que, em outubro de 2025, os Estados Unidos se tinham tornado a principal fonte de pedidos de ajuda da organização pela primeira vez nas suas quase duas décadas de história, com dois terços provenientes de pessoas transgénero. O país que já foi o principal destino para migrantes LGBTQ+ e requerentes de asilo, os EUA sob Trump, tornou-se um lugar de onde as pessoas estão a tentar fugir.

Pouco mais de um ano depois, a implementação interna do Projeto 2025 provou a sua eficácia no desmantelamento das proteções dos direitos civis. Descreveu como eliminar as comunidades do reconhecimento federal através de alterações na recolha de dados, como destruir a infraestrutura de saúde através de cortes estratégicos de financiamento, como transformar as universidades em instituições ideologicamente conformes através de congelamentos de financiamento e como construir um sistema de informadores, fazendo com que os cidadãos se policiem uns aos outros.

Estas táticas não foram inventadas em Washington. Viktor Orbán passou mais de uma década a construir metodicamente o aparelho autoritário da Hungria, manipulando os distritos parlamentares, forçando centenas de juízes a reformarem-se antecipadamente para instalar leais, proibindo os estudos de género nas universidades e, por fim, encerrando completamente a Universidade da Europa Central, criando uma “autocracia eleitoral”, de acordo com o Parlamento Europeu.

O que exigiu anos de trabalho paciente em Budapeste aconteceu em meses em Washington.

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Globalização do Projeto 2025

27 de fevereiro de 2025. Os seguranças montavam guarda do lado de fora do Edifício Ronald Reagan enquanto os funcionários da USAID recebiam intervalos de 15 minutos para recolher os pertences pessoais dos escritórios onde alguns tinham trabalhado durante décadas. Trouxeram as suas próprias caixas e fita adesiva – a agência não as forneceu. Foram submetidos a exames de raios-X e verificações de magnetómetro normalmente reservados a visitantes sem credenciais. Agentes federais escoltaram-nos até às suas secretárias.

O e-mail que anunciava os seus despedimentos tinha advertido contra a introdução de nunchucks, aguilhões para gado ou dinamite. Um funcionário da USAID disse à ABC News: “Parece que pensam que vamos tentar encenar um “protesto pacífico” ao estilo de 6 de janeiro.” Outro disse: “Quinze minutos estão longe de ser tempo suficiente para arrumar mais de uma década na agência.”

Os trabalhadores vieram, muitos a chorar, para recolher fotografias de família e calçado de trabalho que tinham deixado para trás. Alguns levaram flores para colocar no muro memorial em homenagem a 99 funcionários da USAID mortos em serviço ao longo de seis décadas. A segurança impediu-os. Os apoiantes reuniram-se no exterior, aplaudindo enquanto os funcionários saíam com caixas. Uma menina segurava um cartaz escrito à mão: “Estou orgulhosa de ti, papá.”

Devon Behrer, contratada três meses antes, sonhara com o trabalho de desenvolvimento durante toda a sua vida adulta. “O meu plano foi por água abaixo na segunda-feira”, disse ela. “Parece haver uma falta de reconhecimento de que somos humanos.”

Em poucos meses, a agência seria encerrada para sempre e as organizações por trás do Projeto 2025 começariam a construir a sua substituta no estrangeiro.

A Declaração do Consenso de Genebra

A Declaração do Consenso de Genebra (DCG) afirma que “não existe um direito internacional ao aborto, nem qualquer obrigação internacional por parte dos Estados de financiar ou facilitar o aborto”. Posiciona “a família como fundamental para a sociedade” e operacionaliza o Projeto 2025 e os verdadeiros objetivos de política externa da administração Trump, exportando a guerra cultural da América e substituindo os direitos humanos pela DCG. Quando os EUA voltaram a aderir em janeiro de 2025, tornaram-se um dos 40 signatários: Barém, Bielorrússia, Benim, Burquina Faso, Camarões, Chade, República Democrática do Congo, República do Congo, Djibuti, Egito, Essuatíni, Gâmbia, Geórgia, Guatemala, Haiti, Hungria, Indonésia, Iraque, Quénia, Kuwait, Líbia, Nauru, Níger, Omã, Paquistão, Paraguai, Polónia, Rússia, Arábia Saudita, Senegal, Sudão do Sul, Sudão, Uganda, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos e Zâmbia. A Rússia aderiu em 2021.

A DCG foi criada durante o primeiro mandato de Trump por Valerie Huber, que atuou como Representante Especial dos EUA para a Saúde Global da Mulher. De acordo com relatos da comunicação social, durante o seu período no Departamento de Saúde e Serviços Humanos, cancelou os contratos de 81 prestadores de programas de prevenção da gravidez na adolescência que tinham sido previamente avaliados como eficazes. Huber também promoveu o financiamento de projetos que se concentravam na educação sexual baseada na abstinência e em métodos “naturais” de planeamento familiar, em vez de contraceptivos medicamente aprovados.

Antes de trabalhar no governo, dirigiu a organização originalmente conhecida como National Abstinence Education Association (mais tarde renomeada como Ascend). Como defensora da abstinência, afirmou que “como especialistas em saúde pública e decisores políticos, devemos normalizar o atraso sexual mais do que normalizamos o sexo na adolescência, mesmo com contraceção”. No entanto, o Journal of Adolescent Health informou que estes programas “têm pouca eficácia demonstrada” no atraso da atividade sexual dos adolescentes.

Huber também é colaboradora do Projeto 2025 e fundadora do Protego — o “Quadro Holístico para a Saúde da Mulher”, que existe para operacionalizar a DCG, visando especificamente os esforços multilaterais que promovem os direitos das mulheres, raparigas e pessoas LGBTQ+ através da sua componente de “Envolvimento Internacional”.

Depois de os EUA terem voltado a aderir, Huber declarou: “Agora, 40 países declararam que, quando falamos de direitos humanos, o aborto não é um deles.”

Reestruturação do Departamento de Estado

Em maio de 2025, o Secretário de Estado Marco Rubio apresentou ao Congresso um plano de reorganização do departamento com 136 páginas. O plano atraiu duras críticas de organizações de direitos humanos e continua a ser contestado nos tribunais.

A proposta de Rubio elimina totalmente a Direção-Geral de Operações de Estabilização de Conflitos. Reduz 80% do pessoal da Direção-Geral de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho. O cargo de Subsecretário para a Segurança Civil, Direitos Humanos e Democracia: desaparecido. O plano afeta mais de 300 gabinetes e departamentos, visando divisões que descreve como tendo “trabalho pouco claro ou sobreposto”.

Dois gabinetes substituem toda a infraestrutura de direitos humanos.

O Gabinete dos Direitos Naturais “fundamentará a diplomacia baseada em valores do Departamento nas conceções ocidentais tradicionais das liberdades fundamentais” e “construirá a base para as críticas ao retrocesso da liberdade de expressão na Europa e em outras nações desenvolvidas”. Rubio diz que o gabinete “reivindicará os princípios fundadores da América contra os “direitos” globalistas”.

O termo “lei natural” é uma linguagem codificada para restrições de base religiosa ao aborto e aos direitos LGBTQ+ — o quadro teológico subjacente à Declaração do Consenso de Genebra. Os grupos de defesa e os restantes funcionários do Departamento de Estado entendem o que significam os “direitos naturais”: direitos determinados pela doutrina religiosa e não pelas normas internacionais de direitos humanos.

O Gabinete de Remigração servirá como um “centro” para questões de imigração e acompanhamento de repatriações dentro da Direção-Geral de População, Refugiados e Migração — tradicionalmente a agência responsável por ajudar os refugiados. O gabinete fornece “uma plataforma política para a coordenação interagências com o DHS e outras agências sobre remoções/repatriações”.

A juíza federal Susan Illston bloqueou o plano de reorganização de Rubio em junho, decidindo que a administração precisava da aprovação do Congresso.

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A Doutrina da Remigração

“Remigração” não é um termo burocrático. O termo tem origem no ativista austríaco de extrema-direita Martin Sellner, que já pertenceu a um grupo abertamente neonazi chamado “Stolz und Frei” (Orgulhosos e Livres). Sellner foi orientado por Gottfried Küssel, preso duas vezes na Áustria por “revivalismo nazi”. Quando jovem, Sellner colou um cartaz com uma suástica numa sinagoga em Baden bei Wien, na Áustria.

Sellner descreve a remigração como “um projeto de décadas” para tornar os países “europeus novamente” e desprovidos de “multiculturalismo”. Em termos simples: é uma limpeza étnica, a deportação forçada em massa de migrantes não brancos, independentemente do estatuto de cidadania. Esclarece que o conceito visa não apenas os imigrantes sem documentos, mas “aqueles que prejudicam a nossa sociedade económica, criminal ou culturalmente, formam sociedades paralelas e minam a democracia através do voto étnico” — uma definição tão ampla que poderia justificar a remoção de praticamente qualquer imigrante ou minoria étnica.

O atacante da mesquita de Christchurch, que matou 51 pessoas e feriu 89 na Nova Zelândia em 2019, doou 1500 euros (cerca de 1700 USD) ao movimento Identitário de Sellner e trocou e-mails com ele antes do ataque. O atirador foi inspirado pela teoria da conspiração da “Grande Substituição” – a ideia de que as populações brancas estão a ser sistematicamente substituídas por imigrantes não brancos através de políticas deliberadas.

Em novembro de 2023, Sellner deu uma palestra sobre remigração a membros de alto escalão do partido alemão Alternative für Deutschland (AfD) numa reunião secreta em Potsdam. Quando os meios de comunicação alemães expuseram o encontro, eclodiram protestos em cidades de toda a Alemanha. O AfD — que os serviços de informações da Alemanha por vezes classificaram como uma ameaça extremista de extrema-direita — tornou desde então a remigração uma política oficial do partido.

Sellner atribuiu a Trump o mérito de ter “explodido” o termo internacionalmente. Trump usou “remigração” em publicações nas redes sociais. As políticas de deportação da sua administração, explicitadas no Projeto 2025, refletem o quadro de Sellner: remoções em massa visando não apenas os imigrantes sem documentos, mas qualquer pessoa considerada culturalmente incompatível, incluindo cidadãos.

El Departamento de Estado cuenta ahora con una oficina que lleva por nombre dicho concepto. Los críticos llaman a esto «limpieza étnica con otro nombre». El mandato de la oficina, que consiste en coordinar las políticas de deportación con otras agencias, sugiere que la crítica es acertada.

Desmantelamento da USAID

Em 1 de julho de 2025, a maior agência humanitária da América encerrou após 64 anos. O desmantelamento começou meses antes. O secretário Rubio anunciou nas redes sociais: “Após uma revisão de 6 semanas, estamos oficialmente a cancelar 83% dos programas da USAID.” Documentos internos revelaram que tinha encerrado 92% das subvenções. Milhares de milhões em programas ativos foram interrompidos a meio da implementação.

O investigador de políticas de saúde da UCLA, James Macinko, detalhou o investimento: “O contribuinte médio contribuiu com cerca de 18 cêntimos por dia para a USAID. Por essa pequena quantia, conseguimos traduzir isso em evitar até 90 milhões de mortes em todo o mundo.”

No Uganda, os programas de tratamento do VIH que serviam 250 000 pessoas enfrentaram súbitas lacunas de financiamento. No Bangladesh, os programas de nutrição que chegavam a dois milhões de mulheres grávidas e crianças pequenas foram encerrados. No Iémen, onde a USAID fornecia 70% da assistência humanitária, as redes de distribuição de alimentos entraram em colapso.

Kari_Lake

Kari Lake, uma política fracassada por duas vezes, reduziu a VOA de 1300 funcionários para 81. Um juiz federal declarou todo o seu mandato ilegal e anulou todas as ações que tomou.

Silenciar a Voice of America

Durante 83 anos, a Voice of America (VOA) transmitiu notícias independentes para países onde os governos censuravam a informação. Fundada durante a Segunda Guerra Mundial para combater a propaganda nazi, a VOA chegou a 354 milhões de pessoas em todo o mundo em quase 50 idiomas.

Em março de 2025, Trump assinou uma ordem executiva que eliminava a agência-mãe da VOA. Cerca de 1000 jornalistas foram colocados em licença sem termo e a VOA parou de transmitir pela primeira vez na sua história.

Kari Lake, nomeada por Trump, uma política fracassada que fez campanha com o slogan “Está na hora de usar uma marreta contra as mentiras e a propaganda dos principais meios de comunicação”, anunciou em junho que tinha reduzido a VOA para 81 funcionários — de 1300. Como disse a ex-chefe do gabinete da Casa Branca, Patsy Widakuswara: “Estamos a abandonar os 360 milhões de pessoas em todo o mundo que dependem de nós semanalmente para notícias independentes e a abdicar da voz e da influência dos Estados Unidos no mundo.”

O juiz federal Royce Lamberth bloqueou o encerramento completo em abril de 2025, decidindo que Trump deve restaurar a programação aos níveis legais. A agência continua paralisada, e o poder brando e a boa vontade que vinham da promoção da democracia e dos direitos humanos em todo o mundo evaporaram-se. O financiamento da Radio Free Europe/Radio Liberty e da Radio Free Asia foi terminado e o site da VOA não é atualizado desde março de 2025.

O realinhamento

Os países da Europa Ocidental que ancoraram alianças democráticas durante 75 anos são agora considerados adversários ideológicos, enquanto os governos autoritários unidos pela oposição aos direitos LGBTQ+, à liberdade reprodutiva das mulheres e à democracia secular tornaram-se parceiros preferenciais.

A coligação do Consenso de Genebra, de 40 nações, representa esta mudança em termos concretos. A Rússia — que invadiu a Ucrânia em 2022 — é agora parceira do tratado com os Estados Unidos. A Bielorrússia, base de operações militares russas, é signatária. A Arábia Saudita, que assassinou o jornalista Jamal Khashoggi, é parceira. O Paquistão, o Egito, o Iraque são todos aliados, apesar das violações documentadas dos direitos humanos.

Todo esse sistema do pós-Segunda Guerra Mundial está a ser desmantelado. As proteções dos direitos humanos definidas por consenso internacional estão a ser substituídas por “direitos naturais” definidos pela doutrina religiosa. A promoção da democracia está a ser substituída pela defesa da “família natural”. A assistência humanitária está a ser substituída pela conformidade ideológica.

A nova infraestrutura

O Instituto Maria Kopp, na Hungria, serve agora como Secretariado da Declaração do Consenso de Genebra, coordenando a política familiar de 40 países a partir de um gabinete financiado pelo governo de Orbán. Os diplomatas americanos que antes trabalhavam através da ONU ou da OMS nestas questões trabalham agora através dele.

O Gabinete dos Direitos Naturais do Departamento de Estado tem a tarefa de desenvolver estruturas para contestar as normas europeias de direitos humanos. O Gabinete de Remigração proposto coordenaria a política de deportação com governos autoritários, partilhando a linguagem e as táticas dos movimentos de extrema-direita europeus que apelam explicitamente à limpeza étnica.

A extinção da USAID elimina a influência humanitária que poderia entrar em conflito com as prioridades do Consenso de Genebra. O desmantelamento da VOA remove uma plataforma que poderia transmitir informações sobre estas mudanças para o público global.

As instituições que promoviam os direitos humanos, a governação democrática e a assistência humanitária estão a ser eliminadas ou reestruturadas. Estão a ser substituídas por instituições que promovem a ideologia da “família natural”, coordenam-se com governos autoritários e rejeitam estruturas multilaterais.

Quando os Estados Unidos se retiraram das instituições multilaterais que estabelecem normas internacionais para os direitos humanos, abandonaram aliados que partilham valores democráticos. Formaram alianças com governos autoritários unidos pela oposição ao direito ao aborto, à igualdade LGBTQ+ e à governação secular.

Esta é uma demolição sistemática da arquitetura institucional do pós-guerra e a sua substituição por uma política externa construída sobre o nacionalismo religioso, alinhada com governos autoritários, hostil aos quadros de direitos humanos que protegem as comunidades marginalizadas. Estes são os mecanismos através dos quais o Projeto 2025 reestruturou a política externa americana.

Essa reordenação estende-se para além de Washington. As organizações do Projeto 2025 operam agora em capitais de toda a Europa, América Latina e África. Estão a exportar ideologia e infraestrutura: legislação modelo, estratégias de litigância e redes de financiamento. Onde as instituições do governo dos EUA outrora promoviam os direitos humanos, as organizações privadas promovem agora o nacionalismo cristão, muitas vezes com maior alcance e menos responsabilização.

O Projeto 2025 é global. Até onde se espalhará depende das comunidades que conseguem mobilizar a resistência antes de a infraestrutura se tornar permanente.

Chapter 2

Projeto 2025 e o enfraquecimento da Declaração Universal dos Direitos Humanos

No coração do Projeto 2025 está uma redefinição radical dos direitos humanos. O plano da Heritage Foundation para a administração Trump promove uma agenda altamente restritiva para os direitos das mulheres e LGBTQ+ que também tem como alvo outras comunidades marginalizadas nos Estados Unidos.

Mas as suas ambições vão muito para além das fronteiras dos EUA. Através de iniciativas internacionais, o projeto promoveu alianças com governos que aplicam leis repressivas anti-LGBTQ+, incluindo a Rússia, a Arábia Saudita e a Hungria. O plano autoritário para a América procura estabelecer laços com países como o Uganda, onde o casamento infantil continua a ser predominante, e o Sudão do Sul e o Chade, que enfrentam algumas das mais altas taxas de mortalidade materna do mundo.

O Projeto 2025 visa estabelecer um quadro de “direitos humanos” distinto da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada após a Segunda Guerra Mundial para estabelecer direitos humanos fundamentais para todas as pessoas e nações.

Também insta o governo dos EUA a retirar-se de organizações internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e de alianças diplomáticas tradicionais como a NATO. De acordo com os seus arquitetos, as instituições internacionais têm sido “usadas para promover políticas sociais radicais como se fossem prioridades de direitos humanos”. O plano apela à administração para que alavanque a sua “influência” e o seu “financiamento” para promover o que chama de “direitos humanos autênticos”.

A administração Trump já começou a implementar este plano através de iniciativas como a Declaração do Consenso de Genebra (DCG) contra as mulheres e contra a comunidade LGBTQ+ sobre a Promoção da Saúde da Mulher e o Fortalecimento da Família. Este acordo marcou uma rutura com aliados democráticos tradicionais, como a Alemanha, a França e o Reino Unido. Em vez disso, os EUA estão agora a alinhar-se com regimes autoritários. A iniciativa não é um acordo oficial da ONU e não tem autoridade legal (ver Capítulo 3).

Na sua campanha contra os direitos reprodutivos, o Projeto 2025 declara que “o governo dos EUA não deve e não pode promover ou financiar o aborto em programas internacionais ou organizações multilaterais”. Argumenta ainda que “os EUA terão um impacto maior se incluírem nações com ideias semelhantes e se desenvolverem a coligação lançada através da Declaração do Consenso de Genebra, com o objetivo de moldar o trabalho das agências internacionais, funcionando como uma frente unida”.

Apenas quatro países europeus assinaram a Declaração do Consenso de Genebra

Para os arquitetos do roteiro autoritário do Projeto 2025 nos EUA, a primeira presidência de Trump foi um ponto de viragem. Foi o momento em que a administração “forjou um consenso entre países com ideias semelhantes em apoio à vida humana, à saúde das mulheres, ao apoio à família como unidade básica da sociedade humana e à defesa da soberania nacional” através da DCG.

Hoje, a declaração tem 41 signatários, a maioria deles de África, incluindo o Egito, o Uganda e o Sudão. Também une vários países da Ásia e do Médio Oriente, como a Arábia Saudita, o Barém e os Emirados Árabes Unidos, e três Estados da América Latina: Guatemala, Haiti e Paraguai. Apenas quatro países europeus a assinaram — Bielorrússia, Hungria, Geórgia e Rússia.

Neste novo alinhamento, os EUA estão agora ao lado de governos europeus que promovem uma agenda nacionalista cristã e de Estados governados por interpretações conservadoras do Islão. O filósofo Paul B. Preciado destaca o paradoxo desta coligação, que une regimes nacionalistas cristãos com aqueles que impõem interpretações restritivas da lei islâmica. Como Preciado observa, muitos desses países estão “a lutar entre si noutros aspetos”. No entanto, de acordo com Preciado, a DCG revela uma agenda comum: “A expropriação dos sistemas reprodutivos das mulheres, a misoginia, a homofobia e a transfobia”.

A Amnistia Internacional dos EUA disse que os signatários estavam “a colocar voluntariamente em perigo a saúde e a vida das pessoas” e outros acusaram-nos de serem motivados pelo desejo de minar as instituições internacionais estabelecidas, fazer retroceder os direitos das mulheres e promover uma ideia tradicional da mulher.

Em 2021, o Grupo de Trabalho da ONU sobre Discriminação contra Mulheres e Raparigas alertou para os retrocessos sociais impulsionados pela rede DCG, descrevendo-a como “um exemplo da mobilização prejudicial de Estados com agendas conservadoras e contrárias aos direitos das mulheres para minar os direitos humanos bem estabelecidos e globalmente reconhecidos das mulheres e raparigas”.

Desde a sua “ratificação”, vários Estados signatários tomaram medidas para restringir o acesso ao aborto e desmantelar as proteções para as pessoas LGBTQ+, minando os direitos humanos em consonância com a DCG e os princípios estabelecidos no Projeto 2025.

LGBTQ

Enfraquecimento dos direitos LGBTQ+ em todo o mundo

Três anos após a assinatura, o Uganda aprovou leis anti-LGBTQ+ altamente repressivas, introduzindo a pena de morte para casos de “homossexualidade agravada”. A Rússia rotulou o movimento LGBTQ+ como uma organização extremista. No Egito, a Human Rights Watch e os meios de comunicação social informaram que as autoridades monitorizam as plataformas de redes sociais e as aplicações de encontros para identificar, assediar, prender e abusar de indivíduos LGBTQ+.

Padrões semelhantes de repressão são evidentes entre os aliados dos EUA, como a Arábia Saudita, onde o Relatório de Direitos Humanos de 2024 do Departamento de Estado — emitido sob a administração Trump — reconheceu que havia “inúmeros relatos” de que o “governo [da Arábia Saudita] ou os seus agentes cometeram assassinatos arbitrários ou ilegais durante o ano”.

Em toda a Europa, a Hungria tornou-se um dos principais exemplos da reação contra os direitos. O chamado conceito de “batimento cardíaco fetal” também se tornou central para as leis do aborto promovidas por políticos conservadores e grupos anti-mulher em todo o mundo. Neste quadro, as mulheres que pretendem fazer um aborto são obrigadas a ouvir o alegado “batimento cardíaco” antes do procedimento. Inicialmente introduzido em vários estados do sul dos EUA, como o Texas e o Kentucky, foi posteriormente adotado pelo governo do primeiro-ministro Viktor Orbán.

Sob a sua administração, os casais do mesmo sexo foram excluídos do casamento, os direitos de adoção para as famílias LGBTQ+ foram restringidos e a homossexualidade foi equiparada à pedofilia, promovendo a desumanização da comunidade LGBTQ+. A Hungria proibiu a “promoção e representação da homossexualidade” e da diversidade de género para menores de 18 anos na educação sexual, em filmes ou em anúncios. Outros países, como a Geórgia e a Bulgária, promulgaram leis semelhantes dirigidas às pessoas LGBTQ+.

Em abril de 2025, o regime de Orbán limitou o direito dos grupos LGBTQ+ de organizar eventos públicos e alterou a Constituição para definir o género estritamente como masculino ou feminino. Proibiu as marchas do Orgulho. Esta reforma ocorreu apenas três meses depois de Trump ter assinado um decreto executivo semelhante nos EUA. A sua influência estendeu-se rapidamente para além das fronteiras da Hungria, pois a Eslováquia seguiu com uma medida semelhante que limitava o reconhecimento de género e restringia a adoção a casais heterossexuais casados. Algumas destas políticas anti-LGBTQ+ estão agora a ser contestadas em tribunal.

O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH) já se pronunciou sobre leis anti-LGBTQ+, principalmente as adotadas pela Rússia. Em 2017, concluiu que a chamada lei de “propaganda gay” – que proibia a divulgação de informações sobre questões LGBTQ+ na proximidade de crianças e era usada para proibir marchas do Orgulho – era aplicada pelas autoridades para “reforçar o estigma e o preconceito e incentivar a homofobia”. O Tribunal considerou que esta legislação violava a Convenção Europeia dos Direitos do Homem.

Entretanto, o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) está atualmente a examinar um processo de infração contra a Hungria devido à sua lei de “propaganda” anti-LGBT de 2021, que afirma proteger os menores, mas, na prática, proíbe ou restringe o acesso a conteúdos LGBTQ+. A advogada-geral, Tamara Ćapeta, já indicou que a medida viola os direitos humanos fundamentais e a liberdade de expressão. O seu parecer não é vinculativo, mas muitas vezes dá uma indicação de como o Tribunal pode decidir.

Orban_2025

Viktor Orbán passou 16 anos a encher os tribunais, a capturar os meios de comunicação, a criminalizar a visibilidade LGBTQ+ e a reescrever a constituição da Hungria, construindo o modelo autoritário que a Heritage Foundation usou com o Projeto 2025.

Redefinir a família para legitimar a discriminação

Grupos de direitos humanos denunciaram a justificação de Orbán para estes retrocessos como sendo “sob a bandeira dos «valores familiares»”. Este enquadramento ecoa a narrativa da DCG e alinha-se com a agenda nacionalista cristã delineada no Projeto 2025 de Trump, que exclui a comunidade LGBTQ+ do conceito de família. O texto afirma que “as famílias compostas por uma mãe e um pai casados e os seus filhos são a base de uma nação bem ordenada e de uma sociedade saudável”.

A qualidade de vida geral das mulheres e raparigas em muitos países co-signatários da DCG permanece muito abaixo da dos EUA e dos seus aliados democráticos tradicionais, com riscos para a saúde significativamente mais elevados. De acordo com a base de dados global mais recente da UNICEF (2020), a taxa média de mortalidade materna entre os signatários da DCG foi de 262 mortes por 100 000 nados-vivos, em comparação com 21,1 por 100 000 nos Estados Unidos.

Em relação ao Uganda, o Relatório de Direitos Humanos dos EUA de 2024 constatou que o casamento infantil persistia e que as autoridades não aplicavam a lei que estabelece os 18 anos como idade mínima.

O Projeto 2025 argumenta ainda que as políticas de saúde dos EUA que promovem a “equidade LGBTQ+” devem ser “revogadas e substituídas por políticas que apoiem a formação de famílias nucleares estáveis e casadas”. Também apela à eliminação de qualquer referência à orientação sexual, identidade de género, diversidade ou inclusão em todas as leis, políticas e regulamentos federais americanos.

Apagar as pessoas transgénero das funções de serviço público

O Projeto 2025 demoniza especialmente a comunidade transgénero, equiparando o “transgenerismo” e a “ideologia transgénero” à “pornografia”. No seu manual para a administração Trump, os arquitetos do plano autoritário apelaram à reversão das políticas que permitem que as pessoas transgénero sirvam nas forças armadas. O presidente deu seguimento a este pedido assim que assumiu o cargo, levando à remoção de cerca de 1000 membros transgénero do serviço militar.

A Heritage Foundation, que liderou o Projeto 2025, afirma que a “disforia de género” é incompatível com o serviço militar e que “o uso de dinheiro público para cirurgias transgénero ou para facilitar o aborto para membros do serviço militar deve ser encerrado”. Refletindo a mesma posição ideológica, o Departamento de Defesa revogou uma política da era Biden que reembolsava os militares por viagens para fora do estado para procurar cuidados de saúde reprodutiva, incluindo abortos e serviços de fertilidade.

Recentemente, os ataques contra pessoas transgénero intensificaram-se dentro da órbita da Heritage Foundation. O Oversight Project, uma iniciativa conservadora que teve origem na Fundação, instou o FBI a classificar o que chama de “Extremismo Violento Inspirado pela Ideologia Transgénero” (TIVE) como uma categoria de terrorismo doméstico.

Na Guatemala, no Uganda e noutros países que assinaram a DCG, a implementação das políticas da declaração revela a crescente influência do Projeto 2025 no estrangeiro. Esta expansão internacional foi impulsionada em parte pelo Institute for Women’s Health (IWH), liderado por Valerie Huber, da DCG.

Huber tornou-se uma figura internacional fundamental na campanha contra os direitos sexuais e reprodutivos. De acordo com a Ipas, uma organização sem fins lucrativos global que expande o acesso ao aborto seguro e aos direitos reprodutivos, ela “não é uma profissional de saúde pública, mas apresenta o seu trabalho e a sua organização como especialistas no campo da saúde das mulheres”. Afirma continuamente, de forma falsa, que a ONU promove uma “ideologia extrema” e que infringe “o direito soberano das nações de determinarem as suas próprias leis”.

O IWH é uma das principais organizações por trás do Projeto 2025, uma vez que faz parte do Conselho Consultivo da iniciativa. Tanto Huber como Alma Golden, Diretora de Operações do IWH, são apresentadas como colaboradoras do Projeto 2025, que expôs em detalhe os planos políticos do projeto. Isto ilustra claramente a influência da organização, uma vez que o texto contém múltiplas referências à DCG.

Internacionalização do Projeto 2025 através da rede da DCG

Depois de os EUA se terem retirado da DCG sob a administração Biden, Huber e a sua organização trabalharam no alcance internacional da declaração, procurando atrair novos membros. A própria Huber participou na ratificação da DCG pela Guatemala em outubro de 2021. A pequena cerimónia, realizada durante a pandemia, foi presidida pelo então Presidente Alejandro Giammattei, que mais tarde foi impedido de entrar nos EUA pelo governo Biden devido a “corrupção significativa”. Também participou no evento virtualmente Damares Alves, ex-ministra do presidente brasileiro de extrema-direita Jair Bolsonaro, que em 2025 foi condenada a mais de 27 anos de prisão por planear um golpe militar e tentar “aniquilar” a democracia do país.

A Guatemala tornou-se o campo de testes para transformar a DCG de princípios abstratos em políticas públicas concretas. O governo do país foi o primeiro a promover um protótipo do projeto Protego, descrito pela organização de Huber como “o modelo do IWH para a implementação de políticas públicas consistentes com os valores” da DCG. O programa visa promover a agenda anti-mulher e anti-LGBTQ+ da Declaração através de políticas direcionadas para a educação e a saúde pública nos países signatários.

De acordo com a Ipas, “o Protego está claramente a tentar substituir o trabalho existente sobre gravidez na adolescência, educação sexual abrangente e outros programas de saúde vitais e cientificamente sólidos liderados por agências das Nações Unidas”. Estes incluem iniciativas promovidas pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), que são “frequentemente alvo de grupos antidirreitos”.

Na Guatemala, a parceria entre o IWH e o governo começou com o desenvolvimento de guias de formação para pais e professores em colaboração com o Ministério da Educação. Estes materiais foram “promovidos através de escolas, outros ministérios, ONG e organizações religiosas”. Os funcionários do ministério receberam formação do IWH sobre como implementar os materiais. O conteúdo reflete a ideologia do DCG, afirmando que “o casamento é um compromisso para toda a vida entre um homem e uma mulher”.

O material produzido pela Guatemala e pelo IWH promove a abstinência, afirmando que “a única maneira 100% eficaz de evitar a gravidez na adolescência é esperar até ao casamento para ter relações sexuais”. Também afirma que “a maioria” dos métodos de controlo da natalidade “não tem efeito na prevenção de infeções ou doenças sexualmente transmissíveis”. A Academia Americana de Pediatria reconhece que a abstinência sexual é a maneira mais eficaz de prevenir infeções sexualmente transmissíveis (IST). No entanto, também enfatiza que “quando os adolescentes e jovens adultos usam métodos de barreira de forma consistente e correta, esses métodos são um excelente meio para reduzir o risco de muitas IST, incluindo o VIH e prevenir a gravidez”.

De acordo com a investigação académica, “os programas apenas de abstinência são ineficazes na redução das taxas de natalidade entre adolescentes”. Em contraste, a promoção da educação sexual abrangente demonstrou reduzir a taxa geral de natalidade entre os adolescentes nos EUA.

Em 2024, o Uganda também aderiu à iniciativa Protego. O IWH coopera com o governo do país, apesar da sua posição contra a comunidade LGBTQ+, que impõe a pena de morte ou prisão perpétua para esta. Em 2025, a iniciativa acrescentou um novo aliado à sua lista, trazendo o Burundi para a Protego.

O papel da ajuda e da diplomacia na promoção de agendas antidireitos humanos

A agenda anti-mulher e anti-LGBTQ+ da DCG espalhou-se por toda a África, com cerca de 20 países agora signatários da Declaração de Genebra. De acordo com a organização Justice for Prosperity (JfP), a adoção desta iniciativa para desmantelar os direitos não ocorreu organicamente, “foi arquitetada por forças muito fora do continente”. Dois dos principais atores por trás deste impulso são organizações americanas: o IWH e a Family Watch International, liderada pela americana Sharon Slater.

Tanto Huber como Slater participaram na Cimeira Transatlântica realizada em Espanha em setembro de 2024, organizada pela Political Network for Values. O evento reuniu ativistas anti-mulher e anti-LGBTQ+ da Europa, das Américas e da África. Uma nova edição da cimeira teve lugar em fevereiro de 2026 no Parlamento Europeu, em Bruxelas, com a participação de representantes da Heritage Foundation, da Alliance Defending Freedom International (ADFI) e de Slater.

A investigação da JfP descobriu que “a ajuda externa e a diplomacia, especialmente dos EUA (e de outros como a Hungria e alguns estados do Golfo), foram usadas para pressionar os países a assinarem a DCG”. Em alguns casos, como o Sudão, a assinatura da Declaração “coincidiu com a remoção da lista de terrorismo dos EUA e com o aumento da ajuda ou do comércio”. Noutros casos, há possivelmente “provas” de “troca diplomática de votos” nas Nações Unidas “em troca da assinatura da DCG”.

Depois de aderirem à Declaração, alguns destes países “obtêm acesso a reuniões exclusivas” e “atraem doadores conservadores”. A JfP identificou casos de cooperação mútua dentro desta rede, incluindo um empréstimo de 295 milhões de dólares ao Uganda do Banco Islâmico de Desenvolvimento da Arábia Saudita “depois de os doadores ocidentais se terem retirado devido à lei anti-LGBTQ+ do Uganda”.

Fazendo eco da mesma narrativa promovida pela DCG e pelo IWH em África, o Projeto 2025 também apela a “rejeitar a promoção de políticas divisivas que prejudicam o aprofundamento de objetivos partilhados entre os EUA e os seus parceiros africanos”, referindo-se a “políticas sociais como o aborto e iniciativas pró-LGBT”, que descreve como “políticas nascidas nas guerras culturais americanas”.

Outra política implementada pela administração Trump e mencionada no Projeto 2025 é a “Regra da Cidade do México” antiaborto. Esta medida proíbe o financiamento federal a ONG estrangeiras que realizem ou aconselhem serviços de aborto. Introduzida pela primeira vez pelo Presidente Ronald Reagan em 1984, a regra tem sido consistentemente restabelecida por administrações republicanas e revogada pelas democratas.

O impacto humano dos ataques do Projeto 2025 à USAID

O Projeto 2025 também afirma que “é fundamental criar uma cultura saudável de respeito pela vida, pela família, pela soberania e pelos direitos humanos autênticos em organizações e agências internacionais”. Mesmo antes de Trump desmantelar a USAID, o documento já condenava o financiamento da agência a programas que promovem a “saúde sexual e reprodutiva e os direitos reprodutivos”, a “igualdade de género”, a “capacitação das mulheres”, bem como aqueles que defendem “aqueles que reivindicam o estatuto de minoria ou a vulnerabilidade”.

Um estudo da The Lancet descobriu que as intervenções e programas económicos da USAID tiveram um impacto maior para as mulheres, particularmente durante os seus anos reprodutivos. O relatório alerta que “se os cortes continuarem, poderão ocorrer mais de 14 milhões de mortes adicionais até 2030, incluindo mais de 4,5 milhões entre crianças com menos de cinco anos”. Desde a decisão de Trump de encerrar a USAID, só África perdeu mais de 8 mil milhões de dólares em financiamento.

Os investigadores analisaram dados de 133 países de 2001 a 2021. Estimam que os programas da USAID ajudaram a prevenir mais de 91 milhões de mortes durante esse período. “Nos países que recebem altos níveis de apoio, o impacto mais forte foi observado nas áreas prioritárias de doenças: a mortalidade por VIH/SIDA foi reduzida em 74%, a malária em 53% e as doenças tropicais negligenciadas em 51%, em comparação com os países com baixo ou nenhum financiamento da USAID”, afirma o relatório.

A administração Trump seguiu sistematicamente o caminho traçado pelo Projeto 2025. As Nações Unidas tornaram-se um dos seus principais alvos internacionais. A administração cortou mil milhões de dólares do financiamento da ONU previamente aprovado, deixou de financiar a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) e retirou-se da OMS. Como resultado destes cortes, a ONU anunciou que reduzirá um quarto do pessoal de manutenção da paz em nove operações em todo o mundo, incluindo no Sudão do Sul, na República Democrática do Congo, no Líbano, no Kosovo e na zona desmilitarizada dos Montes Golã, entre Israel e a Síria.

Tal como no seu primeiro mandato, Trump retirou os EUA do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas poucos dias depois de regressar à Casa Branca. Os EUA também se afastaram da revisão regular da ONU do seu historial de direitos humanos, conhecida como Revisão Periódica Universal.

A administração Trump também redefiniu o conceito de direitos humanos no Relatório de Direitos Humanos de 2024 do Departamento de Estado, emitido durante o segundo mandato de Trump. O relatório adota uma abordagem que se afasta das normas internacionais de direitos humanos e reflete as ideias do Projeto 2025. Omite referências à discriminação contra as pessoas LGBTQ+ ou à violência contra as mulheres.

O Washington Post informou que Samuel Samson, conselheiro sénior da Direção-Geral de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho (DRL), redigiu a diretiva interna para remover referências aos direitos humanos, à violência contra pessoas LGBTQ+ e à corrupção governamental. Fazendo eco do apelo do Projeto 2025 a novas alianças globais, Samson publicou um artigo no site do departamento intitulado The Need for Civilizational Allies in Europe (Necessidade de aliados civilizacionais na Europa). Nele, acusou os países europeus de terem “degenerado num foco de censura digital, migração em massa, restrições à liberdade religiosa e outros ataques ao autogoverno democrático”.

O relatório afirma que, em países como a Hungria e El Salvador, “não se registaram relatos credíveis de violações significativas dos direitos humanos”. No entanto, a análise anual de 2024 da Amnistia Internacional descreveu “detenções arbitrárias e violações dos direitos humanos” sob o mandato do presidente de El Salvador, Nayib Bukele.

O Relatório de Direitos Humanos de 2024 da administração Trump também não faz referência à situação das pessoas LGBTQ+ no Uganda, apesar de ter sido promulgada uma lei que impõe a pena de morte ou prisão perpétua para estas um ano antes.

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Organizações do Projeto 2025 que transformam a ordem internacional

Uma rede alinhada com a administração dos EUA e a Heritage Foundation está a trabalhar para reformular as normas de direitos humanos em todo o mundo. Organizações como a Alliance Defending Freedom, o Institute for Women’s Health, o American Center for Law and Justice e a Family Watch International estão a promover políticas que restringem os direitos das mulheres, das pessoas LGBTQ+ e de outras comunidades marginalizadas em todo o mundo.

Através da litigância, da coordenação transnacional, da formação política e da mobilização dos jovens — e estreitamente afetas ao Projeto 2025 — estas organizações estão a exportar uma agenda antidireitos coordenada. Esta secção examina os principais atores e estratégias que impulsionam essa campanha.

As organizações marcadas com um asterisco indicam que o grupo está oficialmente afiliado ao Projeto 2025.

Alliance Defending Freedom (ADF)*
Scottsdale, Arizona

Fundada em 1994 por 35 líderes da direita cristã, a ADF passou décadas a trabalhar para fazer retroceder os direitos das mulheres e das pessoas LGBTQ+ nos EUA e no estrangeiro. Através da sua filial global, a ADF International (ADFI), a organização opera em todos os continentes. Faz lobby junto de decisores políticos e governos para promover a sua agenda nacionalista cristã, constrói redes com organizações anti-mulher e anti-LGBTQ+ em todo o mundo, envolve-se em litigâncias estratégicas perante tribunais internacionais, como o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH) e o Tribunal Interamericano dos Direitos Humanos (TIDH) e realiza campanhas online para divulgar os seus casos emblemáticos. A ADF também tem estatuto consultivo no Conselho Económico e Social das Nações Unidas (ECOSOC), o que lhe permite fazer lobby dentro da ONU e das suas várias subsidiárias.

Por trás da sua fachada “pró-família”, a ADF e a ADFI têm pressionado para eliminar o acesso à contraceção e ao aborto, a filial nacional promoveu a criminalização de atos sexuais entre indivíduos LGBTQ+ com consentimento e difundiu teorias da conspiração sobre uma chamada “agenda homossexual” que supostamente ameaça a sociedade. A organização alegou falsamente que as pessoas LGBTQ+ têm mais probabilidades de serem pedófilas e tem trabalhado para negar direitos às pessoas transgénero (ver o relatório anterior da GPAHE sobre a ADF aqui).

A ADF ganhou notoriedade global em 2022 pelo seu papel fundamental por trás da campanha que levou à revogação do caso Roe contra Wade, pondo fim ao direito constitucional ao aborto nos EUA. No entanto, a ADF também estava ativa internacionalmente há muito tempo, a trabalhar para minar os direitos das mulheres e LGBTQ+ em todo o mundo.

Em 2013, a ADF fez lobby no Belize para impedir a revogação de uma lei draconiana que punia a “relação carnal contra a ordem da natureza” com penas até dez anos de prisão. Em 2016, a ADFI pressionou para um referendo na Roménia para se opor às uniões civis entre pessoas do mesmo sexo. Alargando os seus esforços à América Latina, a ADFI enviou em 2018 um representante ao Parlamento argentino para se opor à legalização do aborto.

Como parte da sua campanha global para fazer retroceder os direitos e as liberdades, a ADF interveio em 2011 no primeiro caso LGBTQ+ apreciado pelo Tribunal Interamericano dos Direitos Humanos (TIDH). No caso de Karen Atala Riffo contra o Chile, um tribunal chileno decidiu que a relação lésbica de Atala ameaçava o desenvolvimento dos seus filhos e ordenou que renunciasse à custódia. A ré apresentou então uma queixa de discriminação perante a CIDH. A ADF apresentou um parecer amicus — um documento apresentado por uma parte externa que procura influenciar o tribunal — argumentando que a orientação sexual não deveria ser uma categoria de não discriminação. Em 2012, a CIDH decidiu a favor de Atala e ordenou que o Chile lhe pagasse uma indemnização.

Quase uma década depois, a ADFI participou noutro caso: Beatriz et al. contra El Salvador perante o TIDH. O caso abordou as consequências da criminalização absoluta do aborto em El Salvador (ver Capítulo 6).

Em 2024, a CIDH decidiu que El Salvador era responsável pela violência obstétrica e pela violação do direito à saúde de Beatriz. A ADFI defendeu “a necessidade de respeitar o princípio democrático dos Estados”, bem como a “necessidade de um Estado proteger a vida do nascituro”. A ADFI tem tido um forte foco na Europa à medida que avança a sua expansão internacional. Em 2010, foi aceite no Registo de Transparência da UE sob o nome de ADF International Belgium, o que permite à organização influenciar as políticas das instituições da UE. Em todo o continente, opera através de filiais independentes registadas no Reino Unido, Bélgica, França, Alemanha, Áustria e Suíça.

Conforme documentado pelo relatório da GPAHE que analisa as conferências de extrema-direita como veículos para a criação de redes e a promoção de uma agenda antidir-eitos, a ADF e a ADFI têm sido participantes recorrentes em eventos como a CPAC, a Pan-African Conference on Family Values, o World Congress of Families e as Cimeiras Transatlânticas da Political Network for Values (PNfV). Entre 2000 e 2024, os representantes da ADF participaram em mais de 10% dos 302 eventos analisados pelo GPAHE.

Na Polónia, a ADFI trabalhou em estreita colaboração com grupos polacos de extrema-direita que impulsionaram a defesa da restrição do direito ao aborto. Em 2020, o Tribunal Constitucional polaco, repleto de juízes leais ao partido populista de extrema-direita PiS (Lei e Justiça), decidiu que uma lei que autorizava o aborto em casos de malformação fetal era inconstitucional. A decisão criou efetivamente uma proibição quase total do aborto no país.

Posteriormente, a ADFI interveio como terceiro para defender a decisão perante o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. Três anos depois, o Tribunal considerou que a Polónia tinha violado o direito ao respeito pela vida privada e familiar de uma mulher que foi forçada a viajar para o estrangeiro para interromper uma gravidez com graves anomalias fetais.

Recentemente, os funcionários da ADFI também se alinharam com o governo de extrema-direita da Itália, liderado por Giorgia Meloni. Em outubro, participaram num evento paralelo na sede das Nações Unidas com a Ministra da Família italiana, Eugenia Roccella, que enquadrou as tecnologias de reprodução assistida, como a barriga de aluguer, como “uma forma de violência contra mulheres e raparigas”. Este discurso faz eco da posição da Heritage Foundation, que, através de Emma Waters, investigadora associada sénior da organização, argumentou que a barriga de aluguer e a FIV equivalem a “concubinato” e a “uma forma de escravatura”.

Estas posições refletem um esforço cada vez mais coordenado dos grupos conservadores para restringir as tecnologias de reprodução assistida, em grande parte porque são usadas pelas famílias LGBTQ+. Nos últimos anos, a ADFI também esteve envolvida em vários casos perante o TEDH relativos à barriga de aluguer e à fertilização in vitro (FIV) na Suíça e em França.

Nos últimos meses, a crescente presença da ADF e da ADFI na Europa também se tornou evidente no Reino Unido. Em outubro de 2025, uma investigação do New York Times revelou o envolvimento político do grupo devido às suas ligações com o Reform UK, o partido de extrema-direita liderado pela figura que liderou as campanhas do Brexit, Nigel Farage. O relatório concluiu que a expansão da ADF na Grã-Bretanha coincidiu com uma mudança notável nas posições políticas de Farage. Depois de evitar o debate sobre o aborto durante mais de 30 anos, começou, no final de 2024, a questionar o limite legal do aborto no país.

No Reino Unido, a organização esteve envolvida em vários casos relativos a indivíduos que rezavam à porta de clínicas de aborto ou ofereciam o que chamavam de “ajuda caritativa” em áreas legalmente protegidas para evitar o assédio de mulheres que procuram cuidados de aborto.

Um caso que chamou a atenção dos EUA envolveu a ativista antiaborto Livia Tossici-Bolt, que foi condenada em abril por violar uma “zona tampão” legalmente protegida fora de uma clínica de aborto. Recebeu uma pena suspensa de dois anos e uma multa de 20 000 libras.

A ADFI procurou reformular estes casos, minimizando o assédio e apresentando-os como um “ponto de viragem legal de imensas proporções” que supostamente põe em perigo a “liberdade de expressão”. No Senado dos EUA, a ADF está a fazer lobby sobre questões “relacionadas com a liberdade de expressão na Europa”.

Em junho, o embaixador dos EUA no Reino Unido, Warren Stephens, reuniu-se com a organização, elogiando o seu papel na defesa da “liberdade de expressão” e incentivando-a a continuar “o bom trabalho”. De Washington, a administração Trump fez eco desta retórica, apoiando publicamente os casos da ADFI no Reino Unido e afirmando estar “preocupada com a liberdade de expressão” no país.

O ramo internacional da ADF considera os esforços da UE para moderar o conteúdo online, incluindo medidas contra o discurso de ódio, a desinformação e outros conteúdos prejudiciais, como uma forma de “censura“.

Paul B. Coleman, diretor executivo da ADFI, criticou a Lei dos Serviços Digitais (DSA) da UE. O regulamento exige que as plataformas de redes sociais removam conteúdos que infrinjam as leis dos Estados-Membros da UE e tornem os algoritmos das redes sociais mais transparentes para reduzir o potencial de disseminação de desinformação. Coleman comparou estas medidas à censura em regimes autoritários, alegando que “a liberdade de expressão está novamente sob ameaça neste continente de uma forma que não estava desde o pesadelo dos regimes autoritários da Europa há apenas algumas décadas”.

American Center for Law and Justice (ACLJ)*
Virginia Beach, Virginia

Uma organização anti-LGBTQ+ e antimulher liderada por Jay Sekulow, advogado de longa data de Trump, foi originalmente criada por Pat Robertson, um dos fundadores da Direita Cristã da América. Através das suas afiliadas regionais, como o East African Center for Law and Justice (EACLJ) e o European Centre for Law and Justice (ECLJ), o ACLJ trabalha para promover leis e políticas cristãs conservadoras em toda a África, Europa e América Latina.

A filial europeia do ACLJ lançou uma campanha contra o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH), questionando a independência do tribunal. A organização publicou vários relatórios que ligam os juízes do TEDH à Open Society Foundation de George Soros, um bicho-papão comum para a extrema-direita. De acordo com Neil Datta, diretor executivo do Fórum Parlamentar Europeu sobre Direitos Sexuais e Reprodutivos e autor do relatório The Next Wave, o ECLJ também fez campanha ativa contra a inclusão do direito ao aborto na Constituição francesa.

Na sua cruzada nacionalista cristã, o ECLJ participou no processo perante o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH), apoiando a posição da Itália contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Entre os seus argumentos perante o Tribunal, a organização chegou mesmo a questionar “porque é que a homossexualidade era mais aceitável do que a poligamia”.

O ECLJ participou em litigâncias estratégicas na América Latina, apoiando El Salvador no caso “Manuela”. Manuela foi condenada a 30 anos de prisão após uma emergência obstétrica que resultou na perda da sua gravidez. Dois anos depois, morreu de cancro na prisão depois de receber tratamento médico inadequado. O Tribunal Interamericano dos Direitos Humanos considerou El Salvador responsável pela morte de Manuela e pela violação, entre outros direitos, dos seus direitos à vida, à saúde e à não discriminação.

Center for Family and Human Rights (C-Fam)*
New York, New York

O C-Fam foi fundado em 1997 para “monitorizar e influenciar o debate sobre política social nas Nações Unidas e noutras instituições internacionais”, de acordo com o seu site. O seu presidente, Austin Ruse, é um feroz opositor do aborto e dos direitos LGBTQ+. Ruse apoiou a lei de propaganda antigay da Rússia – que criminaliza a liberdade de expressão em questões LGBTQ+ – chamando-lhe uma nobre busca pelos “direitos humanos” e assinou uma declaração conjunta em apoio a ela.

Durante anos, Ruse e a sua organização fizeram lobby contra os direitos de saúde sexual e reprodutiva e a igualdade para as pessoas LGBTQ+ na ONU, onde a C-Fam tem estatuto consultivo. Em 2012, até ajudaram a bloquear um tratado da ONU que protegia os direitos das pessoas com deficiência porque, segundo o grupo, era “pró-aborto”.

Ruse faz parte da Vision Network (anteriormente chamada Agenda Europe), uma aliança transnacional que promove políticas anti-aborto e anti-LGBTQ+ em toda a Europa. O manifesto divulgado da rede, “Restaurar a Ordem Natural”, continha argumentos e ideias semelhantes à teoria da conspiração da “Grande Substituição” da supremacia branca, alegando que os europeus brancos estão a ser “substituídos” intencionalmente pela imigração em massa não branca e por pessoas com valores cada vez mais seculares e progressistas.

Uma investigação do GPAHE identificou Ruse como uma das principais figuras do movimento global anti-LGBTQ+. Ruse atua como uma ponte entre grupos anti-LGBTQ+, nacionalistas cristãos russos e a rede do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán. Ruse participou em vários eventos do World Congress of Families, incluindo os realizados em Varsóvia (2007), Amesterdão (2009) e Madrid (2012). Em 2023, também participou num evento de conferência do Danube Institute pró-Orbán intitulado “Why Hungary Should Break the EU Consensus on Sexual Issues at the U.N.” e na Cimeira Transatlântica organizada pela Political Network for Values na sede da ONU em Nova Iorque. 

Family Research Council (FRC)* 
Washington, D.C.

Uma das organizações mais influentes afiliadas ao Projeto 2025, a FRC mantém laços estreitos com grupos de extrema-direita nos EUA. Liderada por Tony Perkins – que comparou as pessoas LGBTQ+ a pedófilos e uma vez falou ao Council of Conservative Citizens, grupo supremacista branco americano – a organização está ligada a movimentos antigénero na Europa e em África. De acordo com a investigação da GPAHE, o FRC está entre os grupos dos EUA que frequentemente promovem a “terapia de conversão”, a prática desacreditada e perigosa, proibida em muitos países, que procura mudar a orientação ou a identidade de uma pessoa.

O FRC desempenhou um papel na política africana. Em 2010, o grupo fez lobby contra uma resolução do Congresso dos EUA (H. Res. 1064) que propunha condenar o projeto de lei antigay do Uganda. Perkins pretendia “remover afirmações abrangentes e imprecisas de que a conduta homossexual é reconhecida internacionalmente como um direito humano fundamental”.

Sete anos depois, participou numa reunião no Cairo com outros líderes evangélicos dos EUA e com o presidente egípcio Abdel Fattah el-Sisi, que implementou políticas repressivas que levaram à prisão de indivíduos LGBTQ+. De acordo com o grupo neerlandês de direitos humanos Justice for Prosperity, Perkins visitou a Nigéria e o Gana para se reunir com legisladores e defender a liberdade religiosa e as políticas “pró-família”.

O FRC é também uma das quatro organizações americanas que patrocinaram o African Christian Professionals Forum (ACPF), juntamente com a Heritage Foundation, o Institute for Women’s Health e a Family Watch International.

Em maio de 2025, o ACPF organizou a segunda Conferência Pan-Africana em Nairóbi, no Quénia, centrada na “proteção da família em África”. Os participantes identificaram a “promoção da Educação Sexual Abrangente” e a “defesa das ideologias de Identidade de Género” como “áreas de grande preocupação”. Alguns dos oradores eram opositores declarados dos direitos queer, incluindo o deputado queniano Peter Kaluma, que apoiou a prisão perpétua para as pessoas LGBTQ+.

Em representação do FRC, Travis Weber, vice-presidente da organização para políticas e assuntos governamentais, discursou na conferência. Outros oradores de grupos antidireitos sediados nos EUA incluíram Sharon Slater, presidente da Family Watch International; Bettina Roska, da ADF International; Valerie Huber, do Institute for Women’s Health; e Austin Ruse, do Center for Family and Human Rights.

Family Watch International (FWI)
Gilbert, Arizona

A FWI é uma organização anti-LGBTQ+ que procura influenciar a política internacional, particularmente na ONU e em toda a África. O grupo tem estatuto consultivo no Conselho Económico e Social da ONU, uma designação que lhe permite fazer lobby dentro da instituição.

A presidente da FWI, Sharon Slater, é membro do conselho de administração da Political Network of Values, juntamente com Brian Brown, do World Congress of Families. A presidente da FWI tem opiniões abertamente homofóbicas e promoveu a terapia de conversão para as pessoas LGBTQ+. Escreveu declarações falsas que retratam os indivíduos LGBTQ+ como propensos a doenças, “significativamente mais promíscuos” e “significativamente mais propensos a envolver-se em pedofilia”.

Slater esteve profundamente envolvida na organização política por trás da infame lei do Uganda que criminalizava as pessoas LGBTQ+. Embora Slater negue qualquer ligação a isso, a CNN informou que a sua organização ajudou os membros do parlamento a promover a legislação e a moldar a sua redação. Duas semanas após o parlamento do Uganda ter aprovado uma lei que introduzia a pena de morte para casos de “homossexualidade agravada”, Janet K. Museveni, a primeira-dama do Uganda, reuniu-se com Slater e a sua equipa. As fotografias do encontro foram partilhadas na conta X de Museveni. No mesmo tópico, a Primeira-Dama escreveu: “Elogio o Parlamento do Uganda por aprovar o projeto de lei anti-homossexualidade, que capacita os ugandeses a resistir a tais males impostos aos nossos filhos.”

Heritage Foundation*
Washington, D.C.

O “think tank” de extrema-direita Heritage Foundation liderou o Projeto 2025. Fundada em 1973, a organização ganhou destaque durante a presidência de Ronald Reagan e continua a ser uma organização influente no movimento de extrema-direita. Nos últimos anos, a Heritage Foundation foi-se deslocando cada vez mais para a direita, deixando para trás a sua história reaganista durante os anos de Trump em prol de uma política mais extremista.

Numa entrevista de 2024 ao New York Times, o presidente da Heritage Foundation, Kevin D. Roberts, afirmou que o papel da Heritage é “institucionalizar o Trumpismo” através do Projeto 2025. Pelo menos 66 dos seus funcionários e ex-alunos serviram na primeira administração de Trump. Uma análise da GPAHE publicada em abril de 2025 descobriu que a rede do Projeto 2025 tem pelo menos 40 ligações à nova administração Trump.

Roberts elogiou o regime de Orbán, um governo antidemocrático, anticivil e antidireitos humanos. A Heritage Foundation apoiou abertamente a agenda nacionalista cristã de Orbán. O seu presidente descreveu a Hungria como “o modelo” para a “arte de governar” conservadora, dizendo que todos “deveriam aprender com ela” e posicionou a sua organização como uma “grande defensora dela em ambos os lados do Atlântico“.

Como parte de uma crescente aliança transatlântica, a Heritage, o governo de Orbán e as instituições ligadas ao líder autoritário húngaro — como o Danube Institute, o Mathias Corvinus Collegium e o Center for Fundamental Rights — reforçaram a sua colaboração entre si e com outras organizações de extrema-direita, antimulher e anti-LGBTQ+, através de eventos internacionais em toda a Europa, África e Américas.

Como a GPAHE documentou, as ligações entre a Heritage Foundation e o regime de Orbán são muito profundas e continuam a fortalecer-se. Em março de 2023, a Heritage e o Danube Institute, um “think tank” financiado pelo governo da Hungria, assinaram um acordo formal que permite aos investigadores da Heritage trabalhar em Budapeste como bolseiros visitantes e coorganizar eventos conjuntos.

Dois anos depois, em setembro de 2025, a Heritage Foundation organizou a 5.ª Cimeira Geopolítica em Budapeste, em colaboração com o Danube Institute. Membros da equipa da Heritage — incluindo James Jay Carafano e Eugene Kontorovich — abordaram temas como a política energética, a “irrelevância” das instituições internacionais e a migração, sob a questão: “As nações podem escolher os seus membros?”.

A atividade da Heritage no Parlamento Europeu aumentou. Só nos últimos 12 meses, o grupo realizou sete reuniões com deputados do Parlamento Europeu (eurodeputados), em comparação com apenas uma nos cinco anos anteriores, de acordo com registos obtidos pelo Politico.

A organização de Roberts também promoveu a sua agenda pró-natalista na Europa. Em outubro de 2025, o grupo participou numa conferência em Itália que se concentrou na crise demográfica da Europa e na ideia de que o declínio das taxas de natalidade ameaça a civilização ocidental. Entre os oradores estava a Ministra da Família italiana, Eugenia Roccella, do governo de extrema-direita de Giorgia Meloni.

Para além da Europa, a Heritage Foundation também expandiu o seu alcance internacional por toda a África. A organização copatrocinou o African Christian Professionals Forum (ACPF). Em 2025, o ACPF realizou a sua segunda Conferência Pan-Africana em Nairóbi, no Quénia, reunindo políticos e organizações de extrema-direita de África, dos EUA e da Europa para denunciar a educação sexual, atacar os direitos reprodutivos e promover uma visão conservadora da família.

Quatro anos antes, também no Quénia, a Heritage promoveu um evento paralelo durante a Cimeira de Nairóbi do Fundo de População das Nações Unidas para comemorar o 25.º aniversário da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento. O painel, chamado “Proteger a Vida nas Políticas Globais de Saúde”, incluiu representantes dos EUA, Brasil, Hungria, Polónia, Quénia e da Santa Sé. A Heritage, agora liderada por Roberts, criticou os “esforços” dos “think tanks internacionais” para “promover o aborto”.

Na América Latina, a Heritage apoiou o presidente de extrema-direita da Argentina, Javier Milei, e o líder autoritário de El Salvador, Nayib Bukele. A retórica de Milei reflete a agenda antimulher e anti-LGBTQ+ que define o Projeto 2025. Opôs-se repetidamente à igualdade para as mulheres no país e chegou mesmo a comparar a homossexualidade a fazer sexo com animais.

Roberts reuniu-se com Milei em Buenos Aires em março de 2025 e, depois de o partido do presidente ter vencido as eleições intercalares em outubro de 2025, o líder da Heritage celebrou o resultado, apelidando-o de “uma era de ouro para as pessoas comuns na América, na Argentina e num número crescente de países da Europa”.

O “think tank” conservador também elogiou as políticas de segurança autoritárias de Bukele em El Salvador, que foram lançadas sob o pretexto de combater o crime de gangues. Num artigo no seu site, o analista sénior de políticas, Andrés Martínez-Fernández, elogiou as campanhas policiais e militares de Bukele, afirmando que “os resultados têm sido impressionantes”. No entanto, não fez qualquer menção às detenções arbitrárias em massa e às violações sistemáticas dos direitos humanos relatadas por grupos de direitos humanos.

Institute for Women’s Health (IWH)*
Washington, D.C.

A missão da organização é preservar e expandir o alcance internacional da Declaração do Consenso de Genebra (DCG) contra os direitos das mulheres e contra a comunidade LGBTQ+. A declaração afirma que “não existe um direito internacional ao aborto” e foi endossada pela administração Trump no seu primeiro mandato. Vários regimes autoritários ratificaram a DCG, incluindo a Hungria, a Arábia Saudita, a Rússia e o Sudão.

Fundado em 2021 por Valerie Huber, o IWH desempenhou um papel central na promoção da expansão global da DCG. Antes de criar a organização, Huber atuou como Representante Especial dos EUA para a Saúde Global da Mulher durante o primeiro mandato de Trump. Sob a sua liderança, o Instituto recrutou novos países signatários, mesmo depois de a administração Biden se ter retirado da declaração.

Tornou-se uma voz internacional de destaque na campanha para fazer retroceder os direitos reprodutivos em todo o mundo. Através do Instituto, promoveu a implementação da ideologia da DCG em algumas nações signatárias. No Uganda, no Burundi e na Guatemala, a sua organização fez parceria com os governos para implementar o programa Protego, que promove a agenda da declaração através de iniciativas de educação e saúde pública.

VHuber

Valerie Huber, presidente do Institute for Women’s Health e uma das principais arquitetas da Declaração do Consenso de Genebra.

Leadership Institute (LI)*
Arlington, Virginia

Fundada em 1979 por Morton C. Blackwell, a organização descreve a sua missão como “aumentar o número e a eficácia dos ativistas e líderes conservadores no processo de políticas públicas”. Em consonância com as ambições internacionais do Projeto 2025, o LI fez parcerias com grupos extremistas no estrangeiro, colaborando com organizações anti-LGBTQ+ e antimulher. Na Europa, trabalhou com a CitizenGO na formação em angariação de fundos, e o presidente da CitizenGO, Ignacio Arsuaga, participou numa sessão do LI em Jerusalém em 2023.

Os programas de formação do Instituto também envolveram Samuel Ángel, um ativista colombiano contra os direitos reprodutivos. Em 2021, Ángel incitou ao assédio online contra os juízes do Tribunal Constitucional da Colômbia, que estavam a deliberar sobre a descriminalização completa do aborto, embora não tenham sido apresentadas acusações. Em última análise, o tribunal aprovou a decisão.

Os membros do LI também participaram em eventos internacionais de extrema-direita ao lado de representantes da ADF, quando esta se chamava Alliance Defense Fund. A sua participação no World Congress of Families (WCF), um dos eventos mais influentes que promovem agendas antimulher e anti-LGBTQ+ em todo o mundo, ilustra as ligações transnacionais entre organizações antidireitos em todo o mundo.

Na conferência do WCF de 2012 em Espanha, Miguel Moreno, que era então diretor de Formação Internacional do LI, manifestou-se contra as famílias diversas e do mesmo sexo. Argumentou que “as crianças correm um enorme perigo se forem adotadas por famílias que não se enquadram no que entendemos como a família natural”.

Turning Point USA (TPUSA)
Indianapolis, Indiana

O TPUSA foi fundado em 2012 por Charlie Kirk, um comentador nacionalista cristão e fervoroso defensor do Projeto 2025, que foi assassinado a 10 de setembro de 2025. Fez repetidamente afirmações racistas, sexistas e extremistas ao seu público.

As suas opiniões eram frequentemente marcadas por uma intolerância evidente. De acordo com Kirk, “a DEI é racismo institucionalizado” e “o papel das mulheres é apoiar os homens”. Mesmo os ícones dos direitos civis não estavam isentos da sua retórica extremista. Chamou a Martin Luther King Jr. “horrível” e “não uma boa pessoa”. Em relação à raça, promoveu o discurso de ódio: “Acontece constantemente na América urbana, negros à espreita andam por aí por diversão para atacar pessoas brancas.” Também questionou a competência dos profissionais negros, observando: “Se eu vir um piloto negro, vou pensar: ‘Espero que ele seja qualificado.'”

Após o assassinato de Kirk, a sua viúva, Erika Kirk, assumiu a organização. A TPUSA foi descrita como a “ala juvenil MAGA” do movimento conservador. Forma jovens conservadores num quadro ideológico que retrata a democracia como uma guerra espiritual.

Com o tempo, Kirk passou de ativista conservador secular a defensor teológico do domínio cristão. Adotou o Mandato das Sete Montanhas da Nova Reforma Apostólica (NRA), que apela ao controlo cristão sobre sete domínios da sociedade: o governo, a educação, a religião, a família, as empresas, os meios de comunicação social e o entretenimento. Sob a sua liderança, a TPUSA cresceu e tornou-se uma rede influente baseada nestes princípios. Também atraiu alegações de fraude por parte de antigos funcionários que viram, segundo dizem, figuras proeminentes da NRA a encher os bolsos nos palcos da TPUSA.

Antes da sua morte, Kirk começou a expandir a sua influência no estrangeiro, participando em eventos no Japão e na Coreia do Sul. Em 2019, a organização lançou uma filial internacional, a Turning Point UK (TPUK), que visava “desafiar o preconceito de tendência para a esquerda nas nossas instituições e na sociedade em geral”. À semelhança da sua homóloga nos EUA, a TPUK instou os estudantes a denunciar professores por alegado “preconceito político”. Tais táticas nos EUA resultaram em ameaças de morte e de violação contra académicos e as suas famílias.

A TPUK foi lançada com o apoio financeiro de John Mappin, cientologista e milionário proprietário de hotéis. Mappin supostamente apoia a teoria da conspiração antissemita de extrema-direita QAnon, que alega que o chamado “Estado profundo”, os democratas e figuras judaicas bem conhecidas, como o filantropo George Soros, estão envolvidos em operações secretas de tráfico de crianças.

World Congress of Families (WCF) / International Organization for the Family (IOF)
Rockford, Illinois

O WCF é um fórum que há muito tempo serve como um dos maiores encontros de ativistas anti-LGBTQ+, antiaborto e nacionalistas cristãos em todo o mundo. O WCF é um projeto da Organização Internacional para a Família (IOF) anti-LGBTQ+ e foi fundado durante uma reunião realizada na Rússia em 1997 por dois sociólogos russos da Universidade Estatal de Moscovo, Anatoly Antonov e Viktor Medkov, juntamente com o ex-funcionário da administração Reagan, Allan Carlson.

Até à invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, o evento contava regularmente com oradores com laços estreitos com grupos pró-Kremlin. Também atraiu oradores anti-mulher e anti-LGBTQ+ das Américas, da África e da Europa, bem como figuras políticas de extrema-direita como a eurodeputada de extrema-direita francesa Marion Maréchal Le Pen; o italiano Matteo Salvini, líder do partido anti-imigração Lega; a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni e o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán.

Brian Brown, atual presidente da International Organization for the Family, é um defensor da perseguição de Putin às pessoas LGBTQ+ na Rússia e compara regularmente a homossexualidade à pedofilia. Brown viaja muito fazendo lobby contra os direitos LGBTQ+. Nos últimos meses, emergiu como um dos principais promotores das opacas conferências “Make Europe Great Again” (MEGA), participando em reuniões na Roménia, Croácia e Moldávia. Neste último caso, as autoridades moldavas inicialmente negaram-lhe a entrada, mas mais tarde foi autorizado a participar, alegadamente após a intervenção dos EUA. O Serviço de Informação e Segurança (SIS) do país alertou que a MEGA fazia “parte de um espectro mais amplo de ações híbridas empreendidas pela Rússia no território da República da Moldávia”.

Em dezembro de 2024, as autoridades dos EUA indiciaram formalmente o representante russo do WCF, Alexey Komov, sob a acusação de “conspiração” pelo seu papel “num esquema multifacetado para violar e contornar as sanções dos EUA impostas a um importante financiador [Konstantin Malofeev] da agressão russa na Ucrânia”.

O presidente da CitizenGO, Ignacio Arsuaga, organizou o World Congress of Families em Madrid em 2012.

Infraestrutura internacional do Projeto 2025

Para fazer avançar a agenda do Projeto 2025 para além das fronteiras dos EUA, a administração Trump e a Heritage Foundation contaram com uma rede de organizações internacionais, muitas delas aliadas de longa data de agentes antidirteitos americanos.

Na Europa, organizações ligadas ao governo húngaro, como o Danube Institute e o Center for Fundamental Rights, apresentam-se como grupos de reflexão enquanto trabalham para tornar as prioridades autoritárias do Projeto 2025 políticas dentro das instituições da UE.

Grupos dos EUA oficialmente afiliados ao Projeto 2025 reúnem-se com parceiros regionais em toda a África e Europa para coordenar estratégias anti-mulher e anti-LGBTQ+. Estas reuniões incluem a Pan-African Conference on Family Values em Nairobi (2025) e a Cimeira Transatlântica no Parlamento Europeu em fevereiro de 2026, organizada pela Political Network for Values (PNfV).

Estes atores contribuem para promover a agenda política do manual autoritário. Na Guatemala, por exemplo, a Family Matters Association (Asociación La Familia Importa) pressionou com sucesso o governo em 2020 para impedir que a Planned Parenthood abrisse um escritório no país. Esta medida reflete o quadro contra os direitos reprodutivos delineado no Projeto 2025.

Estes grupos reforçam o alcance transnacional do Projeto 2025. A secção seguinte mapeia as organizações por trás desta agenda e as redes que as ligam.

Africa Christian Professionals Forum (ACPF)
Nairobi, Kenya

O ACPF é uma organização antimulher e anti-LGBTQ+ que se apresenta como uma plataforma de “profissionais cristãos de diferentes denominações cristãs que partilham valores comuns sobre a vida, a família, a boa governação, a educação baseada em valores e a liberdade religiosa”. Fundado em 2020, o ACPF é a filial regional da sua organização-mãe, o Kenya Christian Professional Forum.

O ACPF organizou a Pan-African Conference on Family Values em Nairobi, em maio de 2025, que reuniu algumas das organizações antidireitos mais influentes dos EUA, de África e da Europa. Na conclusão do evento, o grupo emitiu uma declaração conjunta identificando a “promoção da Educação Sexual Abrangente” e a “defesa das ideologias de Identidade de Género” como “áreas de grande preocupação“.

Na última edição da Conferência Pan-Africana, os oradores incluíram representantes de grandes organizações dos EUA, como o Family Research Council, a Family Watch International, o Center for Family and Human Rights, a Alliance Defending Freedom International (ADFI) e o Institute for Women’s Health (IWH). A participação europeia veio de grupos como a Ordo Iuris (Polónia) e o Christian Council International (Países Baixos).

O programa também contou com proeminentes opositores locais dos direitos LGBTQ+, incluindo o deputado queniano Peter Kaluma, que defendeu a prisão e a prisão perpétua para as pessoas LGBTQ+. Durante o evento, Kaluma celebrou a eleição de Donald Trump como presidente dos EUA. “Esperamos ver mais republicanos a vencer em futuras eleições”, disse ele.

Apesar dos seus esforços para se apresentar como uma plataforma com raízes locais, o site do ACPF lista quatro organizações parceiras, todas com sede nos Estados Unidos: o Family Research Council, a Heritage Foundation, o Institute for Women’s Health e a Family Watch International. As três primeiras fazem parte do conselho consultivo do Projeto 2025. A próxima Conferência Pan-Africana está prevista para ocorrer na África do Sul em 2027.

Alapjogokért Központ – Center for Fundamental Rights (CFR)
Budapest, Hungary; Madrid, Spain

O CFR, fundado em Budapeste em 2013, funciona como uma organização de propaganda para o regime do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán e opera sob o lema “Deus, Pátria, Família”. Desde 2022, o seu projeto principal tem sido a organização da primeira Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) na Europa.

A organização tem trabalhado para expandir a sua rede e fortalecer os laços com organizações internacionais de extrema-direita, organizando visitas, reuniões e workshops com entidades aliadas. Em 2024, o CFR abriu um escritório em Madrid para reforçar a sua rede na América Latina. Políticos e ativistas dos EUA, do Peru, do Chile, do México, da Venezuela e da Colômbia visitaram os escritórios do “think tank” de extrema-direita de Orbán em Madrid e Budapeste.

Poucos dias após a inauguração do escritório espanhol em março de 2024, representantes do CFR participaram num painel de discussão em Madrid sobre o futuro da comunidade atlântica, ou seja, os países europeus, norte-americanos e latino-americanos. O evento foi coorganizado pela Heritage Foundation, o grupo americano que liderou o plano autoritário do Projeto 2025 que Trump está agora a implementar.

Em linha com um realinhamento mais amplo das prioridades para seguir a agenda de política externa de Trump, incluindo o encerramento da USAID, o CFR divulgou um relatório em julho de 2025 que atacou a ajuda ao desenvolvimento da União Europeia e o seu financiamento a ONG da América Latina. O documento alegava que “grupos ativistas de extrema-esquerda” tinham recebido “montantes multimilionários” em áreas temáticas que incluem os direitos LGBTQ+, o feminismo, a saúde sexual e reprodutiva, o indigenismo, a migração e a “antidesinformação”. Acusou Bruxelas de financiar organizações sem fins lucrativos “woke”.

Asociación la Familia Importa (Family Matters Association, AFI)
Guatemala City, Guatemala

Fundada em 2013, a AFI é uma organização guatemalteca que se opõe aos direitos sexuais e reprodutivos e aos direitos LGBTQ+. Embora opere apenas na Guatemala, colabora com agentes antidireitos transnacionais, como a Political Network for Values, a ADFI e o IWH.

A Guatemala é um dos três países da região que adotaram a Declaração do Consenso de Genebra promovida por Valerie Huber, uma ativista contra os direitos das mulheres e ex-membro da administração Trump. Participou na ratificação do país em outubro de 2021, sob o então Presidente Alejandro Giammattei, que mais tarde foi impedido de entrar nos EUA por “corrupção significativa”. Um dos membros fundadores da AFI, Sandy Recinos, serviu na administração de Giammattei na altura em que a DCG foi ratificada.

Huber e a diretora executiva da AFI, Ligia Briz, apareceram juntas em várias ocasiões, incluindo no quinto aniversário da DCG em Washington, em outubro de 2025. Apenas um mês antes, participaram numa conferência organizada pela AFI e pela PNfV no Congresso nacional da Guatemala, onde os oradores incluíram Julio Pohl, consultor jurídico da ADFI na América Latina, e Rodrigo Iván Cortés, vice-presidente da PNfV e fundador da Frente Nacional pela Família do México. Briz também participou no quarto aniversário da DCG em Washington, em 2024, onde se reuniu com Roger Severino, vice-presidente de política interna da Heritage Foundation e um dos autores do Projeto 2025.

A AFI é uma força de lobby na Guatemala. Em 2017, opôs-se a um projeto de lei destinado a abordar a violência sexual contra raparigas, garantindo cuidados, indemnização e acesso ao aborto. De acordo com dados da UNICEF publicados em 2016, a Guatemala registou 23 casos de abuso sexual contra raparigas e adolescentes diariamente. A AFI rejeitou a proposta, alegando que ameaçava o “direito fundamental à vida”. O projeto de lei acabou por ser arquivado.

Em 2020, a AFI pressionou o governo para impedir que a Planned Parenthood, uma organização americana que promove a saúde sexual e reprodutiva, abrisse um escritório na Guatemala. Embora o governo tivesse aprovado o gabinete, o ex-Presidente Giammattei acabou por revogar a decisão.

CitizenGO / HazteOir
Madrid, Spain; Na, Kenya; Arlington, Virginia, U.S.

A CitizenGO é uma organização anti-LGBTQ+ fundada em 2013 como extensão internacional da HazteOir, uma plataforma espanhola semelhante, alguns dos “membros” da qual foram associados à seita fascista secreta mexicana El Yunque, uma ligação confirmada por uma decisão de um tribunal espanhol.

A organização opera principalmente através de petições online, mas também realiza campanhas agressivas offline. Realizaram protestos à porta de clínicas de aborto em Madrid, organizaram vigílias de oração e enviaram fetos de brinquedo cobertos de líquido vermelho para simular sangue aos legisladores.

A CitizenGO também promoveu as chamadas “terapias de conversão”, a prática perigosa de tentar mudar a orientação ou a identidade sexual, que foi descrita como semelhante à tortura por um relator especial da ONU e proibida em dezenas de países. Para justificar estas práticas, usam “dados” do Family Research Council, uma organização americana anti-LGBTQ+ e antimulher, uma das organizações por trás do Projeto 2025, alegando que a mudança de orientação sexual “não só é possível, como também é muito natural entre as pessoas LGBT”.

A retórica antitrans da CitizenGO tem sido particularmente agressiva, ganhando notoriedade por autocarros cobertos de mensagens transfóbicas. Em África, liderou campanhas contra a saúde reprodutiva. Entre 2020 e 2021, a Fundação Mozilla descobriu o envolvimento da CitizenGO numa campanha de desinformação no X (anteriormente conhecido como Twitter) contra duas leis quenianas: o Projeto de Lei de Saúde Reprodutiva de 2019 e o Projeto de Lei de Tecnologia de Reprodução Assistida de 2019. Estes projetos de lei visavam proibir a esterilização coerciva, fornecer serviços pré-natais e pós-natais gratuitos a todas as mulheres e criar diretrizes para a reprodução assistida.

Ann Kioko, que liderou as campanhas africanas da CitizenGO até setembro de 2025, participou, juntamente com Valerie Huber (IWH) e Rebeca Oas, diretora de investigação do Center for Family and Human Rights (C-Fam), também consultora do Projeto 2025, num painel da Heritage Foundation em 2020 sobre “Falhas do feminismo radical nas Nações Unidas”.

Fundada pelo espanhol Ignacio Arsuaga, que organizou o World Congress of Families em Madrid em 2012, a CitizenGO permanece profundamente ligada à International Organization for the Family (IOF), a organização coordenadora por trás do World Congress of Families, onde Arsuaga atua como membro do conselho de administração.

A CitizenGO opera uma filial nos EUA desde 2022, registada em Arlington, Virgínia. Os registos fiscais mostram que Arsuaga é presidente da entidade americana e recebeu 112 620 USD como remuneração por esta função no ano fiscal de 2024. Nesse ano, a organização declarou ter realizado “20 campanhas separadas para promover os direitos humanos, os valores familiares e questões semelhantes”. Na prática, estas campanhas incluíram petições online direcionadas aos direitos de menores transgénero, pressão sobre a Netflix para remover personagens LGBTQ+ de programas infantis e apoio a posições antiaborto na Convenção Nacional Republicana.

Danube Institute
Budapest, Hungary

O instituto faz parte do braço de propaganda do regime de Orbán no estrangeiro. Fundado em 2013 pelo Estado húngaro através da Fundação Batthyány Lajos, a sua missão promove – nas suas próprias palavras – a “tradição liberal clássica” na economia, o “atlanticismo realista” e a defesa do conservadorismo.

Na prática, opera como um “think tank” que promove a agenda antidireitos e antimulher de Orbán e constrói laços com aliados internacionais, incluindo através de um acordo de cooperação com a Heritage Foundation assinado em 2023. Desde então, ambas as instituições coorganizaram a Cimeira Geopolítica em Budapeste.

Na edição mais recente, realizada em setembro de 2025, Robert Palladino, o Encarregado de Negócios da Embaixada dos EUA na Hungria, participou no evento e reafirmou o vínculo entre Washington e Budapeste, afirmando: “Somos aliados porque partilhamos uma convicção: a soberania, a fé, a família e a cultura não estão desatualizadas — são oxigénio.”

Ao receber figuras de extrema-direita dos EUA como bolseiros visitantes, o instituto posicionou-se como um canal entre as ideias trumpistas e orbánistas. Em 2024, recebeu Melissa Ford, na altura investigadora sénior da Texas Public Policy Foundation — um grupo ligado ao Projeto 2025 — que agora lidera a Western Hemisphere Initiative no America First Policy Institute. Também recebeu Arthur Milikh, diretor executivo do Center for the American Way of Life do Claremont Institute, outro promotor do Projeto 2025. O instituto emprega ainda o blogger de direita americano Rod Dreher, diretor do Network Project no Danube Institute, que é conhecido por ser um dos primeiros amigos e consultores do vice-presidente dos EUA, JD Vance.

Frente Nacional por la Familia (National Front for the Family, FNF)
Mexico; Chicago, Illinois

A FNF é uma associação civil católica de extrema-direita e anti-LGBTQ+ fundada no México e ativa em todo o país, com uma filial adicional em Chicago (EUA). Foi criada em 2016 em resposta à iniciativa do ex-Presidente mexicano Enrique Peña Nieto de legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adoção por casais do mesmo sexo.

O fundador e líder do grupo, Rodrigo Iván Cortés Jiménez, é vice-presidente da transnacional anti-LGBTQ+ Political Network for Values e um agente proeminente dentro do ecossistema mais amplo de organizações e eventos antidireitos. Participou em várias edições do World Congress of Families, incluindo a reunião de 2022 realizada no México e o evento de 2015 em Salt Lake City (EUA).

Cortés Jiménez também beneficiou do apoio da ADFI num processo judicial. Depois de ser condenado por cometer violência política baseada no género contra a congressista transgénero mexicana Salma Luévano, a ADFI representou-o no seu recurso infrutífero e, mais tarde, apresentou o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos em seu nome. O caso está pendente até à data.

A FNF apoia o acesso à prática amplamente desacreditada da terapia de conversão, o processo de mudança da orientação ou da identidade sexual, descrito como semelhante à tortura por um relator especial da ONU. Quando a terapia de conversão foi proibida na Cidade do México em 2020, o grupo denunciou a medida. “Hoje é um dia lamentável para o Estado do México, uma vez que foi aprovada uma lei que procurará estigmatizar e impedir as pessoas que querem tratar a disforia de género, procurando também desqualificar a dimensão sexual biológica natural, abrindo até a porta para prender pais, ministros religiosos e especialistas que apliquem terapia ou aconselhamento nesta matéria”, argumentou a FNF.

Global Center for Human Rights (GCHR)
Washington, D.C.; Geneva, Switzerland

Fundado em 2021 e com sede em Washington, D.C., o GCHR opera principalmente na América Latina, onde promove uma agenda nacionalista cristã e antimulher. A organização procura “construir e consolidar uma nova geração de líderes empenhados na defesa da vida, da família, da liberdade religiosa e da democracia” e também está ativa em litigâncias estratégicas perante o Tribunal Interamericano dos Direitos Humanos (TIDH). Em março de 2026, o grupo anunciou planos para abrir um novo escritório em Genebra, na Suíça, para fazer lobby na sede das Nações Unidas.

O GCHR é liderado por Sebastian Schuff, um advogado argentino que fundou a Prodeci em 2010, uma organização semelhante à American Alliance Defending Freedom e dedicada a “defender o direito à vida, a liberdade religiosa e os direitos da família”, que se envolveu em litigância estratégica na Argentina. Schuff é um defensor do presidente de extrema-direita da Argentina, Javier Milei e, em 2024 o GCHR organizou um evento na Câmara dos Deputados com a participação de membros do partido político de Milei.

A esposa de Schuff, Neydy Casillas, uma advogada mexicana, é vice-presidente para os assuntos internacionais. Casillas ocupou anteriormente o mesmo cargo na Concerned Women for America, uma organização americana antidirteitos e apoiantes do Projeto 2025, que quer trazer valores bíblicos para as políticas governamentais, e como consultora jurídica sénior na Alliance Defending Freedom International, uma organização dos EUA no coração de uma poderosa rede internacional dedicada a fazer retroceder os direitos das mulheres e LGBTQ+.

O GCHR esteve envolvido no importante caso regional de Beatriz et al. contra El Salvador. Em 2024, a CIDH decidiu que El Salvador era responsável pela violência obstétrica e pela violação do direito à saúde de Beatriz.

Em 2013, Beatriz, uma jovem salvadorenha, teve uma gravidez que não só representava um grave risco para a sua própria vida, como o seu feto também não era viável. Solicitou um aborto às doze semanas, mas a proibição total do aborto em El Salvador causou meses de atraso, pois os médicos temiam ser processados. Às 26 semanas de gravidez, foi finalmente realizada uma cesariana. O bebé morreu cinco horas após o nascimento. Beatriz morreu em 2017 devido a complicações após um acidente de viação. O tribunal não encontrou qualquer ligação entre a sua morte e a sua gravidez.

O GCHR assessorou o governo de El Salvador durante as audiências realizadas em março de 2023 na sede do TIDH em San José, Costa Rica. De acordo com informações locais, Schuff e María Anne Quiroga, diretora de investigação do GCHR, estavam presentes na sala do tribunal como parte da equipa jurídica consultiva do Estado salvadorenho.

Procurando influenciar tanto a decisão do Tribunal como a opinião pública, o GCHR lançou um site destinado a desacreditar o caso, os juízes e as organizações que apoiavam Beatriz e a sua família. O site elencou várias organizações de direitos reprodutivos e fundações filantrópicas como supostos doadores da CIDH, sugerindo que o Tribunal não era independente. A presidente do Tribunal, a juíza Nancy Hernández, rejeitou essas alegações.

Em dezembro de 2022, o GCHR lançou a campanha “No Next Roe“, alegando que o caso Beatriz contra El Salvador “poderia tornar-se o Roe contra Wade para toda a América Latina” — uma referência à histórica decisão dos EUA que garantiu o acesso ao aborto desde 1973 até ser revogada pelo Supremo Tribunal Americano em 2022. A campanha também apelou a um “donativo generoso” para a organização para ajudar a “impedir o próximo Roe”.

Schuff and Casillas

Schuff e Casillas tornaram-se memes virais em 2022 depois de estarem do lado de fora do Supremo Tribunal dos EUA com cartazes contra o aborto. (Fonte: Instagram)

Ordo Iuris Institute for Legal Culture (OI)
Warsaw, Poland; Brussels, Belgium; New York, U.S.; Zagreb, Croatia; Arusha, Tanzania

Fundado na Polónia em 2013, o OI é um “think tank” jurídico e de defesa de extrema-direita que tenta difundir as suas posições anti-LGBTQ+ e políticas antimulher através dos tribunais. Na Europa Oriental, a organização tornou-se um centro fundamental para a promoção de litigância estratégica contra os direitos.

O OI tem fortes laços com o partido populista de extrema-direita polaco PiS (Lei e Justiça) e também tem ligações com o partido ainda mais de extrema-direita Confederação Liberdade e Independência (Konfederacja Wolność i Niepodległość), descrito pelo Centro de Extremismo da Universidade de Oslo como “um amálgama de diversos atores de extrema-direita”, cujas crenças incluem transformar a Polónia numa “etnocracia que encarna uma nação mitificada e culturalmente homogénea construída em torno de princípios católico-tradicionalistas”.

A sua influência tem sido visível a nível local e nacional. Desde 2019, dezenas de municípios, condados e regiões da Polónia têm promovido aquilo a que chamam áreas “livres da ideologia LGBTQ+”. Muitas destas resoluções seguem um modelo criado pela Ordo Iuris, conhecido como Carta dos Direitos da Família. O principal objetivo do documento é “a proteção” do casamento e da família, ambos definidos de formas que excluem as pessoas LGBTQ+. A família é enquadrada como uma união enraizada na “maternidade e paternidade”. Esta iniciativa recebeu apoio de grupos internacionais antidireitos, como a CitizenGO e a International Organization of the Family.

Em resposta a estas medidas, a União Europeia alertou, através da Comissão Europeia, que os governos locais que aplicassem tais declarações discriminatórias corriam o risco de perder fundos da UE. As resoluções foram gradualmente revogadas e, em 2025, as últimas declarações remanescentes tinham sido retiradas.

A OI também desempenhou um papel central nos esforços para restringir os direitos reprodutivos. Em 2016, os seus advogados elaboraram um projeto de lei que procurava proibir o aborto na Polónia em quase todas as circunstâncias, alargando a proibição a casos de violação e incesto e introduzindo sentenças de prisão até cinco anos. O Parlamento acabou por retirar a proposta após uma greve nacional e protestos em massa. No entanto, em 2020, o Tribunal Constitucional polaco – repleto de juízes leais ao PiS – anulou os fundamentos legais para o aborto em casos de malformação fetal, resultando numa proibição quase total do procedimento.

Com base na sua influência na Polónia, a organização expandiu a sua presença em toda a Europa Oriental, incluindo atividades na Croácia. A OI também desenvolveu uma presença internacional mais ampla, abrindo um escritório em Bruxelas para influenciar as instituições da UE e estabelecendo uma entidade sem fins lucrativos em Nova Iorque sob o nome de Ordo Iuris International Foundation. Na sequência de movimentos recentes semelhantes de grupos anti-mulher e anti-LGBTQ+ dos EUA, a OI anunciou em maio de 2025 a criação de uma nova filial em Arusha, Tanzânia, onde está sediado o Tribunal Africano dos Direitos do Homem e dos Povos (TADHP). De acordo com a organização, este gabinete visa “apoiar as ONG africanas” no seu trabalho perante “organizações supranacionais como a ONU, a OMS e o TADHP”.

José Antonio Kast

José Antonio Kast, presidente do Chile e ex-presidente da Political Network for Values (PNfV), na Cimeira Transatlântica organizada pelo grupo no Parlamento Europeu em fevereiro. (Fonte: X)

Political Network for Values (PNfV)
Madrid, Spain; Frisco, Texas, (U.S.)

A PNfV é uma plataforma de lobby transnacional que liga atores e organizações de extrema-direita em todo o mundo. Promove uma agenda cristã conservadora que se opõe aos direitos LGBTQ+, à autonomia corporal das mulheres e à eutanásia, ao mesmo tempo que defende um modelo familiar tradicional.

A organização é ferozmente antiaborto. No seu manifesto ideológico, afirma que “a eutanásia, tal como o aborto, não pode ser considerada um direito”. Como parte da sua agenda mais ampla contra os direitos, a PNfV também rejeita o casamento entre pessoas do mesmo sexo, afirmando que “o casamento é uma instituição entre um homem e uma mulher, em que cada um contribui de forma diferente, mas complementar, para o processo de formação de uma família”.

Na sua Cimeira Transatlântica de 2024 em Madrid, o grupo convidou o deputado queniano Peter Kaluma, conhecido por apoiar a prisão perpétua para as pessoas LGBTQ+. O seu nome foi posteriormente retirado do programa após uma reação negativa.

O atual presidente da PNfV é Stephen Bartulica, um eurodeputado croata do partido de extrema-direita Dom i Nacionalno Okupljanje (Home and National Rally, DOMiNO) e membro do movimento católico de extrema-direita Opus Dei. O vice-presidente da rede, Rodrigo Iván Cortés, fundador da Frente Nacional por la Familia (Frente Nacional pela Família) do México, foi condenado por violência política baseada no género contra a congressista transgénero mexicana Salma Luévano.

A PNfV mantém laços estreitos com o regime autoritário da Hungria. Em 2019, o governo de Orbán fez um donativo à organização. A ex-Ministra húngara da Família, Katalin Novák, presidiu à rede até 2022, quando se tornou presidente da Hungria. Mais tarde, foi destituída em 2024, na sequência de um escândalo que envolveu um indulto ligado a alegados casos de pedofilia. De 2022 a 2024, a PNfV foi liderada por José Antonio Kast, o recém-eleito presidente chileno e um político de extrema-direita que defendeu abertamente o legado do ditador chileno Augusto Pinochet.

A plataforma, liderada por Bartulica, reúne no seu conselho de administração várias organizações que promoveram a agenda do Projeto 2025 internacionalmente, incluindo Sharon Slater (presidente da Family Watch International) e Brian Brown (presidente da International Organization for the Family/World Congress of Families). Valerie Huber, diretora do Institute for Women’s Health, é também oradora regular em eventos da PNfV. Os parceiros para o seu encontro no Parlamento Europeu em fevereiro de 2026 incluíram a Heritage Foundation e a ADFI.

LATAM_Final

O Projeto 2025 no sul: exportação do manual MAGA para a América Latina

No primeiro ano do regresso de Donald Trump à Casa Branca, a administração dos EUA expandiu as suas alianças políticas na América Latina. As vitórias eleitorais de 2025 de José Antonio Kast no Chile, Nasry Asfura nas Honduras e Rodrigo Paz na Bolívia reforçaram a capacidade de Trump de expandir a sua agenda política na região. Juntaram-se a um grupo de líderes já alinhados com o movimento MAGA, incluindo Javier Milei na Argentina, Nayib Bukele em El Salvador, Daniel Noboa no Equador e Santiago Peña no Paraguai.

Em janeiro de 2026, esta estratégia tomou um rumo mais agressivo quando uma nova aliada inesperada se juntou à administração Trump: Delcy Rodríguez. Foi proclamada presidente interina da Venezuela depois de os militares dos EUA terem capturado o então presidente Nicolás Maduro e a sua esposa, Cilia Flores, na sua residência em Caracas e os terem transferido para o Centro de Detenção Metropolitano de Nova Iorque.

A operação marcou uma forte escalada do envolvimento dos EUA na região e estava estreitamente alinhada com o manual intervencionista de longa data de Washington na América Latina.

Longe de ser improvisada, esta abordagem ecoou estruturas políticas que já tinham sido articuladas anos antes. A influência do Projeto 2025, um plano de 920 páginas para a governação autoritária nos EUA elaborado pela Heritage Foundation para moldar a agenda de uma segunda presidência de Trump, ficou patente na operação realizada na Venezuela.

Quando o Projeto 2025 foi publicado em abril de 2023, já tinha delineado uma abordagem semelhante, recomendando que: “Para conter o comunismo da Venezuela e ajudar os parceiros internacionais, a próxima administração deve tomar medidas importantes para colocar os abusadores comunistas da Venezuela em alerta, ao mesmo tempo que faz progressos para ajudar o povo venezuelano.”

Após a detenção de Maduro, a administração também reforçou uma narrativa do “Hemisfério Ocidental” que enquadra a segurança, o controlo da migração e os valores nacionalistas cristãos na política externa dos EUA. Ao elevar a intervenção a uma mensagem regional, o Secretário de Estado Marco Rubio argumentou que Washington estava a defender o seu “quintal” do que descreveu como “traficantes de droga, representantes iranianos ou regimes hostis que ameaçam a segurança nacional”.

Do foco regional ao controlo hemisférico

A linguagem do Projeto 2025 também aponta nessa direção. Introduziu o termo “re-hemisferização”, que envolve a deslocação da indústria transformadora para mais perto de casa, como para os países da América Central e do Sul.

Na sua Estratégia de Segurança Nacional de novembro de 2025, a Casa Branca reforçou o enquadramento do “Hemisfério Ocidental”, comprometendo-se simultaneamente a despriorizar as relações com a Europa. Argumentou que a região deve ser “estável e bem governada o suficiente para prevenir e desencorajar a migração em massa” para os EUA. Ao mesmo tempo, deixou claro que Washington também procurava “um Hemisfério que permaneça livre de incursões estrangeiras hostis”, uma declaração que visava diretamente a Venezuela e o governo de Maduro, dados os seus laços cada vez mais profundos com a China, a Rússia e o Irão.

O Projeto 2025 é um veículo fundamental para transformar esta visão de mundo em política. Não é apenas um plano interno. Estabelece também uma agenda internacional destinada a minar as instituições democráticas: medidas de imigração mais duras, políticas que restringem os direitos humanos, apoio ao corte do financiamento internacional para a saúde sexual e reprodutiva e um impulso para remover as referências à orientação sexual, identidade de género, diversidade e inclusão das políticas públicas.

Em toda a América Latina, esta agenda ganhou força. Os líderes alinhados com Trump começaram a adotar as suas prioridades na política interna. A Argentina ilustra como esta tradução de plano para política se desenrolou. O Presidente Javier Milei anunciou a retirada do país da Organização Mundial da Saúde, fazendo eco das propostas avançadas pelo Projeto 2025.

Sob a liderança de Milei, a Argentina tomou medidas para fazer retroceder os direitos das mulheres e LGBTQ+. O governo restringiu o acesso à terapia hormonal para menores transgénero e anunciou planos para remover o feminicídio do Código Penal, apesar de um aumento alarmante dos feminicídios documentado por observatórios feministas. Esta agenda restritiva ganhou impulso em 2025, ao mesmo tempo que a dependência económica da Argentina da administração Trump se aprofundava.

Testar a agenda no terreno

Este capítulo examina a implementação destas estratégias através de dois estudos de caso: El Salvador e Paraguai. El Salvador tem recebido cada vez mais atenção nos EUA devido à campanha de marketing do seu presidente, Nayib Bukele. Bukele tornou-se uma estrela em ascensão dentro do movimento MAGA. Em contraste, o Paraguai passou anos a implementar a agenda antimulher que o Projeto 2025 procura exportar a nível global.

Através da sua presença altamente selecionada nas redes sociais, Bukele popularizou as suas políticas de segurança de linha dura contra a violência de gangues em El Salvador entre os conservadores de todo o mundo. Estas incluem a promoção de megaprisões, detenções em massa e violações generalizadas dos direitos humanos, todas implementadas sob um estado de emergência contínuo que está em vigor desde 2022.

O governo de Bukele também se alinhou com as prioridades políticas do Projeto 2025. Estas incluem a oposição aos direitos LGBTQ+ e das mulheres, bem como o apoio a uma proibição total do aborto. Esta agenda foi reforçada através de alianças internacionais. Organizações antidireitos sediadas nos EUA defenderam o quadro jurídico de El Salvador em tribunais internacionais, e grupos americanos, como a Moms for Liberty, membro do Conselho Consultivo do Projeto 2025, influenciaram a política de educação.

Para além da cooperação simbólica, os acordos de migração e detenção reforçaram significativamente a relação entre Washington e San Salvador. O país centro-americano tornou-se um campo de testes para as políticas repressivas de deportação da administração Trump, com dezenas de migrantes venezuelanos deportados dos EUA a serem torturados na prisão de segurança máxima de El Salvador.

O Paraguai apresenta um caso contrastante. Mesmo antes de o Projeto 2025 ganhar forma, o país já tinha assumido um papel de laboratório para políticas contra os direitos das mulheres. Governos de diferentes administrações restringiram a educação de género, opuseram-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e ao aborto e celebraram publicamente o Paraguai como uma “ilha de conservadorismo”.

Mesmo antes de a Heritage publicar o seu plano, o Paraguai já se tinha tornado um campo de testes para iniciativas ao estilo do Projeto 2025: políticas destinadas a retardar o progresso das mulheres e das pessoas LGBTQ+, moldadas por uma agenda política influenciada por organizações sediadas nos EUA.

Esta agenda interna foi reforçada pelo alinhamento com as iniciativas do Projeto 2025. O Paraguai é um dos únicos três signatários latino-americanos da Declaração do Consenso de Genebra (DCG), um documento contra as mulheres e contra a comunidade LGBTQ+ lançado em 2020 sob a primeira administração Trump e explicitamente citado no Projeto 2025 como um modelo de cooperação internacional, apesar de não ter autoridade legal.

Inicialmente definido pela sua agenda interna contra os direitos, o Paraguai tem procurado cada vez mais relevância internacional dentro das redes alinhadas com Trump. Ao acolher eventos de alto nível, como a CPAC e o Foro Madrid, o país tornou-se um ponto de encontro para líderes de extrema-direita da América Latina, Europa e EUA.

O que liga estes dois casos não é apenas a ideologia, mas o seu papel numa estratégia internacional mais ampla, que mostra como o Projeto 2025 se espalhou para além dos Estados Unidos. A América Latina oferece uma visão clara do seu impacto no mundo real, uma vez que as políticas inspiradas no plano foram testadas, adaptadas e implementadas no terreno.

De acordos de deportação a ataques à igualdade de género e aos direitos reprodutivos, a região tornou-se um laboratório para uma poderosa agenda internacional que dá prioridade ao reforço de alianças com atores autoritários dispostos a marginalizar a proteção internacional dos direitos humanos.

Bukele_Trump

O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, tem ganho uma visibilidade crescente dentro do ecossistema da extrema-direita e do MAGA.

O modelo Bukele: segurança, espetáculo e repressão

Desde que assumiu o cargo em 2019, o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, consolidou o poder através de um modelo orientado para a segurança que enfraquece as instituições democráticas, mina o pluralismo e restringe os direitos fundamentais. Esta abordagem autoritária, apresentada como uma resposta eficiente ao crime, rendeu-lhe admiração dentro da Administração Trump e do ecossistema MAGA mais amplo, incluindo a Heritage Foundation, com sede nos EUA, que liderou o Projeto 2025.

Paralelamente, Bukele fez eco das prioridades políticas associadas ao Projeto 2025, incluindo a oposição às iniciativas de diversidade, as restrições aos direitos LGBTQ+ e a preservação de uma proibição total do aborto.

Estas dinâmicas ganharam forma concreta sob o estado de emergência de El Salvador, que foi implementado em março de 2022. Esta medida extraordinária foi introduzida em resposta a um aumento da violência de gangues. De acordo com o Índice 2025 da Freedom House, o país é classificado como “parcialmente livre”, obtendo uma pontuação de 53 em 100 para direitos políticos e liberdades civis.

O estado de emergência decretado permite que as autoridades façam detenções, contornando o devido processo legal, um quadro que permitiu a detenção de mais de 83 000 pessoas, milhares delas arbitrariamente, de acordo com dados da Amnistia Internacional. Como resultado, mais de um por cento da população de El Salvador foi presa, a maior proporção de qualquer país do mundo, de acordo com o World Prison Brief.

Em setembro de 2024, a Comissão Interamericana dos Direitos Humanos alertou num relatório que a continuação dos poderes de emergência já não se justificava, citando as “estatísticas fornecidas pelo Estado sobre melhorias na segurança dos cidadãos”. No entanto, a administração de Bukele ignorou o apelo. Em dezembro de 2025, o país aprovou a 46.ª prorrogação do estado de exceção, estabelecendo o regime de emergência como ferramenta de governo.

Una alianza cada vez más estrecha entre Trump y Bukele

À medida que Bukele consolidava o regime de emergência no país, os EUA mudaram a sua posição sobre El Salvador sob a liderança de Trump. Os relatórios de direitos humanos do Departamento de Estado passaram de reconhecer “problemas significativos de direitos humanos” em 2023 para afirmar que “não se registaram relatos credíveis de violações significativas dos direitos humanos” sob o governo de Bukele em 2024. Esta inversão contradiz as conclusões de organizações de direitos humanos.

Apenas três dias após a sua tomada de posse em janeiro de 2025, Trump elogiou publicamente a “liderança na região” de Bukele, apresentando o presidente salvadorenho como um “exemplo” para “outras nações do Hemisfério Ocidental”.

Como parte desta parceria mais ampla, os EUA e El Salvador assinaram um acordo controverso em março de 2025. Nos termos do acordo, o governo de Bukele recebeu cerca de 5 milhões de dólares em troca da detenção de mais de 200 migrantes deportados dos EUA na prisão de segurança máxima de El Salvador, o Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT). A maioria dos transferidos eram venezuelanos, rotulados pelas autoridades dos EUA como membros de gangues e terroristas para justificar a sua deportação ao abrigo da Lei de Inimigos Estrangeiros, invocada pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial por Trump, apesar de muitos deportados não terem registo criminal nos EUA ou na América Latina.

Exportar uma agenda contra os direitos das mulheres através de políticas de deportação

A influência do Projeto 2025 apareceu no acordo com El Salvador. O acordo proibiu a utilização de fundos dos EUA para serviços relacionados com o aborto e proibiu programas que promovam a Diversidade, Equidade e Inclusão, ecoando o impulso do Projeto 2025 para remover as referências à orientação sexual, identidade de género, diversidade e inclusão das leis e regulamentos federais dos EUA. Ao mesmo tempo, o acordo não impôs quaisquer salvaguardas vinculativas para proteger os direitos dos detidos.

Organizações de direitos humanos documentaram as consequências da parceria dos EUA com El Salvador. Depois de entrevistar dezenas de venezuelanos que foram deportados dos EUA e detidos na prisão do CECOT, os investigadores registaram espancamentos repetidos, violência sexual, detenção prolongada em isolamento e alimentação inadequada. De acordo com a Human Rights Watch e a Cristosal, uma organização salvadorenha de direitos humanos, várias destas práticas constituem tortura ao abrigo do direito internacional dos direitos humanos.

Apesar das provas bem documentadas de violações dos direitos humanos nas prisões de El Salvador, Trump elogiou o sistema de detenção do país durante a sua reunião na Sala Oval com Bukele, descrevendo as instalações como “excelentes”.

O regime de Bukele e o ecossistema MAGA

Após a sua primeira vitória eleitoral presidencial, Bukele agiu rapidamente para sinalizar a direção das suas alianças internacionais. Depois de vencer as eleições em El Salvador, em fevereiro de 2019, proferiu o seu primeiro discurso não internamente, mas em Washington, D.C., onde se dirigiu à Heritage Foundation, a organizadora do Projeto 2025.

Num elogio à instituição, Bukele descreveu-a como “o think tank mais influente do mundo”, argumentando que El Salvador precisava do seu apoio. A medida destacou a importância que o seu governo atribuía às redes alinhadas com a MAGA e aos grupos por trás do Projeto 2025.

Ao elogiar abertamente as suas políticas repressivas, a sua abordagem autoritária e as suas mensagens baseadas na desinformação, Bukele posicionou-se como uma figura admirada pelos principais líderes do MAGA. Elon Musk chamou-lhe “líder incrível” e amplificou os anúncios de Bukele no X. O Secretário de Estado Marco Rubio visitou El Salvador em 2023 enquanto era senador dos EUA pela Flórida. Rubio publicou mais tarde um artigo a elogiar a campanha de Bukele contra a violência de gangues.

O apelo de Bukele também se estendeu aos ecossistemas de comunicação social de extrema-direita. O podcaster americano e ex-apresentador da Fox News, Tucker Carlson, entrevistou-o em várias ocasiões, mais recentemente em junho de 2024, quando o apresentador de podcast de extrema-direita afirmou que Bukele tinha “salvado El Salvador” e sugeriu que “pode ter o plano para salvar o mundo”.

Os laços com a órbita política de Donald Trump e o movimento MAGA mais amplo continuaram a aprofundar-se. A segunda tomada de posse de Bukele como presidente, realizada em junho de 2024, contou com a presença de várias figuras conservadoras dos EUA, incluindo Tucker Carlson, Marco Rubio, Donald Trump Jr., Matt Schlapp, o presidente da CPAC, bem como os conselheiros de campanha de Trump, Kimberly Guilfoyle e Alex Bruesewitz.

O presidente autoritário de El Salvador tornou-se não apenas uma figura admirada dentro da administração Trump, mas também entre as bases do movimento MAGA. Materiais divulgados obtidos pelo The Guardian da Heritage Foundation mostram que os candidatos a uma iniciativa com a marca Projeto 2025 destinada a construir um grupo de talentos para uma potencial administração Trump citaram explicitamente a sua admiração por Bukele.

Da CPAC à sala de aula: exportar o manual antidireitos

Bukele partilhou o palco com vários influenciadores alinhados com o MAGA na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) de 2024, realizada em Maryland. Foi aí que anunciou planos para remover aquilo a que chamou “ideologia de género” do sistema de ensino público de El Salvador, um termo amplamente utilizado pelos apoiantes do Projeto 2025 para se oporem a políticas destinadas a promover a igualdade de género e a proteger os direitos das raparigas e mulheres e das pessoas LGBTQ+.

O anúncio não foi feito no palco principal ou durante uma conferência de imprensa formal. Em vez disso, veio em resposta a uma pergunta durante uma breve entrevista conduzida pela diretora da Moms for Liberty, Catalina Stubbe. A Moms for Liberty é um grupo de defesa de extrema-direita sediado nos EUA que se tem oposto consistentemente às proteções para os estudantes LGBTQ+. O grupo é conhecido por promover proibições de livros e é uma organização defensora do Projeto 2025. Durante a conversa, Bukele justificou a decisão argumentando que o que rotula como ideologia de género promove ideias que são “antinaturais”, “anti-Deus” e “antifamília”.

Este anúncio aconteceu ao mesmo tempo que uma série de ações semelhantes contra as políticas LGBTQ+. Em fevereiro de 2024, o governo de El Salvador ordenou a remoção de materiais relacionados com a diversidade sexual, bem como de formulários que permitiam que as pessoas especificassem a sua identidade de género, das unidades de saúde pública e das clínicas de VIH. O objetivo destes questionários era melhorar a precisão das análises epidemiológicas.

Em outubro de 2025, um ano depois, o governo autoritário de Bukele anunciou a proibição da linguagem inclusiva nas escolas públicas e em todas as instituições ligadas ao Ministério da Educação. A linguagem inclusiva de género, incluindo formas espanholas neutras em termos de género, como compañere, alumn@, jovenxs e nosotrxs (alternativas neutras em termos de género a “colega de turma”, “alunos”, “jovens” e “nós”), deixou de ser permitida em ambientes educativos, incluindo comunicações oficiais, documentos administrativos e livros escolares. A Ministra da Educação, Karla Edith Trigueros, justificou a decisão, alegando que impediria “interferências ideológicas ou globalistas que poderiam prejudicar o desenvolvimento integral dos estudantes”.

Transformar a diversidade numa ameaça

Esta ofensiva contra a educação para a diversidade – que não prioriza a luta contra a discriminação no seu currículo e, em vez disso, procura tornar as comunidades LGBTQ+ invisíveis – baseia-se diretamente nos princípios do Projeto 2025. Concebido para a administração que assumiu o controlo da Casa Branca em janeiro de 2025, o plano apelava à remoção de quaisquer referências à orientação sexual, identidade de género, diversidade, equidade, inclusão e género de todas as regras e legislação federais.

À semelhança do que Bukele fez em El Salvador, o Projeto 2025 também apela à remoção de termos como “teoria crítica da raça” e “ideologia de género” de todos os currículos do ensino público.

Bukele começou a sua carreira política posicionando-se como um aliado da comunidade LGBTQ+. Em 2014, enquanto concorria a presidente da câmara de San Salvador, reafirmou essa posição durante um encontro com ativistas LGBTQ+. “Acredito que a luta pelos direitos civis do nosso tempo é a comunidade LGBTI e quero estar do lado certo da história. Não estarei ao lado daqueles que discriminam”, disse o futuro presidente de El Salvador. Distanciou-se dessas declarações pouco depois de assumir o cargo.

Após a sua vitória nas eleições gerais de 2019, Bukele desmantelou a Direção da Diversidade Sexual. No Congresso, onde o seu partido detém a maioria, os legisladores arquivaram vários projetos de lei apresentados pela administração anterior em 2021, incluindo a proposta de Lei de Identidade de Género e a Lei Especial para a Igualdade e a Não Discriminação. Esta última era uma iniciativa destinada a reduzir a discriminação contra as pessoas LGBTQ+ em El Salvador.

O Relatório de Direitos Humanos de 2023 do Departamento de Estado dos EUA observou que a violência contra as pessoas LGBTQ+ continuava a ser um problema em El Salvador. Estes padrões de discriminação ocorrem num contexto jurídico que oferece pouca proteção às pessoas LGBTQ+. El Salvador não reconhece o casamento entre pessoas do mesmo sexo nem fornece reconhecimento legal de género para pessoas transgénero.

De acordo com dados citados no relatório do Departamento de Estado da COMCAVIS TRANS, uma ONG nacional que promove os direitos LGBTQ+, 43% das mulheres transgénero, 42% dos homens cisgénero e 14% das mulheres cisgénero relataram ter tido problemas com agentes da autoridade.

Num relatório mais recente, baseado num inquérito a 201 pessoas LGBTQ+ realizado entre 2022 e o primeiro semestre de 2024, a COMCAVIS TRANS estimou que 70% das pessoas LGBTQ+ no país tinham sofrido alguma forma de violência devido à sua orientação sexual ou identidade de género.

Discriminação contra as comunidades LGBTQ+

Organizações de direitos humanos alertaram para o facto de as pessoas LGBTQ+ continuarem a ser alvo de violência e discriminação homofóbica e transfóbica por parte da polícia, de gangues e de membros do público em geral. Em muitos casos, informaram, as pessoas LGBTQ+ foram forçadas a fugir em busca de segurança no estrangeiro, muitas vezes para os EUA.

De acordo com o Relatório de Direitos Humanos de 2023 do Departamento de Estado dos EUA, algumas pessoas transgénero também relataram dificuldades em registar-se para votar e em votar porque as suas identidades de género não correspondiam ao género indicado nos seus bilhetes de identidade.

O caso de Camila Díaz Córdova, uma mulher transgénero salvadorenha, ilustra as consequências das políticas de imigração rígidas do governo de Donald Trump para os requerentes de asilo LGBTQ+. Díaz pediu asilo humanitário nos EUA em agosto de 2017, mas foi deportada em novembro desse ano, durante o primeiro mandato de Trump. Tinha passado mais de três meses em detenção de imigração.

De volta a El Salvador, Díaz foi morta aos 29 anos. Em 31 de janeiro de 2019, três agentes da polícia forçaram-na a entrar na traseira de uma carrinha, espancaram-na e atiraram-na para fora do veículo em movimento. Morreu dias depois. Em julho de 2020, um tribunal salvadorenho condenou os três agentes pelo seu assassinato, a primeira vez que alguém foi condenado pelo assassinato de uma pessoa transgénero no país. No entanto, o juiz indeferiu as acusações de crime de ódio, citando provas insuficientes.

Organizações de direitos humanos criticaram as autoridades de imigração dos EUA por deportarem Díaz para um país “onde a sua vida estava em risco”.

Nayib

O governo do presidente Nayib Bukele, de El Salvador, trabalhou com grupos sediados nos EUA em casos históricos perante tribunais internacionais para defender a proibição total do aborto no país.

Proibição do aborto em El Salvador

Como El Salvador foi promovido como um modelo pelas suas políticas de segurança e diversidade de linha dura, a sua proibição total do aborto também foi elevada por atores antidireitos como um modelo exportável.

El Salvador tem um dos regimes de aborto mais restritivos do mundo. Desde 1997, o aborto é criminalizado sem exceções. Especialistas em direitos humanos das Nações Unidas denunciaram este quadro jurídico, sublinhando que “há mais de 20 anos [El Salvador] criminaliza o aborto em todas as circunstâncias, mesmo quando necessário para salvar a vida de uma mulher”.

Segundo este sistema, o aborto pode ser punido com penas até oito anos de prisão. As mulheres que fazem abortos ou passam por emergências obstétricas podem até ser acusadas de homicídio agravado, um crime que acarreta uma pena até 50 anos de prisão. Esta abordagem jurídica baseia-se na Constituição salvadorenha, que reconhece “todo o ser humano como pessoa humana desde o momento da conceção” desde 1999.

A aplicação deste quadro resultou no processo penal e no encarceramento de mulheres. De acordo com dados divulgados em dezembro de 2024 pelo Center for Reproductive Rights, nove mulheres estavam a ser processadas na altura por crimes relacionados com o aborto, duas das quais estavam privadas da sua liberdade. Entre 2000 e 2019, pelo menos 181 mulheres em El Salvador foram criminalizadas por emergências obstétricas ou abortos.

Para as organizações contra os direitos das mulheres, este regime jurídico tornou-se um modelo a importar. Retratam a proibição do aborto em El Salvador como um manual a ser imitado, alegando que “os direitos humanos, incluindo o direito à vida desde a conceção, não são negociáveis”. Dada a importância regional de um quadro jurídico tão restritivo, as organizações antidireitos sediadas nos EUA procuraram ativamente influenciar o quadro jurídico de El Salvador e bloquear os esforços destinados a descriminalizar o aborto.

Grupos como a Alliance Defending Freedom International, o European Center for Law and Justice — afiliado do American Center for Law & Justice — e o Global Center for Human Rights intervieram em processos de grande visibilidade perante o Tribunal Interamericano dos Direitos Humanos (TIDH), fazendo lobby em casos que avaliavam se a proibição total do aborto no país violava os direitos das mulheres à vida, à saúde e à não discriminação.

Nos últimos cinco anos, o Tribunal emitiu duas decisões históricas sobre o aborto em El Salvador — Manuela contra El Salvador e Beatriz contra El Salvador — as quais atraíram o envolvimento de organizações sediadas nos EUA que procuram manter a proibição total do aborto no país.

Manuela contra El Salvador

Manuela foi condenada a 30 anos de prisão por um tribunal salvadorenho após uma emergência obstétrica em 2008 que resultou na perda da sua gravidez. Foi acusada de “homicídio agravado” e, enquanto ainda estava no hospital, foi algemada à cama. Dois anos depois, morreu de cancro na prisão aos 33 anos, depois de receber cuidados médicos inadequados. O tratamento que recebeu enquanto estava presa foi atrasado e irregular. Manuela deixou para trás dois filhos órfãos.

Em 2021, a CIDH emitiu uma sentença histórica que considerou El Salvador responsável por violar a presunção de inocência de Manuela, bem como os seus direitos à vida, à integridade pessoal, à igualdade perante a lei e à saúde.

Várias organizações antimulher sediadas nos EUA participaram no litígio através de pareceres amicus curiae, um documento apresentado por uma parte externa que procura influenciar o tribunal. O European Center for Law and Justice, afiliado do American Center for Law & Justice, que faz parte da rede mais ampla do Projeto 2025, apresentou um parecer amicus em apoio a El Salvador.

Outros pareceres amicus em apoio a El Salvador foram apresentados por várias organizações ligadas ao ecossistema do Projeto 2025 nos EUA, incluindo o Center for Family and Human Rights (C-Fam), a Family Watch International (FWI), a International Organization for the Family (IOF) e a World Youth Alliance, bem como pela Ordo Iuris (Polónia).

Nas suas alegações amicus, os grupos argumentaram que o direito internacional dos direitos humanos não permite a impunidade por crimes contra recém-nascidos. Também instaram o Tribunal a não exigir que El Salvador reformasse o seu direito penal de formas que, na sua opinião, “impedissem a acusação de crimes homicidas contra crianças como um veículo para legalizar o aborto no país”.

O Tribunal rejeitou os argumentos apresentados pelas organizações antimulher. Em vez disso, determinou que “Manuela estava grávida, deu à luz e sofreu de pré-eclâmpsia, uma complicação relacionada com a gravidez que, por representar um grave risco para a sua saúde, deve ser classificada como uma emergência obstétrica”. Reiterou que as emergências obstétricas são condições médicas e, como tal, não podem dar origem automaticamente a responsabilidade penal.

Para além das circunstâncias médicas, o Tribunal considerou que a condenação de Manuela foi moldada por “várias desvantagens estruturais que agravaram a sua vitimização”. Estas incluíam o facto de ser “uma mulher com recursos económicos limitados, analfabeta e a viver numa zona rural”. A decisão reiterou ainda que estes fatores “são consistentes com o perfil da maioria das mulheres processadas em El Salvador por aborto ou homicídio agravado, que tendem a ter pouco ou nenhum rendimento, vêm de áreas rurais ou comunidades urbanas marginalizadas e têm baixos níveis de educação”.

Uma decisão histórica, ainda não cumprida

A decisão teve consequências para o governo de El Salvador. O Estado foi obrigado a implementar protocolos para garantir cuidados de saúde em emergências obstétricas. No entanto, de acordo com um observatório que monitoriza a implementação da sentença — liderado por organizações feministas e financiado pela União Europeia — a maioria destas medidas foi apenas parcialmente implementada ou não foi implementada de todo.

De acordo com o observatório, El Salvador não tomou as medidas necessárias para garantir cuidados médicos adequados às mulheres que enfrentam emergências obstétricas. O Estado também não cumpriu os requisitos da decisão em matéria de educação, particularmente a inclusão de conteúdos abrangentes sobre sexualidade e direitos reprodutivos nos programas escolares.

As organizações por trás do observatório observam que o Ministério da Educação disse que implementou um curso de Educação Sexual para professores em 2021 e 2022. No entanto, argumentam que a aplicação da decisão do Tribunal sobre a educação sexual entra em conflito com a ordem de 2024 do Presidente Bukele que proíbe qualquer conteúdo escolar relacionado com aquilo a que chama “ideologia de género”.

Outra medida ordenada pela CIDH que só foi parcialmente implementada é a regulamentação do sigilo médico, especialmente em casos que envolvam mulheres suspeitas de terem feito abortos. Em relação a esta questão, o observatório questiona se a nova estratégia promovida pelo Ministério da Saúde protege adequadamente as mulheres que interromperam a gravidez.

As lacunas de implementação também se estendem à formação e ao desenvolvimento de capacidades. As organizações que monitorizam a decisão do TIDH questionaram a formação de funcionários públicos de El Salvador em emergências obstétricas. Estes grupos feministas apontam para a limitação de pessoal e recursos, a falta de mecanismos de avaliação e o facto de os protocolos não serem obrigatórios para o pessoal judicial que trata de casos relacionados com o aborto.

Beatriz contra El Salvador

A CIDH decidiu em dezembro de 2024 que El Salvador tinha cometido violência obstétrica e violado o direito à saúde de Beatriz. Mais de uma década antes, em 2013, Beatriz, uma salvadorenha de 22 anos, teve uma gravidez que colocou em risco a sua própria vida. O feto tinha anencefalia, um defeito congénito de desenvolvimento do cérebro e do crânio que significava que não sobreviveria fora do útero.

Beatriz solicitou um aborto às 12 semanas, mas a proibição total do aborto em El Salvador causou meses de atraso, pois a equipa médica temia ser processada. Às 26 semanas, os médicos realizaram uma cesariana e o recém-nascido morreu poucas horas depois. Beatriz morreu mais tarde, em 2017, devido a complicações após um acidente de viação. O tribunal não encontrou qualquer ligação entre a sua morte e a sua gravidez.

O Tribunal concluiu que a ausência de segurança jurídica e de protocolos claros para a gestão de gravidezes de alto risco resultou na burocratização e judicialização do caso de Beatriz, uma vez que o pessoal médico receava a responsabilidade penal. De acordo com a decisão, os períodos prolongados de espera e a hospitalização necessária para determinar o tratamento adequado, devido à falta de protocolos de cuidados adequados, resultaram em tratamento desumanizante e violência obstétrica.

Com base nestas conclusões, o Tribunal considerou o Estado responsável e ordenou reparações. Para evitar casos semelhantes no futuro, exigiu diretrizes e protocolos claros para as autoridades médicas e judiciais quando uma gravidez ameaça a vida ou a saúde da mulher grávida. El Salvador tinha um ano, até dezembro de 2025, para informar sobre o cumprimento da decisão. No entanto, continua a não ser claro se as medidas ordenadas foram implementadas.

Parecer amicus da ADFI

O caso mobilizou dezenas de organizações feministas em toda a região, bem como agentes antiaborto, resultando na apresentação de 109 pareceres amicus, perante a possibilidade de a CIDH abordar a questão central: a criminalização absoluta do aborto em El Salvador.

A Alliance Defending Freedom International (ADFI), a filial internacional da principal apoiantes do Projeto 2025, a Alliance Defending Freedom (ADF), participou no caso através de um parecer amicus. O grupo tem pressionado para eliminar o acesso à contraceção e ao aborto e promoveu a criminalização de atos sexuais entre indivíduos LGBTQ+ com consentimento, entre outras políticas de extrema-direita.

Na sua apresentação, os advogados da ADFI defenderam o que descreveram como a legitimidade do dever do Estado de proteger a vida do nascituro, bem como a necessidade de garantir o direito à vida, incluindo em casos de deficiências graves ou condições limitadoras da vida.

La narrativa “Next Roe” (“Otro Roe más”) a escena

Outra organização contra os direitos das mulheres com sede nos EUA também foi altamente ativa no processo, procurando impedir um resultado favorável para a família de Beatriz. O Global Center for Human Rights (GCHR) assessorou o governo de El Salvador durante as audiências realizadas em março de 2023 na sede do TIDH na Costa Rica. De acordo com informações locais, Sebastian Schuff, presidente do GCHR, e María Anne Quiroga, diretora de investigação, estavam presentes na sala do tribunal como parte da equipa jurídica consultiva do Estado salvadorenho.

A esposa de Schuff, Neydy Casillas, uma advogada mexicana que é vice-presidente para os assuntos internacionais do GCHR, trabalhou anteriormente durante dez anos como consultora jurídica sénior na ADFI.

Em dezembro de 2022, o GCHR lançou a campanha “No Next Roe” (Não ao próximo Roe), alertando que o caso Beatriz contra El Salvador “poderia tornar-se o Roe contra Wade para toda a América Latina”, referindo-se à decisão do Supremo Tribunal dos EUA que reconheceu o direito constitucional da mulher ao aborto.

Procurando influenciar tanto a decisão do Tribunal como a opinião pública, o GCHR também lançou um site destinado a desacreditar o caso, os juízes e as organizações que apoiavam Beatriz e a sua família. O site elencou várias organizações de direitos reprodutivos e fundações filantrópicas como supostos doadores da CIDH, sugerindo que o Tribunal não era independente. A presidente do Tribunal, Nancy Hernández, rejeitou essas alegações.

Apesar das decisões da CIDH nos casos de Beatriz e Manuela, El Salvador manteve a sua proibição total do aborto, continuando a criminalizar as mulheres. Esta resistência à mudança alinha-se com a agenda mais ampla da administração de Bukele, que inclui políticas repressivas, discriminatórias de género e anti-diversidade. Este quadro também permitiu a Bukele reforçar o seu perfil internacional como uma figura admirada dentro do movimento MAGA.

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Paraguai, um centro de influência antidireitos humanos

Apesar de ter uma das taxas mais altas de gravidez na adolescência da região, o Paraguai posicionou-se como um campo de testes para políticas contra os direitos das mulheres na América Latina. Ao longo dos anos, sucessivos governos adotaram políticas que refletem de perto a agenda delineada no Projeto 2025. Estas iniciativas incluem a proibição de perspetivas de género nas instituições de ensino, a oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e a apresentação pública do país como uma “ilha de conservadorismo”.

Tal como em El Salvador, o Paraguai mantém uma política de aborto altamente restritiva, que equivale a uma proibição quase total. O aborto não é permitido mesmo em casos de violação, sendo a única exceção legal quando a vida da mulher grávida está em risco iminente.

A influência de agentes antidirteitos sediados nos EUA nestas políticas tornou-se cada vez mais proeminente. O governo e os legisladores do Paraguai têm-se alinhado consistentemente com iniciativas promovidas pela administração Trump e por organizações sediadas nos EUA, como a Alliance Defending Freedom International (ADFI) e o Institute for Women’s Health (IWH).

O Paraguai é um dos únicos três países latino-americanos – juntamente com o Haiti e a Guatemala – a ter assinado a DCG sobre a Promoção da Saúde da Mulher e o Fortalecimento da Família, um documento contra as mulheres e contra a comunidade LGBTQ+ lançado pela administração Trump em 2020, durante o seu primeiro mandato.

A declaração afirma que “não existe um direito internacional ao aborto” e também foi apoiada por vários regimes autoritários, incluindo a Hungria, a Arábia Saudita, a Rússia e o Sudão. A DCG não é um acordo oficial da ONU e não tem autoridade legal.

O Paraguai ratificou a declaração em 2021. Nesse mesmo ano, após a tomada de posse de Joe Biden, os EUA retiraram-se da DCG. Em 2025, quando a administração Trump regressou à Casa Branca, os EUA voltaram a aderir ao acordo.

O Projeto 2025 promove explicitamente a declaração, descrevendo-a como um “esforço” liderado pela administração Trump “para forjar um consenso entre países com ideias semelhantes em apoio à vida humana, à saúde das mulheres, ao apoio à família como unidade básica da sociedade humana e à defesa da soberania nacional”.

O Institute for Women’s Health (IWH), com sede nos EUA, uma organização afiliada ao Projeto 2025, funciona como um veículo para preservar e expandir o alcance internacional da DCG. Depois de os EUA se terem retirado da DCG sob a administração Biden, a organização trabalhou no alcance internacional da declaração, procurando atrair novos membros.

Paraguai e a Declaração do Consenso de Genebra

Em dezembro de 2025, a presidente do IWH, Valerie Huber, e outros membros da organização reuniram-se com o embaixador do Paraguai nos EUA, Gustavo Leite. Após a reunião, a Embaixada do Paraguai afirmou que as partes tinham acordado “explorar a possibilidade de implementar um programa-piloto no Paraguai, com aconselhamento e apoio do IWH, bem como outras medidas úteis para promover os direitos das mulheres e raparigas no nosso país”.

A declaração divulgada pela embaixada do Paraguai foi vaga e não esclareceu que tipo de programa-piloto o IWH implementaria no país latino-americano. O texto também não especificou se a proposta se referia ao projeto Protego, que foi testado na Guatemala em 2023 pelo IWH. A organização descreveu o projeto como o seu “modelo para a implementação de políticas públicas consistentes com os valores” da DCG. O programa visa promover a agenda antimulher e anti-LGBTQ+ da declaração através de políticas direcionadas para a educação e a saúde pública nos países signatários.

Os legisladores paraguaios há muito que apoiam a influência de organizações antimulher sediadas nos EUA na região. Em 2017, 22 legisladores do Paraguai estavam entre cerca de 700 parlamentares de mais de 16 países latino-americanos que aprovaram a Declaração do México. De acordo com investigações jornalísticas, o esforço de lobby financeiro por trás da declaração foi apoiado pela ADF.

Desafiar a autoridade da OEA

A DCG surgiu em resposta a uma série de decisões proferidas em 2012 pelo Tribunal Interamericano dos Direitos Humanos (TIDH) em apoio à igualdade e aos direitos sexuais e reprodutivos no Chile e na Costa Rica, quando as organizações antimulher começaram a mobilizar-se contra estes organismos internacionais.

A Declaração do México opôs-se a resoluções adotadas pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos que exigiam que os Estados alterassem as suas leis nacionais sobre questões relacionadas com o aborto, bem como as relativas ao “direito à vida, à família e à liberdade de expressão”.

Esta posição antidireitos não era apenas retórica. Já se tinha manifestado como esforços concretos de lobby dentro das instituições multilaterais. Isso ficou evidente em 2014, quando o Paraguai organizou a Assembleia Geral da OEA em Assunção. Durante a assembleia, a Câmara dos Deputados do Paraguai adotou uma declaração instando os representantes do governo a oporem-se aos direitos LGBTQ+.

O esforço de lobby lançado em 2017 para desafiar os órgãos interamericanos de direitos humanos através da Declaração do México reuniu figuras políticas que mais tarde se tornariam proeminentes líderes de extrema-direita latino-americanos. Entre os signatários estava o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que em 2025 foi condenado a mais de 27 anos de prisão por planear um golpe militar e tentar “aniquilar” a democracia do país.

Líderes de extrema-direita que apoiam a Declaração do México

A declaração foi lançada pelo Congresso Parlamentar Hemisférico (Congreso Hemisférico de Parlamentarios), realizado no México em 2017. O encontro reuniu legisladores conservadores da Colômbia, Costa Rica, Bolívia, Uruguai, República Dominicana e Equador, entre outros países. O grupo foi liderado por José Antonio Kast, o recém-eleito presidente do Chile e um proeminente político anti-LGBTQ+ e antidireitos das mulheres.

Entre os apoiantes estava Raúl Latorre, um político paraguaio que é ativo em encontros internacionais contra as mulheres. Latorre é atualmente presidente da Câmara dos Deputados do Paraguai e membro do Partido Colorado conservador no poder.

Na declaração, os legisladores acusaram a OEA e a CIDH de promoverem interpretações dos tratados interamericanos que “constituem um golpe na democracia representativa na região, pois procuram impor aos Estados-Membros supostos direitos que não foram por eles endossados”. Especificamente, o esforço de lobby opôs-se à promoção do aborto, às restrições ao direito à objeção de consciência e ao reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Apesar de ser um encontro de representantes eleitos, o Congresso Parlamentar Hemisférico também contou com um discurso da advogada mexicana Neydy Casillas, que na altura era consultora jurídica sénior da ADFI. Atualmente, é vice-presidente para os assuntos internacionais do Global Center for Human Rights, uma organização com sede nos EUA que promove políticas antiaborto em toda a América Latina.

Legisladores dos EUA visam instituições interamericanas

O senador republicano dos EUA Mike Lee (Utah) dirigiu-se virtualmente ao congresso para criticar as instituições internacionais. Lee acusou a OEA de se afastar dos seus princípios fundadores ao interferir nos assuntos internos dos seus Estados-Membros e promover políticas sociais impulsionadas por uma “elite progressista”. Segundo Lee, esta agenda minou o que chamou de “pilares”, incluindo o direito à vida desde a conceção, o casamento e o género.

Nos seus esforços para influenciar a tomada de decisões dentro dos órgãos interamericanos de direitos humanos, as organizações conservadoras, antimulher e anti-LGBTQ+ e os agentes políticos da região encontraram um aliado fundamental na administração Trump e no Partido Republicano.

Durante o primeiro mandato de Trump, a pressão dos legisladores republicanos intensificou-se para ameaçar os órgãos interamericanos de direitos humanos. Em dezembro de 2018, nove senadores republicanos instaram o então Secretário de Estado Mike Pompeo a reduzir ou interromper o financiamento dos EUA para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Comissão Interamericana de Mulheres. Em março de 2019, Pompeo cortou o financiamento à OEA devido à sua alegada defesa do aborto.

A pressão para cortar o financiamento e desafiar publicamente os organismos internacionais que reconhecem os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres reflete de perto os argumentos do plano do Projeto 2025. Esta agenda apela ao governo dos EUA para responsabilizar mais as organizações multilaterais a nível financeiro e programático. O manual afirma que “as organizações internacionais não devem ser usadas para promover políticas sociais radicais como se fossem prioridades de direitos humanos”.

Como o Paraguai se tornou um centro de políticas antigénero

Desde 2017, é proibido discutir género nas salas de aula no Paraguai. Alguns meios de comunicação social informaram que o Paraguai foi o primeiro país a proibir a perspetiva de género nas instituições de ensino. O governo justificou a decisão argumentando que a Constituição define a família e o casamento como sendo formados por um homem e uma mulher, e que a missão do Ministério da Educação é “fortalecer a família como ambiente natural da educação”.

Anos depois, estes mesmos princípios foram repetidos e internacionalizados. O Projeto 2025 apela explicitamente à remoção de termos como “orientação sexual e identidade de género”, “género”, “igualdade de género”, “equidade de género”, “sensibilização para o género” e “sensível ao género” de todas as regras federais, promovendo uma ofensiva cultural mais ampla contra os princípios de igualdade e diversidade.

A educação tem sido uma frente fundamental para a agenda antimulher do governo paraguaio. Em 2025, as autoridades removeram as referências a “igualdade”, “igualdade de género” e “perspetiva de género” dos materiais educativos.

No Paraguai, a decisão de remover a perspetiva de género das escolas foi criticada por organizações internacionais, incluindo a Amnistia Internacional e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. A Amnistia Internacional alertou que a educação sexual abrangente é “um elemento fundamental na prevenção da gravidez precoce”. Este alerta é particularmente relevante no Paraguai, onde as taxas de gravidez na adolescência se mantiveram elevadas. Em 2023, 70 em cada 1000 raparigas com idades entre os 15 e os 19 anos deram à luz no país, uma das taxas mais altas da região, bem acima da média regional de 50.

Investigadores e organizações de direitos humanos alertaram repetidamente para o facto de a gravidez na adolescência estar frequentemente estreitamente ligada a situações de violência sexual. Neste contexto, a Human Rights Watch (HRW) alertou em 2022 que a lei do aborto do Paraguai, que permite o aborto apenas quando é necessário para salvar a vida da mulher, “não é suficiente para proteger vidas, muito menos a saúde ou a dignidade das raparigas”.

“As mulheres e as raparigas são forçadas a levar até ao fim gravidezes indesejadas, mesmo em casos de violação ou incesto; gravidezes que representam um grave risco para a sua saúde (embora não necessariamente para a sua vida); e gravidezes em que o feto não é viável fora do útero. Esta é uma das leis de aborto mais restritivas da América Latina”, explicou a HRW.

Em resposta à reação após a proibição de perspetivas de género nas instituições de ensino, Neydy Casillas interveio em nome da Alliance Defending Freedom International (ADFI), enviando um documento à organização evangélica Somos Muchos Más. De acordo com a openDemocracy, o documento apresentava argumentos jurídicos em defesa das medidas adotadas pelo governo paraguaio.

Entre outras alegações, Casillas argumentou que a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (CEDAW), adotada pela Assembleia Geral da ONU, e instrumentos internacionais semelhantes não são juridicamente vinculativos para os Estados. Portanto, de acordo com Casillas, o Paraguai não tem obrigação de os implementar.

A Amnistia Internacional rejeitou este argumento, afirmando que o Paraguai tem a obrigação internacional de promover a igualdade e a não discriminação porque assinou e ratificou vários compromissos internacionais, incluindo a CEDAW e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos também alertou que a proibição de discussões sobre género nas salas de aula representava um “recuo para os direitos das mulheres, das pessoas com orientações sexuais e identidades de género diversas e para o direito das crianças a receberem uma educação livre de estereótipos baseados em ideias de inferioridade ou subordinação”.

O Paraguai foi apresentado como um centro e um país-piloto para políticas que as organizações antimulher e anti-LGBTQ+ queriam expandir para outros lugares. No terreno, grupos ultraconservadores já tinham construído laços com o governo para continuar a fazer avançar a sua agenda.

Em 2016, Casillas participou numa conferência sobre a “pessoa não nascida” no Supremo Tribunal do Paraguai. De acordo com a openDemocracy, Casillas, que na altura era consultora jurídica sénior da ADFI, reuniu-se com a então deputada Olga Ferreira durante essa viagem. Dias depois, Ferreira apresentou um projeto de lei ao Congresso para criar um registo civil de “crianças por nascer”.

A ADFI também procurou envolver o governo paraguaio através de uma das suas principais campanhas de ativismo: promover a proibição de atletas transgénero nos desportos femininos. Nos EUA, a ADF levou esta questão ao Supremo Tribunal dos EUA em janeiro de 2026. A nível internacional, em 2024, a Missão Permanente do Paraguai nas Nações Unidas e a ADFI coorganizaram um evento instando a ONU a “proteger a segurança e a justiça para as mulheres no desporto”.

Num esforço para reforçar o quadro jurídico contra o aborto, a Câmara dos Deputados aprovou em 2017 a criação de um registo civil para “crianças concebidas, mas não nascidas vivas”. De acordo com o governo paraguaio, o país tornou-se assim o primeiro da América Latina a promover tal medida. A iniciativa procurou estabelecer que “uma criança que morre durante a gestação, independentemente da fase, do peso ou da causa da morte, tem o direito de ser registada com um nome e um apelido”.

Organizações de direitos humanos denunciaram o projeto como “a introdução de uma proteção quase absoluta do feto, que poderia ter precedência sobre os direitos à vida, à integridade física e à saúde das mulheres e raparigas”.

Reforçando esta narrativa de posicionar o Paraguai como um campo de testes para políticas hostis aos direitos das mulheres e LGBTQ+, os legisladores aprovaram uma declaração em 2018 proclamando a Câmara dos Deputados “pró-vida” e “pró-família”, com o objetivo declarado de “preservar os valores que sustentam a família como uma instituição fundamental”. Através desta declaração, um dos órgãos legislativos do país posicionou-se explicitamente contra o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Com o tempo, este enquadramento espalhou-se por diferentes ramos do Estado. Em 2024, o governo do Presidente Santiago Peña declarou-se “pró-vida” e “pró-família” na Cimeira da OEA, reafirmando a sua agenda antiaborto e afirmando que “o direito à vida é inerente à pessoa humana, garantindo a sua proteção, em geral, desde a conceção”.

A oposição à igualdade de género resultou em retrocessos legislativos. Por exemplo, a Lei da Paridade Democrática, que visava implementar uma quota de 50% para candidatas do sexo feminino, acabou por falhar. Em 2018, a Câmara dos Deputados aprovou uma versão diluída do projeto de lei, removendo todas as referências à paridade e reduzindo a quota de género para 20 %.

Peña and Rubio

O Presidente do Paraguai, Santiago Peña, reúne-se com o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. O Paraguai já tinha começado a implementar políticas alinhadas com a agenda do Projeto 2025, mesmo antes de a Heritage publicar o seu plano.

Cortejar Trump

O governo paraguaio procurou cortejar Donald Trump durante o seu segundo mandato, abraçando alguns dos símbolos mais reconhecíveis do movimento MAGA. Em setembro de 2025, o embaixador do Paraguai nos EUA, Gustavo Leite, participou na cerimónia de boas-vindas aos novos embaixadores na Casa Branca usando um boné com a marca registada “Make America Great Again”. Mais tarde, descreveu o encontro com o presidente dos EUA como “emocionante e inesquecível”.

Para além do seu enquadramento político, este posicionamento diplomático também pode refletir os interesses pessoais e políticos de Horacio Cartes, uma das figuras mais poderosas da política paraguaia. Cartes é um ex-presidente, o indivíduo mais rico do país, o principal financiador do Partido Colorado no poder e amplamente considerado o mentor político do Presidente Santiago Peña.

A relação de Cartes com Washington foi moldada por desenvolvimentos recentes nas relações entre os EUA e o Paraguai. Em julho de 2022, durante o governo de Joe Biden, o Departamento de Estado dos EUA designou Cartes como uma “pessoa significativamente corrupta”, citando o alegado envolvimento em “corrupção significativa”. Em outubro de 2025, no entanto, após o regresso de Trump à Casa Branca, o Gabinete de Controlo de Ativos Estrangeiros dos Estados Unidos levantou as sanções anteriormente impostas a Cartes, marcando uma mudança notável na sua posição internacional.

Ao procurar posicionar-se dentro das redes alinhadas com Trump e da extrema-direita internacional, o Paraguai tem emergido cada vez mais como um espaço de reunião para estes atores. Em 2025, o país tornou-se um ponto de encontro para o ecossistema internacional de extrema-direita. Nesse ano, o país acolheu a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) e o Foro Madrid, uma rede transnacional de defesa que reúne partidos políticos e organizações de extrema-direita de toda a América Latina.

Esta posição começou a ser consolidada em junho de 2025, quando representantes da extrema-direita de 17 países se reuniram em Assunção para o Quarto Encontro Regional do Foro Madrid. O evento foi apresentado como um ponto de viragem para o conservadorismo latino-americano antes do ciclo eleitoral de 2025–2026 na região. Entre os participantes estava o político chileno José Antonio Kast, meses antes de vencer as eleições presidenciais e se tornar presidente eleito. Entre os participantes dos EUA estava Melissa Ford, do America First Policy Institute, um “think tank” de extrema-direita pró-Trump conhecido pelas suas posições anti-LGBTQ+ e antimulher.

Lançado pelo partido político de extrema-direita espanhol Vox em 2020, o Foro Madrid apresenta-se como “uma grande aliança internacional de líderes, entidades e partidos que defendem a liberdade, a democracia e o Estado de direito contra o avanço do comunismo em países de ambos os lados do Atlântico”.

O Vox e os seus aliados, incluindo o Presidente do Paraguai, Santiago Peña, promovem a rede como um contrapeso conservador ao Fórum de São Paulo e ao Grupo de Puebla, duas plataformas políticas que reúnem partidos e líderes de esquerda da América Latina — que vão de social-democratas a comunistas — como o brasileiro Lula da Silva e o ex-Presidente da Bolívia, Evo Morales.

Paraguai na rede global Trumpista

A chegada da CPAC ao Paraguai em 2025 marcou uma nova fase nos esforços do país para se posicionar dentro das redes alinhadas com Trump e da extrema-direita internacional, estendendo o seu papel para além de plataformas regionais como o Foro Madrid.

Em setembro de 2025, figuras dos EUA, incluindo os organizadores da CPAC, Matthew e Mercedes Schlapp, subiram ao palco no evento, ao lado de Richard Grenell, enviado presidencial dos EUA para missões especiais.

Grenell tornou-se recentemente uma figura fundamental da administração Trump na região. Antes da decisão do Presidente Trump de capturar o presidente da Venezuela, Grenell manteve contacto com Nicolás Maduro e o seu governo. Grenell abordou esta questão durante a CPAC Paraguai, reconhecendo que se tinha reunido com Maduro e expressando esperança de que um “acordo” pudesse ser alcançado.

Em 3 de janeiro de 2026, os militares dos EUA prenderam Maduro e a sua esposa, Cilia Flores, numa operação em Caracas (Venezuela). Desde então, o casal está detido no Centro de Detenção Metropolitano de Brooklyn, Nova Iorque, e Maduro enfrenta acusações de conspiração de narcoterrorismo, conspiração de importação de cocaína e acusações de posse de armas.

Como é frequentemente o caso, figuras proeminentes do espectro político de extrema-direita da região participaram na CPAC Paraguai. O Presidente argentino Javier Milei elogiou o seu homólogo paraguaio, dizendo que a gestão do Partido Colorado é “um exemplo do que deve ser feito na política económica”.

Por sua vez, o Presidente do Paraguai, Santiago Peña, disse que o seu governo trabalharia ao lado de “países irmãos” cujos governos “lutam pelos valores e ideais do Ocidente”, citando a Argentina de Javier Milei, a Itália de Giorgia Meloni e os EUA do seu “amigo” Donald Trump como exemplos desses países. De acordo com Peña, estes líderes “entendem que, nestes tempos, a nossa própria civilização está em jogo”.

Peña também reconheceu que o seu “coração se encheu de alegria” quando soube que a CPAC seria realizada no Paraguai, que descreveu como o “verdadeiro lar” da conferência. No palco, o presidente paraguaio declarou que “enquanto o Paraguai existir, haverá pessoas que dirão, em alto e bom som, ao mundo: não ao aborto livre, não a ideias alternativas da família e não a experiências sociais radicais”, uma referência, sem os nomear diretamente, aos direitos LGBTQ+.

Estes desenvolvimentos ilustram como o Paraguai procurou ganhar relevância política alinhando-se ideologicamente com o trumpismo e os seus aliados conservadores. Este alinhamento tornou-se mais visível em 2025, quando o país começou a acolher eventos ligados à extrema-direita internacional.

Antes dessa mudança, o governo paraguaio e o Partido Colorado seguiram uma estratégia mais indireta. Em vez de atuarem como anfitriões, concentraram-se na construção de alianças com organizações antimulher e anti-LGBTQ+ e enviaram representantes a fóruns fundamentais para coordenação e networking dentro do ecossistema global antidireitos.

Neste contexto, representantes paraguaios participaram em várias cimeiras transatlânticas da Political Network for Values, incluindo as realizadas na Colômbia (2019), Hungria (2022), Nova Iorque (2023) e Madrid (2024), bem como na CPAC Hungria em 2024.

Através da promoção de uma agenda antimulher e anti-LGBTQ+, da oposição à educação para a diversidade, das restrições aos direitos reprodutivos das mulheres e da reafirmação do seu compromisso com a DCG, o Paraguai estabeleceu-se como um centro fundamental dentro da rede global contra os direitos alinhada com o trumpismo e como uma referência inspiradora para a narrativa do Projeto 2025.

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O Projeto 2025 “reordena” as relações com os países africanos, afastando-as da ajuda e aproximando-as da guerra cultural de Trump

A exportação do Projeto 2025 para o contexto africano alterou muito as relações internacionais entre as nações africanas e os EUA. Os académicos africanos descreveram esta mudança como a “Nova (Re)Ordem Mundial”, uma vez que o envolvimento dos EUA em África passou de parcerias que exigiam responsabilização democrática e proteção dos direitos humanos para exigências de que as nações africanas perseguissem os objetivos ideológicos da administração Trump, dando ao mesmo tempo às empresas americanas vias para a extração de recursos. Para o continente africano, esta mudança representa uma profunda mudança estrutural. Os Estados Unidos já não são defensores das normas democráticas, tendo abandonado décadas de uso da ajuda e da diplomacia para pressionar os Estados a aderirem às suas constituições e a protegerem os direitos humanos.

Até Trump, os EUA geralmente exigiam, em troca da ajuda, o Estado de direito, o cumprimento dos mandatos constitucionais e um poder judicial independente. Um compromisso com os direitos humanos como princípio fundamental foi imposto através de mecanismos como a Millennium Challenge Corporation (MCC), que condicionou as subvenções de infraestruturas em grande escala a um quadro de resultados de 20 indicadores democráticos e congelou a ajuda como medida punitiva contra qualquer país que sofresse um golpe ou um retrocesso significativo nas liberdades civis. Coletivamente, estas ações vincularam a sobrevivência económica de uma nação à sua adesão às normas constitucionais, tornando efetivamente o custo do autoritarismo proibitivamente elevado.

Com o advento da administração Trump e orientados pelo Projeto 2025, este fundamento de responsabilização foi desmantelado, à medida que os EUA mudam para acordos puramente transacionais em que os EUA fornecem, em troca de alinhamento ideológico, aos líderes africanos uma proteção diplomática e política contra o escrutínio internacional e as pressões democráticas internas, eliminando efetivamente as restrições que outrora tornavam o autoritarismo dispendioso. Em troca disso, os países africanos devem conceder aos EUA acesso preferencial para a extração de recursos e manter um rígido alinhamento ideológico com a agenda do Projeto 2025, particularmente em questões relacionadas com os direitos das mulheres e das pessoas LGBTQ+.

O Mandate for Leadership do Projeto 2025 deixou clara esta nova relação, escrevendo que, em África, os EUA devem concentrar-se na segurança central, “em vez de impor iniciativas radicais de aborto e pró-LGBT. Símbolos divisivos como a bandeira do arco-íris ou a bandeira Black Lives Matter não têm lugar ao lado da bandeira com as estrelas e as riscas nas nossas embaixadas.” Enquanto um regime garantir as cadeias de abastecimento americanas e adotar a estrutura contra os direitos da Declaração do Consenso de Genebra (DCG), as suas repressões internas e a erosão constitucional serão recebidas com silêncio por parte de Washington.

O caso do Quénia

A violência contra manifestantes e ativistas dos direitos humanos tem uma longa história nos países africanos, tornando a relação pré-Trump fundamental para a manutenção das normas constitucionais. Já não. Por exemplo, durante os protestos contra o Projeto de Lei de Finanças de 2024 no Quénia, a resposta do Estado foi particularmente flagrante. A partir de junho de 2024, um movimento liderado por jovens mobilizou-se em todo o Quénia para se opor a aumentos punitivos de impostos, culminando eventualmente na histórica invasão do Parlamento.

O Estado respondeu com um nível de força nunca visto na recente era democrática do Quénia. Isto foi caracterizado pelo uso de munição real contra manifestantes desarmados, uma onda de raptos extrajudiciais contra ativistas digitais e o envio de militares para os centros urbanos. Historicamente, tais ações teriam desencadeado os mecanismos de responsabilização do Departamento de Estado e as provas destas graves violações dos direitos humanos teriam exigido uma repreensão diplomática automática e uma revisão da elegibilidade do Quénia para parcerias de alto valor como a MCC. Isto faria com que o governo queniano enfrentasse um custo elevado pela repressão, uma vez que as repressões violentas resultariam no congelamento das subvenções para infraestruturas e na potencial suspensão das preferências comerciais.

Uma erosão semelhante dos sistemas democráticos ocorreu nas eleições gerais da Tanzânia em outubro de 2025, que foram marcadas por execuções extrajudiciais, uma onda de raptos visando críticos e um corte total da Internet de 29 de outubro a 3 de novembro de 2025. As recentes eleições no Uganda, a 15 de janeiro de 2026, que marcaram o 40.º ano do Presidente Museveni no poder, foram marcadas por um corte da Internet em todo o país, detenções em massa de jovens, ataques a rivais políticos, repressão e criminalização de dissidentes. A violência espalhou-se para outros países vizinhos, incluindo o Quénia.

Com Trump e o Projeto 2025, a pressão do governo dos EUA para conter estas ações desapareceu. Os EUA desmantelaram a USAID, uma exigência fundamental do Projeto 2025, que era uma agência importante para garantir os direitos humanos e o cumprimento democrático e centralizaram toda a assistência externa no poder executivo de Trump.

Em janeiro de 2026, a responsabilidade pelos restantes programas de ajuda tinha sido transferida para o Departamento de Estado. Tendo reformulado a governação e os direitos humanos como questões estritamente internas, Washington concedeu ao Quénia liberdade para gerir os assuntos internos sem receio das repercussões tradicionais que outrora acompanhavam o retrocesso constitucional. Enquanto o Quénia fornecer acesso preferencial a minerais críticos e um alinhamento rígido com a estrutura contra os direitos da DCG, é livre para agir com impunidade a nível interno.

Esta nova era foi posta à prova a 4 de dezembro de 2025, quando o Presidente do Quénia, William Ruto, e o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, assinaram um histórico Quadro de Cooperação em Saúde de 2,5 mil milhões de dólares. O Quénia tornou-se o modelo para a America First Global Health Strategy (AFGHS), que se está a espalhar por todo o continente e envolve pactos bilaterais destinados a substituir instituições multilaterais como a OMS e o fim da ajuda externa que não promova diretamente os interesses nacionais dos EUA. Enquanto os EUA enquadraram este acordo como uma política de Estado americana destinada a reforçar um aliado estratégico, o governo queniano viu-o como uma oportunidade de comprar o seu caminho para uma nova era de parceria com os EUA, sem as habituais condições democráticas.

À medida que o governo queniano tomava medidas para operacionalizar o acordo, o poder judicial e a sociedade civil quenianos apontaram para as disposições da Constituição de 2010. Este acordo de vários milhares de milhões de dólares contornou os mandatos constitucionais para a participação pública e a privacidade de dados, especificamente através de uma tentativa de partilhar os dados de saúde sensíveis de milhões de quenianos sem supervisão.

A Rede de Questões Jurídicas e Éticas do Quénia sobre o VIH e a SIDA (KELIN) intentou uma ação, argumentando que o quadro monetizava os direitos à saúde e que, ao assinar a DCG, o governo sinalizava a vontade de cortar o financiamento dos serviços de saúde reprodutiva e LGBTQ+ para manter o apoio financeiro dos EUA, o que seria uma troca direta que violaria os artigos 43.º e 26.º da Constituição. Apesar da gravidade da petição, o governo prosseguiu com o acordo, reforçado pela confiança de que o silêncio de Washington era agora uma característica garantida da parceria. O Supremo Tribunal emitiu ordens históricas para vincular novamente o executivo ao Estado de direito, argumentando que a lealdade a uma potência estrangeira não dá ao governo o direito de trocar os direitos constitucionais de saúde e de dados dos seus cidadãos.

Embora a injunção do Supremo Tribunal de 2025 tenha congelado temporariamente o Quadro de Saúde formal entre os EUA e o Quénia, não interrompeu a agenda da DCG; apenas a forçou a passar para a clandestinidade e para diferentes canais institucionais. A estratégia mudou de um único megaacordo para uma abordagem mais granular e multifacetada que utiliza Organizações de Base Religiosa (FBO), legislação e a reestruturação da Autoridade de Saúde Social (SHA). Ao canalizar a assistência técnica dos EUA através de OBF, o governo pode continuar a operacionalizar os pilares da “família natural” e “pró-vida” da DCG ao nível da comunidade, contornando efetivamente a injunção do Supremo Tribunal, que visa principalmente as atividades de governo para governo.

Esta agenda também está a ser concretizada através de uma reformatação legislativa sistemática destinada a tornar irrelevante a defesa da Constituição de 2010 pelo Supremo Tribunal. O governo queniano está a criar uma via alternativa estatutária ao incorporar uma linguagem ultraconservadora na legislação secundária, que substitui as proteções constitucionais sem necessidade de alterar a própria Constituição. Ao adotar a linguagem da extrema-direita global, o governo queniano garantiu a sua aliança com os EUA, que fornece a cobertura política necessária para ignorar as decisões do Supremo Tribunal.

O Projeto de Lei de Proteção Social (2025) introduz uma abordagem de ciclo de vida que dá explicitamente prioridade ao “nascituro” e à “família natural”, marcando um afastamento significativo da Constituição de 2010, que define a personalidade como tendo início no nascimento. O Projeto de Lei de Cuidados de Saúde de Qualidade e Segurança do Paciente (2025) introduz vagos padrões morais e éticos para os profissionais de saúde. Os críticos argumentam que estas alterações são um cavalo de Troia para a objeção de consciência, proporcionando uma lacuna legal para os profissionais de saúde alinhados com a DCG recusarem serviços reprodutivos ou cuidados inclusivos. Isto permite que os prestadores individuais optem por não cumprir os mandatos constitucionais por motivos morais, anulando assim os direitos de saúde dentro do sistema médico. O Quénia também institucionalizou a exclusão financeira através da transição do Fundo Nacional de Seguro de Saúde (NHIF) para a Autoridade de Saúde Social (SHA), onde várias instituições de caridade conhecidas por cuidados reprodutivos abrangentes foram rebaixadas, tornando-as inelegíveis para pagamentos do governo.

Curiosamente, em fevereiro, o Zimbabué abandonou uma proposta de acordo de financiamento da saúde de 350 milhões de dólares com os Estados Unidos, depois de o Presidente Emmerson Mnangagwa ter ordenado ao seu governo que encerrasse as negociações sobre o que Harare descreve como um acordo unilateral que prejudica a soberania do país.

DCG e a vigilância generalizada

Depois, há o Sistema Eletrónico de Informação de Saúde Comunitária, ou eCHIS, um esforço alinhado com o Projeto 2025 que prioriza o uso da monitorização digital para garantir que a ajuda externa seja gasta em alinhamento com a sua agenda de extrema-direita de restrição dos direitos das mulheres. Em janeiro de 2026, o eCHIS tinha alcançado 75% de cobertura de agregados familiares, funcionando como um painel de controlo de conformidade em tempo real para o Departamento de Estado. Através do programa Afya Nyumbani (Saúde em Casa), os 107 000 Promotores de Saúde Comunitária (CHP) do Quénia atuam como os olhos digitais do Estado. Equipados com smartphones, estes trabalhadores acompanham cada gravidez, nascimento e intervenção contracetiva ao nível da aldeia.

Estes dados são depois partilhados com Washington para provar que o Quénia está a seguir rigorosamente a DCG. O financiamento dos salários e dos smartphones do programa está agora diretamente condicionado a esta partilha de dados. Se os registos do eCHIS mostrarem um aumento de serviços “não alinhados”, como cuidados reprodutivos inclusivos ou apoio a LGBTQ+, os EUA podem desencadear sanções financeiras imediatas, cortando efetivamente o financiamento às clínicas. O sistema eCHIS não se limita a registar dados; orienta o comportamento. O software utiliza “incentivos” automatizados e “apoio à decisão” para orientar as consultas dos pacientes. Na versão de 2026 do software, estes algoritmos foram reformatados para dar prioridade aos pilares da “família natural” e “pró-vida” da DCG.

Segundo este sistema, o desempenho de um CHP já não é medido apenas pela recuperação do paciente ou pela prevenção de doenças. Em vez disso, o seu sucesso é classificado pelo “cumprimento das normas morais de saúde”. Estes valores estão codificados nos smartphones usados em todas as aldeias quenianas, garantindo que, mesmo que os direitos de um cidadão estejam protegidos no papel pela Constituição de 2010, o sistema de cuidados real está programado para os negar.

Com o Projeto 2025, os EUA institucionalizaram a DCG como o padrão para as suas alianças, exigindo que os parceiros se desvinculem das normas internacionais de direitos humanos que violem as suas disposições antimulher e anti-LGBTQ+. O governo queniano tem minado ativamente as suas próprias instituições para acomodar os EUA, dando prioridade à lealdade ideológica em detrimento dos mandatos constitucionais. Esta transição da condicionalidade democrática para a fidelidade ideológica garante que, enquanto o governo queniano permanecer leal à DCG, os EUA enquadrarão as suas repressões internas não como falhas democráticas, mas como o exercício legítimo da soberania nacional.

Tarifas como pressão

Economicamente, os acordos comerciais preferenciais foram substituídos por tarifas recíprocas. Historicamente, os EUA utilizaram o comércio não recíproco, que permitia a entrada de produtos quenianos no mercado americano isentos de impostos como forma de ajudar a economia do Quénia a crescer. Os EUA não pediram o mesmo acesso isento de impostos em troca; foi um benefício unilateral concebido para o desenvolvimento.

A Lei de Crescimento e Oportunidade para a África (AGOA) foi reformulada para ser um executor económico da agenda America First, alterando fundamentalmente o panorama industrial do Quénia. Embora uma extensão crítica de três anos do AGOA tenha sido aprovada no início de 2026 para evitar o colapso económico, os meses em que o AGOA foi suspenso, a partir de 30 de setembro de 2025, atingiram duramente os setores de exportação, deixando claro que o Quénia não podia dar-se ao luxo de não chegar a um acordo com os EUA. Durante este hiato, as exportações de vestuário do Quénia para os EUA, uma indústria com um valor superior a 548 milhões de dólares, enfrentaram uma falta de competitividade imediata. Os fabricantes nas Zonas de Processamento de Exportação (EPZ) do rio Athi e de Mombaça foram forçados a pagar direitos aduaneiros totais até 42% para além dos novos impostos de base, ameaçando mais de 66 000 empregos, ocupados principalmente por mulheres e jovens. Os fabricantes de têxteis alertaram que a extensão de uma estação é insuficiente para garantir as encomendas de longo prazo necessárias para sustentar uma força de trabalho de 10 000 pessoas. Em economias mais pequenas, como o Lesoto e Madagáscar, a ameaça de tarifas de 50% e 47%, respetivamente, criou um estado de incerteza que torna quase impossível o novo investimento estrangeiro.

A expiração da Lei de Crescimento e Oportunidade para a África em 30 de setembro de 2025 foi estratégica da parte dos EUA. Permitiu que o programa decorresse durante quatro meses, para que o governo queniano sentisse todo o peso dos direitos aduaneiros de 42% sobre o vestuário, garantindo que Nairobi ficaria grata por uma renovação que viesse com novas e pesadas amarras ideológicas. Em dezembro, o Quénia reafirmou rapidamente o seu alinhamento com a DCG e a sua retórica da “família natural” e ganhou o direito de ter os seus direitos aduaneiros de 42% reembolsados retroativamente.

As tarifas definem agora a estratégia diplomática de Nairobi. O Quénia está atualmente a navegar por uma tarifa recíproca de base de 10% introduzida ao abrigo dos ajustamentos America First do final de 2025 (embora a recente decisão do Supremo Tribunal que determina que o regime tarifário de Trump é ilegal possa, em última análise, mudar tudo isto). Para os setores não alinhados, estas taxas podem disparar, com o vestuário sintético a enfrentar taxas que chegam aos 33%. Estas tarifas servem como uma trela económica, forçando o Quénia a dar prioridade às exigências ideológicas dos EUA. A crise do AGOA foi a integração formal do Quénia no regime comercial do Projeto 2025. Os EUA deixarão de subsidiar a indústria transformadora africana, a menos que essa indústria transformadora seja acompanhada de total fidelidade ideológica. No Gana, as tarifas estão agora vinculadas à cooperação em matéria de migração e ao acesso a minerais críticos. Nesse caso, pela primeira vez, uma administração americana usou o AGOA como uma ferramenta para a aplicação da lei de imigração interna. No final de 2025, o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Gana admitiu que as negociações de extensão do comércio estavam condicionadas à aceitação pelo país de indivíduos deportados dos Estados Unidos.

Custos do incumprimento

A África do Sul tornou-se o estudo de caso definitivo do alto custo de desafiar Trump. Depois de Pretória desafiar os interesses dos EUA no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) e rejeitar a estrutura ideológica da DCG, a resposta de Washington foi absoluta e imediata. A 1 de agosto de 2025, os EUA revogaram o Escudo de Não Interferência da África do Sul, impondo uma tarifa unilateral de 30% às suas principais exportações e congelando quase 460 milhões de dólares em financiamento do PEPFAR, que é destinado à prevenção da SIDA e a medicamentos. Esta medida dizimou 18% da resposta ao VIH da África do Sul da noite para o dia. Como a África do Sul tem a maior população seropositiva do mundo, a suspensão dos 439 milhões de dólares atribuídos para 2025 ameaçou desfazer uma década de progresso. Os modelos epidemiológicos estimaram que uma cessação completa do financiamento do PEPFAR resultaria em 150 000 a 296 000 novas infeções por VIH adicionais e até 65 000 mortes adicionais relacionadas com a SIDA no período de 2025 a 2028.

Esta mudança significa que os Estados Unidos deixarão de ajudar financeiramente os países que escolherem a independência constitucional em detrimento das exigências da guerra cultural de Washington. Agora, os EUA exigem que os países negoceiem novos Memorandos de Entendimento (MOU) consistentes com a America First Global Health Strategy. Com efeito, a assistência à saúde está agora explicitamente dependente da lealdade diplomática, transformando os programas de saúde globais em instrumentos de influência política, em vez de um envolvimento puramente humanitário. Para o Quénia, a mensagem era clara: o silêncio de Washington sobre as repressões internas manter-se-á enquanto apoiar a agenda ideológica de Trump.

O objetivo final destas ações é que os países africanos adotem a exportação da guerra cultural americana. Este movimento de pinça de poder brando garante que, mesmo quando uma nação permanece economicamente complacente, as suas instituições internas, desde as clínicas das aldeias às câmaras legislativas, são sistematicamente reprogramadas para refletir os mandatos ultraconservadores do Projeto 2025.

Ruto and Rubio

O Presidente do Quénia, William Ruto, reunido com o Secretário de Estado Marco Rubio em dezembro de 2025. (Fonte: X)

Organizações do Projeto 2025 em África

No Quénia, a agenda antidirreitos tem sido impulsionada por organizações ocidentais com uma longa história em África, como a Opus Dei (fundada no Quénia em 1958), e por grupos americanos de extrema-direita mais recentemente estabelecidos, como a Family Watch International (FWI) e o World Congress of Families (WCF), que são antiliberdade reprodutiva e antidireitos LGBTQ+. Em maio de 2025, a FWI fez uma parceria com o Kenya Christian Professionals Forum (KCPF) e o Ministério do Trabalho para organizar a Segunda Pan-African Conference on Family Values em Nairobi (ver Capítulo 5). Esta conferência foi uma plataforma de lançamento estratégica em que os líderes africanos foram formados para enquadrar a rejeição da liberdade reprodutiva e dos direitos LGBTQ+ como um ato heroico de descolonização, renomeado como uma defesa dos valores familiares tradicionais indígenas. Sharon Slater (FWI), Austin Ruse (C-Fam) e Bettina Roska (ADFI) estavam entre os proeminentes conservadores ocidentais que encabeçaram o evento, que resultou na Declaração de Nairobi sobre os Valores da Família. Ao adotar a linguagem dos valores tradicionais, eles efetivamente reformularam uma guerra cultural americana como um movimento de base indígena para contornar o ceticismo tipicamente dirigido à interferência ocidental.

Em 2023, o Uganda acolheu uma Conferência Interparlamentar sobre valores familiares e soberania em Entebbe, reunindo uma coligação que incluía o Parlamento do Uganda, a African Bar Association e a Foundation for African Cultural Heritage (FACH), com sede na Nigéria, com a participação e o apoio promocional do grupo evangélico dos EUA, FWI, cuja presidente, Sharon Slater, também discursou no evento. Esta conferência serviu de plataforma de lançamento ideológica para o Projeto de Lei de Proteção da Família do Quénia (2023), popularmente conhecido como Projeto de Lei Kaluma, que enfatiza a definição bíblica de casamento e restringe os direitos LGBTQ+ sob o pretexto de proteger os valores tradicionais.

Refletiu a linguagem da Lei Anti-Homossexualidade do Uganda de 2023 (AHA), que apela à pena de morte para a homossexualidade agravada. Críticos como o Center for Reproductive Rights argumentam que, embora o projeto de lei Kaluma do Quénia afirme proteger os valores africanos, o seu texto, que visa a educação sexual e criminaliza a defesa dos direitos LGBTQ+, é fortemente influenciado por fundamentalistas americanos, incluindo os do comité consultivo do Projeto 2025, como o Center for Family and Human Rights (C-Fam).

Estes grupos têm feito incursões em toda a África Oriental para implementar e fortalecer as leis anti-LGBTQ+. Relatórios do Southern Africa Litigation Centre (SALC) e da Amnistia Internacional confirmam que a FWI forneceu a formação e o enquadramento para a Declaração de Nairobi sobre os Valores da Família, que foi adotada na conclusão do evento da Segunda Conferência Pan-Africana sobre os Valores da Família. A Declaração de Nairobi sobre os Valores da Família (2025) defende uma “família natural” nuclear composta por um pai, uma mãe e filhos. Académicos do Southern Africa Litigation Centre (SALC) salientam que esta definição singular é, em si mesma, uma importação ocidental que ignora as estruturas comunitárias tradicionais africanas, onde as crianças são criadas pelos avós, pelas tias e pela comunidade em geral.

Na Etiópia, na Tanzânia e no Quénia, o enquadramento dos direitos LGBTQ+ como “não africanos” ou elitismo ocidental é um argumento central usado para conceptualizar os direitos humanos como interferência estrangeira ou neocolonialismo, justificando assim a repressão. O Gana aprovou legislação semelhante à Lei Anti-Homossexualidade do Uganda através da Lei dos Direitos Sexuais Humanos e dos Valores Familiares do Gana em fevereiro de 2024, que criminaliza as pessoas que se identificam como LGBTQ+ e que defendem os direitos LGBTQ+, com penas de prisão severas. A República Democrática do Congo tem legislação semelhante, o projeto de lei Mutamba, introduzido em 2024.

Liberdade online e meios de comunicação social

O panorama digital africano também foi transformado sob a pressão dos EUA. Durante décadas, a USAID serviu como o principal pilar financeiro para os meios de comunicação independentes e as iniciativas de literacia digital em todo o continente. No entanto, o afastamento da administração Trump das normas democráticas proporcionou uma cobertura moral que permitiu aos autocratas africanos acelerar a implementação da vigilância digital e dos cortes da Internet. Esta viragem geopolítica sinalizou aos líderes regionais que a gestão das suas esferas digitais nacionais era um assunto interno, removendo efetivamente a pressão que antes limitava a repressão patrocinada pelo Estado, tanto online como offline.

Os líderes políticos africanos utilizaram a retórica de “notícias falsas” de Trump para desacreditar as notícias desfavoráveis. A investigação identificou que esta mudança linguística precede frequentemente a aprovação de leis restritivas sobre cibercrime. Estes quadros jurídicos são frequentemente caracterizados por definições excessivamente amplas, que permitem aos Estados visar a liberdade de expressão dos cidadãos sob o pretexto de manter a segurança nacional. Consequentemente, o espaço digital tornou-se cada vez mais difícil de navegar para os utilizadores, uma vez que a linha entre a informação factual e a propaganda patrocinada pelo Estado é intencionalmente desfocada.

A retirada do apoio dos EUA aos meios de comunicação independentes criou um vazio institucional que está a ser rapidamente preenchido pelo autoritarismo digital. Em 2025, meios de comunicação social proeminentes, como a Eye Radio do Sudão do Sul e várias estações comunitárias na RDC e na Zâmbia, comunicaram reduções significativas de pessoal devido a cortes na ajuda relacionada com a USAID. Gerald Businge, um consultor multimédia ugandês, observa que a ausência destes vigilantes deixa o ecossistema digital vulnerável a narrativas patrocinadas pelo Estado e à influência de atores estrangeiros, particularmente a Rússia e a China.

Além disso, a erosão dos padrões de moderação de conteúdos online exacerbou os riscos para os grupos marginalizados. O grito de guerra de Trump pela liberdade de expressão online levou a reduções na moderação de conteúdos de ódio e desinformação, incluindo nos mercados africanos, que já estavam gravemente submoderados. Uma investigação do CIPIT da Universidade Strathmore do Quénia sublinha que as línguas africanas continuam a ser gravemente submoderadas, deixando um vazio que os governos locais preenchem com as suas próprias leis restritivas, que fornecem uma lógica conveniente para os líderes africanos justificarem a supressão da dissidência digital. O resultado é um ambiente digital que não só é difícil de atravessar, como é ativamente hostil a quem opera fora das narrativas sancionadas pelo Estado.

A retirada institucional do apoio aos meios de comunicação independentes e a adoção da retórica das notícias falsas criam um vazio de informação que permite a implementação de estruturas tecnológicas invasivas e baseadas em valores. No Quénia, este autoritarismo digital é operacionalizado através do Protego Women’s Optimal Health Framework (WOHF) da ativista americana de extrema-direita Valerie Huber, que serve como alternativa aos quadros internacionais de direitos humanos existentes. O projeto ganhou força significativa na África Oriental, com o Uganda a tornar-se um dos primeiros a adotá-lo em fevereiro de 2024 e o Burundi a aderir em outubro de 2025. O WOHF exclui métodos contraceptivos modernos e comunidades marginalizadas, incluindo pessoas que vivem com VIH e minorias sexuais, ao mesmo tempo que promove mensagens centradas na abstinência e na recuperação da feminilidade.

O quadro do Projeto 2025 substituiu efetivamente uma diplomacia enraizada em valores democráticos e direitos humanos pelas guerras culturais da América. Para o Quénia, o preço do apoio financeiro e da não interferência interna é o alinhamento ideológico e económico total com uma agenda conservadora dos EUA. Esta mudança é uma alteração na política e uma reformulação estrutural que utiliza a reciprocidade comercial, a vigilância tecnológica e os desvios legislativos para corroer os fundamentos da Constituição de 2010. Este realinhamento é fundamentalmente uma luta pela definição de soberania. Enquanto o Estado procura negociar a soberania como uma mercadoria para garantir a sobrevivência da elite, o poder judicial e a sociedade civil continuam a ser os defensores finais de uma soberania enraizada na integridade constitucional e nos direitos humanos. O silêncio de Washington é condicional, e o preço do não pagamento é a liquidação económica e humanitária.

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Europa na mira do Projeto 2025

O Mandate for Leadership do Projeto 2025 menciona a Europa apenas algumas vezes, mas tem grandes planos para transformar o continente à sua imagem. Os aliados mais próximos da Long America, os países da Europa Ocidental e a União Europeia são agora mais frequentemente o inimigo, pelo menos ideologicamente, precisando de uma transformação radical para erradicar uma agenda “woke”. Os maiores “crimes” da Europa são proteger os direitos humanos das mulheres, dos imigrantes e das pessoas LGBTQ+, proibir o discurso de ódio e valorizar a democracia liberal.

Um desdém pela Europa permeia o Projeto 2025, que escreve: “Hoje, quase todos os reitores de universidades de topo dos EUA ou gestores de fundos de investimento de Wall Street têm mais em comum com um chefe de Estado europeu socialista do que com os pais num jogo de futebol americano do ensino secundário em Waco, Texas. Toda a identidade de muitas elites, ao que parece, está envolvida no seu sentido de superioridade sobre essas pessoas.” As elites e os seus aparentes valores socialistas europeus “espalharam-se como um cancro por muitas das maiores empresas da América, pelas suas instituições públicas e pela sua cultura popular”, afirma o Projeto 2025.

A União Europeia (UE) é vista como particularmente ofensiva e os seus valores e políticas são a antítese do Projeto 2025. Para o Projeto 2025, e agora para a administração Trump, a UE é um bastião de valores liberais “woke” que supostamente suprimem a liberdade de expressão e manipulam as eleições contra os partidos de extrema-direita. A UE é vista como uma aliada política do Partido Democrata, apoiando os liberais em questões culturais como o aborto, os direitos dos transgéneros e a diversidade, a equidade e a inclusão. A Europa, para o Projeto 2025, é a personificação de todas as políticas progressistas e direitos civis que planeiam erradicar, tanto nos EUA como no estrangeiro.

Para transformar o continente, o Projeto 2025 e a administração Trump acreditam que a guerra cultural da extrema-direita deve ser exportada para a Europa. Protegerá assim a extrema-direita da América, enfraquecerá o liberalismo na Europa e no país e atrasará o projeto europeu em geral. Em essência, a Europa democrática tornou-se um inimigo maior para os EUA do que a Rússia ou outros Estados autoritários, uma vez que ameaça a agenda cultural do Projeto 2025 e serve como uma construção ideológica compensatória baseada na democracia e em amplas proteções dos direitos humanos, o oposto do autoritarismo eleitoral e das restrições de direitos defendidas pela extrema-direita a nível global.

Estratégia de Segurança Nacional para minar a Europa

Grande parte desse ódio e dos planos para reordenar as relações dos EUA com os seus aliados tradicionais foi delineada pela administração Trump na sua Estratégia de Segurança Nacional (NSS) de novembro de 2025. Esta incumbe os EUA de “restaurar a autoconfiança civilizacional da Europa e a identidade ocidental” e salvá-la do “apagamento civilizacional”. Trump afirma que os imigrantes e os liberais estão a dizimar o continente, “criando conflitos, censura à liberdade de expressão e supressão da oposição política, diminuindo as taxas de natalidade e causando a perda de identidades nacionais e de autoconfiança”. O Projeto 2025 apela especificamente à interferência na política interna europeia, apoiando “partidos patrióticos” de extrema-direita, uma intervenção anteriormente impensável nos assuntos internos de um aliado.

O que isto significa é que os EUA cultivarão movimentos de extrema-direita, rompendo com décadas de política declarada de não interferir nos assuntos internos europeus. Os partidos políticos de extrema-direita europeus são amplamente anti-imigração, anti-LGBTQ+ e contra os direitos das mulheres, espelhando as agendas de Trump e do Projeto 2025. Com efeito, agora, a pedido do Projeto 2025, a política externa dos EUA na Europa é impulsionada, em grande parte, pela exportação das guerras culturais da América.

Outro aspeto da agenda do Projeto 2025 envolve a administração Trump a fortalecer os seus aliados europeus de extrema-direita, muitos dos quais trabalham em estreita colaboração com a Heritage Foundation, que liderou o Projeto 2025, e com outros conselheiros do Projeto 2025. O governo almeja “Make Europe Great Again” através do fortalecimento das relações com países específicos — como a Hungria, a Itália, a Áustria e a Polónia — com o objetivo de “afastá-los” da estrutura coletiva da União Europeia.

Uma versão mais longa e confidencial da estratégia de segurança obtida pela Defense One, uma publicação online de notícias sobre segurança nacional e defesa, argumentou que os EUA deveriam minar a UE, afastando dela certos Estados-Membros. “Devemos apoiar partidos, movimentos e figuras intelectuais e culturais que procuram a soberania e a preservação/restauração dos modos de vida tradicionais europeus… mantendo-se ao mesmo tempo pró-americanos”, diz o documento. Parte integrante desse plano é que os EUA fortaleçam as relações bilaterais com os países europeus que estão mais politicamente alinhados com a administração Trump, incluindo a Hungria de Viktor Orban, que foi descrita como uma “autocracia eleitoral” pelo Parlamento Europeu, a Eslováquia anticigana e racista de Robert Fico, a Itália de Giorgia Meloni e, potencialmente, a Polónia, onde o Partido da Lei e da Justiça de extrema-direita esteve no comando durante muitos anos antes de ser afastado do poder em 2023. No final de janeiro, o ex-Presidente polaco Andrzej Duda juntou-se à Heritage Foundation, que liderou o Projeto 2025, como distinto membro visitante.

Parte desta estratégia envolve exigir que as empresas europeias, e até mesmo a cidade de Estocolmo, abandonem as iniciativas de diversidade, um objetivo particular do Projeto 2025. Em 2025, a administração Trump iniciou esforços para pressionar as empresas europeias com contratos com o governo dos EUA a abandonarem os programas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI). As embaixadas dos EUA enviaram cartas, incluindo um questionário sobre o cumprimento das leis antidiscriminação, a empresas com contratos com o governo em países como a França, a Bélgica e a Espanha. Esta medida, baseada na Ordem Executiva 14151 que visa proibir a DEI, enfrentou resistência de funcionários europeus que veem a diversidade como um valor fundamental, levando a uma disputa tensa e contínua. As autoridades europeias, incluindo da França e da Bélgica, reagiram fortemente, argumentando que a igualdade e a não discriminação são valores fundamentais e legalmente consagrados na Europa.

Trump chegou mesmo a sugerir abandonar completamente os aliados europeus. Numa entrevista de dezembro de 2025 ao Politico, Trump chamou os líderes europeus de “fracos” e incapazes de lidar com a imigração. Questionou se deveriam continuar a ser aliados, dizendo que “depende” das suas políticas e que não hesitaria em intervir nas eleições europeias para apoiar os seus próprios favoritos. Isto em consonância com o apelo da NSS para “cultivar a resistência” ao centrismo europeu.

A Heritage constrói alianças de extrema-direita no estrangeiro

As posições de Trump seguem os passos da ação concertada da Heritage Foundation e de muitos dos outros apoiantes do Projeto 2025 para se aliarem a regimes europeus de extrema-direita, particularmente o da Hungria, a partidos políticos europeus de extrema-direita e às suas organizações aliadas. Nos últimos anos, a Heritage construiu estas ligações, aprendendo com os atores europeus de extrema-direita e, simultaneamente, exportando a sua agenda para o estrangeiro. A extrema-direita da Europa oferece ao grupo do Projeto 2025 e à administração Trump uma nova maneira de vencer a guerra cultural, trabalhando com parceiros europeus com ideias semelhantes para transformar a UE a partir de dentro à sua imagem iliberal.

Estas alianças são relativamente novas, muitas forjadas desde que Trump perdeu as eleições de 2020. O Projeto Global contra o Ódio e o Extremismo (GPAHE) analisou dezenas de conferências de extrema-direita realizadas nas últimas duas décadas, encontrando uma extrema-direita cada vez mais interligada. Os dados revelaram que a Heritage Foundation e os apoiantes do Projeto 2025 apareceram entre as 150 organizações mais influentes na análise do GPAHE sobre oradores e eventos de conferências. Os dados também revelaram que os partidos políticos de extrema-direita nos EUA e na Europa têm laços estreitos com o regime autocrático de Orbán e com a Heritage Foundation. Em geral, desenvolveu-se uma extensa rede internacional de extrema-direita, e as campanhas realizadas num país por grupos e influenciadores de extrema-direita rapidamente ultrapassam as fronteiras e são adotadas por outros com a mesma disposição política. É esta rede europeia de “think tanks” e partidos de extrema-direita que o Projeto 2025 cultivou e influenciou. A administração Trump apoiará agora ativamente as suas atividades através de intervenções na política interna europeia e de financiamento.

Em março passado, o plano de extrema-direita para a UE foi delineado por dois proeminentes aliados da Heritage: o Ordo Iuris Institute for Legal Culture polaco e o Mathias Corvinus Collegium húngaro, estreitamente ligados, respetivamente, ao partido de extrema-direita polaco Lei e Justiça e ao governo húngaro. Estas instituições, como a Heritage, são furiosamente anti-imigração, anti-LGBTQ+ e contra os direitos das mulheres. A Heritage esteve envolvida nas discussões para a elaboração do relatório e acolheu a sua apresentação em março de 2025 na sua sede em Washington.

O relatório, “The Great Reset”, apela a colocar a soberania nacional em primeiro lugar, a tomar todas as decisões da UE por unanimidade, permitindo assim que um governo bloqueie uma agenda, e a retirar à Comissão Europeia e ao Parlamento Europeu muitos dos seus poderes. O relatório ilustra a direção que alguns dos proeminentes atores de extrema-direita da UE esperam. Já não querem destruir a UE, mas sim transformá-la num bloco conservador e soberanista que não coloque obstáculos às suas agendas antiliberais e anti-woke em casa ou aos objetivos da administração Trump. Em suma, o objetivo é que os governos de extrema-direita tenham liberdade total para retirar os direitos das comunidades visadas, espalhar o ódio e a discriminação e abandonar outras questões, como o ambiente, sem oposição da UE. Em 2025, para além do evento de Washington, os eventos Great Reset tiveram lugar em Madrid, Bruxelas e Paris; entretanto, em Itália, o documento foi creditado por influenciar diretamente as políticas de Meloni.

Sophie Wilmès, eurodeputada e ex-primeira-ministra belga, disse ao The Parliament que a “agenda política por trás deste documento é bastante clara: é o desmantelamento da União Europeia, nem mais, nem menos”.

No seu site, a Heritage é ainda mais agressiva do que no “The Great Reset”, com um artigo intitulado “A civilização ocidental só pode ser salva se a UE for abolida”. Aplaude Elon Musk por apelar ao fim da UE e Trump por “chamar [à UE] uma ameaça aos Estados Unidos e antitética aos interesses do povo americano”. A Heritage aplaudiu os comentários de Trump de que grande parte da Europa está “em decadência”, amaldiçoada pelos seus líderes “fracos” e “politicamente corretos”. Para a Heritage, “a UE representa o despotismo, o socialismo, a migração em massa, a supressão da liberdade de expressão e a destruição da soberania nacional” e “é fundamentalmente antidemocrática, dirigida por burocratas não eleitos sedentos de poder e com praticamente zero responsabilidade”. A UE ameaça “o próprio futuro da civilização ocidental”.

A hipérbole anti-UE da Heritage foi, pelo menos em parte, motivada por investigações e multas de vários milhões de euros contra a X de Musk por não remover conteúdo neonazista e outras formas de conteúdo proibido, banido ao abrigo da Lei dos Serviços Digitais (DSA) da UE. O artigo da Heritage foi tão bombástico que apelou a que os funcionários da Comissão Europeia “fossem sancionados e impedidos de entrar nos Estados Unidos e de assistir ao Campeonato do Mundo”.

Elzbieta Korolczuk, socióloga polaca e professora associada da Universidade de Sodertorn, na Suécia, disse que não tinha dúvidas de que muitos grupos de extrema-direita europeus estavam a cooperar com pares com ideias semelhantes nos EUA para minar a UE. “Penso que o Projeto 2025 também será usado como modelo em algumas eleições europeias”, acrescentou.

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O vice-presidente JD Vance a discursar na Conferência de Segurança de Munique em fevereiro de 2025. (Fonte: Youtube)

Liberdade de expressão vs. discurso de ódio

Um ponto de discórdia particular para Trump com os europeus é a sua visão da liberdade de expressão. Muitos países europeus, especialmente a Alemanha, proíbem certas formas de discurso de ódio como ameaças às suas democracias. Esta posição, que difere significativamente da Primeira Emenda da América, surgiu das cinzas do Holocausto, onde o antissemitismo e outras formas de discurso de ódio ajudaram a levar Hitler ao poder e justificaram o genocídio. A DSA codifica estas regras para as grandes plataformas de tecnologia que operam na União.

Mas para o Projeto 2025 e Trump, estas leis são ataques inaceitáveis aos direitos dos americanos à liberdade de expressão e, claro, ao direito de publicar material de ódio online visando imigrantes e outros, o que apoia a agenda da extrema-direita. O Projeto 2025 tem secções que exigem que o governo federal deixe de se pronunciar sobre questões de discurso de ódio ou desinformação. Incumbe o Departamento de Segurança Interna (DHS) de investigar “o trabalho do departamento [sob o Presidente Biden], em coordenação com as redes sociais, para censurar ou de outra forma alterar ou afetar a expressão dos americanos” e argumenta que a esquerda transformou algumas das funções do DHS em armas para “censurar a expressão”. A Comunidade de Inteligência Americana é ainda advertida para não examinar a “chamada desinformação interna”. O Departamento de Justiça (DOJ) não deve policiar o discurso na Internet.

É neste contexto que a administração Trump atacou repetidamente as leis europeias e trabalhou para proteger os partidos de extrema-direita que muitas vezes violam as normas europeias de discurso de ódio quando se trata de dirigirem o discurso de ódio contra imigrantes e outras comunidades marginalizadas. A política tecnológica e as guerras culturais sobre a moderação de conteúdos nas plataformas de redes sociais são fundamentais para o esforço de Trump de minar a Europa.

Em maio de 2025, o vice-presidente JD Vance atacou esta questão na Conferência de Segurança de Munique. Em vez de abordar ameaças reais à segurança, a maior parte do discurso de Vance concentrou-se nas leis europeias sobre discurso de ódio, que aparentemente são uma ameaça maior para os EUA do que a Rússia ou a China. “Na Grã-Bretanha, e em toda a Europa, a liberdade de expressão, receio, está em recuo”, queixou-se Vance, concentrando-se também nos males da migração em massa.

O Departamento de Estado dos EUA está obcecado com a Lei dos Serviços Digitais (DSA) da Europa, que regula as grandes plataformas online, incluindo a Meta, a X, o YouTube e o TikTok. A DSA exige que as plataformas enviem relatórios de transparência regulares, realizem auditorias de risco e ajam rapidamente para remover conteúdos ilegais, incluindo discurso de ódio. Os defensores da lei dizem que contém salvaguardas razoáveis para a liberdade de expressão e que a moderação de conteúdos é essencial para manter uma praça pública digital na qual as pessoas se sintam suficientemente seguras para falar livremente. Os opositores, particularmente figuras de extrema-direita, acusam a DSA de permitir a censura governamental. Pronunciar-se sobre estas questões permite à administração Trump atacar a UE e, simultaneamente, permitir que a extrema-direita se envolva em discurso de ódio sem censura online.

Os comentários de Vance foram seguidos, a 28 de maio de 2025, por uma ordem ultrajante do Secretário de Estado Marco Rubio que impunha restrições de visto a “cidadãos estrangeiros responsáveis pela censura da expressão protegida nos Estados Unidos”. Prosseguia: “É inaceitável que funcionários estrangeiros emitam ou ameacem emitir mandados de detenção contra cidadãos dos EUA ou residentes nos EUA por publicações nas redes sociais em plataformas americanas enquanto estiverem fisicamente presentes em solo americano.” “É igualmente inaceitável que funcionários estrangeiros exijam que as plataformas de tecnologia americanas adotem políticas globais de moderação de conteúdos ou se envolvam em atividades de censura que vão além da sua autoridade e chegam aos Estados Unidos. Não toleraremos invasões da soberania americana, especialmente quando tais invasões minam o exercício do nosso direito fundamental à liberdade de expressão”, advertiu Rubio.

Embora o Departamento de Estado tenha ficado obcecado com questões de liberdade de expressão na Europa, não parece preocupar-se minimamente com países como a Rússia, a China e outros que interferem claramente na liberdade de expressão dos seus cidadãos, alegando que já não são a prioridade. É apenas no contexto europeu, e nos esforços da União contra o discurso de ódio e a desinformação online, que o Departamento de Estado se preocupa com esta questão.

No dia anterior ao anúncio de Rubio, o Departamento de Estado prenunciou a mudança num artigo do Substack de Sam Samson sobre “The Need for Civilizational Allies in Europe” (Necessidade de aliados civilizacionais na Europa). Nele, Samson, um licenciado de 2021 que é conselheiro sénior do departamento, escreveu: “Em toda a Europa, os governos transformaram as instituições políticas em armas contra os seus próprios cidadãos e contra a nossa herança comum.” Samson descreveu a Europa como um foco de “censura digital, migração em massa, restrições à liberdade religiosa e inúmeros outros ataques ao autogoverno democrático”. As suas alegações foram apoiadas por exemplos enganosos dessa suposta opressão.

Samson tem sido um agitador fundamental no espaço da UE para a administração Trump, defendendo as políticas do Projeto 2025 e trabalhando com as suas organizações consultivas. Em abril de 2025, Samson reuniu-se no Reino Unido com um indivíduo que era cliente da consultora do Projeto 2025, a filial internacional da Alliance Defending Freedom (ADFI). Na altura, enfrentava um julgamento criminal por assediar uma clínica de aborto. Após a reunião, a Direção-Geral de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho (DRL) do Departamento de Estado publicou no Twitter que estava “preocupada com a liberdade de expressão no Reino Unido”. A Tech Policy Press informou que os funcionários do Departamento de Estado foram encarregados de investigar casos de censura alegados pela ADFI. Em fevereiro de 2026, a Comissão Judiciária da Câmara realizou uma audiência, “A Ameaça da Europa à Liberdade de Expressão e à Inovação Americanas”, com a presença da deputada finlandesa Päivi Räsänen, cliente de longa data da ADFI, que esteve envolvida num caso de discurso de ódio de longa duração no seu país de origem. O relatório da maioria da comissão afirmou: “a Comissão Europeia pressionou com sucesso as principais plataformas de redes sociais a alterar as suas regras globais de moderação de conteúdos, prejudicando diretamente a expressão americana online nos Estados Unidos”.

Os EUA até tentaram interferir nos processos judiciais de outros países em nome dos seus aliados de extrema-direita. Magali Lafourcade, uma magistrada francesa, disse que, em maio de 2025, Samson e Christopher J. Anderson — ambos conselheiros da DRL — a abordaram numa tentativa de a levar a fazer lobby contra uma proibição de participar em eleições imposta por uma ordem judicial à política francesa de extrema-direita Marine Le Pen. Lafourcade é a secretária-geral da Comissão Consultiva Nacional de Direitos Humanos da França (CNCDH), um órgão independente que assessora o governo. Não está envolvida no caso Le Pen.

Penalizar investigadores do discurso de ódio

Pouco antes do Natal, a administração anunciou proibições de visto para indivíduos específicos: Imran Ahmed, residente permanente nos EUA, casado com uma americana e chefe do Center for Countering Digital Hate (CCDH), com sede nos EUA, o ex-comissário da UE Thierry Breton, que trabalhou na DSA e faz parte do conselho de administração do Bank of America, e três outros europeus que fizeram lobby junto de empresas de tecnologia para remover o discurso de ódio e a desinformação (um juiz suspendeu a ação contra Ahmed no dia de Natal). A administração acusou-os de trabalharem para censurar a liberdade de expressão ou de visarem injustamente os gigantes da tecnologia dos EUA com regulamentação onerosa. Rubio disse que as cinco pessoas visadas “lideraram esforços organizados para coagir as plataformas americanas a censurar, desmonetizar e suprimir os pontos de vista americanos a que se opõem”. “Estes ativistas radicais e ONG transformadas em armas promoveram medidas repressivas de censura por parte de Estados estrangeiros — em cada caso visando oradores americanos e empresas americanas”, criticou Rubio. Os investigadores anti-ódio aparentemente merecem agora as mesmas sanções que os líderes de cartéis internacionais e os terroristas.

A medida provocou um clamor dos governos europeus, que argumentam que as regulamentações e o trabalho dos grupos de monitorização tornaram a Internet mais segura, destacando informações falsas e obrigando os gigantes da tecnologia a fazer mais para combater conteúdos ilegais, incluindo discurso de ódio e material de abuso sexual de crianças. Para a administração, trabalhar para reduzir a quantidade de discurso de ódio online — que acredita ter impacto nas mensagens anti-imigrantes, anticristãs e outras de extrema-direita — é digno de ser alvo e serve para proteger os seus aliados, como Elon Musk, cuja X abandonou em grande parte a moderação de conteúdo e se tornou um foco de neonazismo e outras formas de ódio. Provavelmente não é coincidência que Musk tenha processado a CCDH em 2023, um caso que foi posteriormente arquivado.

O X de Musk enfrenta atualmente uma multa de 140 milhões de dólares “devido ao uso enganoso pela plataforma de uma marca de verificação azul para identificar utilizadores verificados, a um repositório de publicidade com mau funcionamento e à incapacidade de fornecer acesso eficaz a dados para investigadores”. A administração Trump manifestou-se fortemente a favor de Musk. “Correm rumores de que a Comissão da UE vai multar o X em centenas de milhões de dólares por não se envolver em censura”, escreveu Vance no X em dezembro. “A UE deveria apoiar a liberdade de expressão e não atacar as empresas americanas por causa de lixo.” As revelações em janeiro de que o X foi inundado com fotografias sexualizadas de mulheres e menores não parecem incomodar a administração, que continua a considerar Musk uma vítima do excesso de regulamentação da UE.

As ambições da administração Trump não são realmente proteger a liberdade de expressão da tirania. Em vez disso, estão a usar a política de tecnologia como uma ferramenta no seu projeto para remodelar a ordem internacional do pós-guerra à imagem do Projeto 2025 e de Trump — à custa da aliança transatlântica e das comunidades que são alvo de discurso de ódio.

Grupos consultivos do Projeto 2025 aumentam o lobby europeu

Os grupos que apoiam o Projeto 2025 aumentaram muito a sua presença na UE nos últimos anos, com o Heartland Institute, que nega o clima, a abrir o seu primeiro escritório europeu em 2025. Em fevereiro, durante um discurso na conferência da Alliance for Responsible Citizenship (ARC) em Londres, o presidente da Heritage Foundation, Kevin Roberts, deixou claro que a fundação apoiaria os seus “amigos da Europa” para “recuperar” as suas instituições, incluindo a UE. A Heritage Foundation realizou pelo menos sete reuniões com eurodeputados em 2025, que vieram de uma série de partidos tradicionais, mas também da extrema-direita.

Roberts, em particular, atua como enviado não oficial para um objetivo principal do segundo mandato de Trump: tecer uma rede com “aliados civilizacionais na Europa”, como o Departamento de Estado dos EUA colocou, parte do objetivo da equipa de Trump de promover a sua visão de uma “herança cultural comum”. A Heritage estabeleceu recentemente laços estreitos com o regime húngaro e os seus vários grupos de reflexão, como o Danube Institute e o Mathias Corvinus Collegium (MCC). Desde 2022, os funcionários da Heritage reuniram-se e interagiram repetidamente com o regime húngaro. No New York Times, Roberts elogiou Orbán como um “líder muito impressionante” cujos esforços para “provocar uma viragem política cristã conservadora” na Hungria “devem ser celebrados”.

De facto, pode-se argumentar que o Projeto 2025 apresenta uma visão da América baseada no Orbánismo, um país que a União Europeia vê como uma “autocracia eleitoral”, não uma democracia, que retirou os direitos das pessoas LGBTQ+, dos imigrantes e das mulheres e que tem laços profundos com a Rússia. Orbán também celebra o nacionalismo cristão, autodenominando-se “defensor do cristianismo” e defendendo que os nacionalistas cristãos nos EUA e na Europa “unam forças”.

Outros conselheiros do Projeto 2025 também aumentaram as suas atividades europeias nos últimos anos, trabalhando para exportar a sua agenda antidireitos para o continente. O Center for Immigration Studies estabeleceu ligações com o MCC. A ADF trabalhou com “think tanks” húngaros e outros de extrema-direita em toda a União. Em maio de 2025, a filial internacional da ADF, a Alliance Defending Freedom International (ADFI), organizou um evento intitulado “The Digital Services Act and Threats to Freedom of Expression” (Lei dos Serviços Digitais e ameaças à liberdade de expressão) que incluiu um painel de discussão sobre a “lei de censura online da UE”. A ADF alinhou-se publicamente com Musk contra a DSA, fazendo eco da narrativa de Musk de que as regras de moderação de conteúdos da UE constituem um ataque à “liberdade de expressão”. Também o representa nestas questões.

A ADF também recebeu apoio da administração Trump nestes esforços. Em junho, o embaixador dos EUA no Reino Unido reuniu-se com funcionários da ADF para discutir o “estado preocupante da liberdade de expressão no Reino Unido”. As reuniões em 2025 incluem uma com funcionários do governo italiano para discutir a maternidade de substituição, à qual a ADFI se opõe, e reuniões com eurodeputados sobre questões de liberdade de expressão. A ADFI tem escritórios em vários países europeus.

Em fevereiro de 2026, as agendas de Trump e do Projeto 2025 fundiram-se num evento que teve lugar no Parlamento Europeu. Realizado sob a bandeira de “Liberdade de expressão vs. discurso regulado. Fortalecer os pilares da democracia”, a conferência foi apoiada pela Heritage e pela Alliance Defending Freedom International e organizada pela Political Network for Values, uma organização antidir-eitos que opera principalmente na Europa e na América Latina. Contou com a presença de políticos da UE do grupo de extrema-direita Patriots for Europe. O seu suposto objetivo: “promover e proteger a vida, a família e as liberdades são, com demasiada frequência, consideradas posições que devem ser silenciadas, por vezes com censura disfarçada de regulamentação, outras vezes com violência”.

Ameaçar o território europeu

As ameaças de Trump vão muito além de livrar a Europa das suas políticas “woke” e minar a UE. Também ameaça invadir território europeu, com comentários repetidos sobre a tomada da Gronelândia à Dinamarca, parceira da NATO. Em dezembro, nomeou o governador do Louisiana, Jeff Landry, como enviado especial à nação insular, cujo foco seria “tornar a Gronelândia parte dos EUA”. A Gronelândia é especificamente mencionada no Projeto 2025, que também enfatiza o aumento das ações militares dos EUA na região do Ártico. O documento diz: “A próxima administração deve adotar a visão de que a NATO deve reconhecer que é, em parte, uma aliança do Ártico.” O Projeto 2025 defende um maior envolvimento militar dos EUA na região para abrir e proteger as rotas marítimas.

Não defende a tomada da Gronelândia, mas tem alguns parágrafos sobre a necessidade de reforçar os “laços económicos” entre os EUA e a ilha. Trump levou claramente esta ideia mais longe e este esforço é mais ameaçador do que qualquer outro da agenda antieuropeia de Trump, uma vez que tem o potencial de implodir a NATO. Tal como Trump, o Projeto 2025 desdenha da NATO, argumentando que os europeus devem suportar uma maior parte do fardo da defesa da NATO e devem ser os únicos responsáveis pela Ucrânia.

Trump também trabalhou para criar uma divisão entre os países da UE, tentando separar as negociações comerciais do bloco e, em vez disso, tratá-las bilateralmente. Tudo isto deixou a Europa a decidir se tem ou não um futuro com os EUA. O chanceler alemão Friedrich Merz declarou que a “Pax Americana” está morta e que se tornou “bastante óbvio” que Trump “não consegue relacionar-se” com a UE. Estes apelos à intervenção americana direta na Europa representam um afastamento histórico distinto na relação transatlântica.

Embora a relação entre a Europa e os EUA tenha sempre favorecido estes últimos, com os EUA a dominar a NATO durante muito tempo, os europeus viveram confortavelmente sob o guarda-chuva de segurança americano durante décadas. Também seguiram voluntariamente as regras de uma ordem internacional liderada pelos EUA. Isso pode agora estar a chegar ao fim. Leonard Schuette, membro do Programa de Segurança Internacional da Kennedy School da Universidade de Harvard, conclui: “A segunda administração Trump está a seguir uma visão de ordem [mundial] fundamentalmente diferente em comparação com essencialmente todos os presidentes anteriores dos EUA desde 1945.”

Isto levou os europeus a questionar se podem confiar nos EUA. De acordo com uma sondagem da empresa francesa Institut Elabe, quase três quartos dos franceses pensam agora que os Estados Unidos já não são aliados do país. Uma maioria na Grã-Bretanha e uma maioria muito grande na Dinamarca, ambos países historicamente pró-americanos, também têm agora opiniões desfavoráveis sobre os Estados Unidos.

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Protesto No Kings na 7.ª Avenida, em Manhattan, Nova Iorque, em outubro de 2025. (Fonte: Wikimedia)

Combate à agenda do Projeto 2025: lições de resistência

A exportação do Projeto 2025 e o seu aprofundamento nos EUA continuarão enquanto Trump estiver no poder e, mesmo depois de ele sair, os efeitos persistirão por muito tempo. A agenda antidirteitos no coração do Projeto 2025 já afetou milhões em todo o mundo e também foi adotada, pelo menos em parte, por tantas organizações e círculos eleitorais de extrema-direita nos EUA e em todo o mundo que levará anos a reparar os danos, se é que isso será possível. Na verdade, uma nova organização no Reino Unido, o Centre for a Better Britain, alinhada com o líder do Brexit, Nigel Farage, acaba de ser lançada como um clone do Projeto 2025.

Dado que esta agenda antidirteitos está profundamente enraizada em movimentos de extrema-direita que estão a crescer em vários países, são necessárias estratégias para combater o seu avanço. Isto é ainda mais importante porque, em termos gerais, as duas formações políticas mais poderosas hoje são os partidos políticos de extrema-direita, cujas políticas espelham em grande medida as prioridades do Projeto 2025 e promovem a autocracia eleitoral, e os partidos políticos centristas que apoiam a democracia liberal e as proteções expansivas dos direitos humanos. O antigo sistema partidário de esquerda-direita entrou em grande colapso.

Várias instituições internacionais, incluindo a União Europeia e o seu sistema judicial e as Nações Unidas, apoiam os direitos humanos e a democracia, mas estão sob ataque contínuo dos Estados Unidos e de governos mais autoritários, que não gostam que as instituições internacionais critiquem a sua governação ou a sua falta de respeito pelos direitos humanos. Os EUA saíram de dezenas de instituições internacionais, prejudicando-as significativamente do ponto de vista financeiro.

Dado este novo panorama político, o futuro da democracia inclusiva e dos direitos humanos expansivos, particularmente para os imigrantes, as mulheres e a comunidade LGBTQ+, resume-se a qual destas forças políticas exerce o poder: os autocratas ou os democratas.

As maiorias rejeitam a extrema-direita

Há esperança. O Projeto 2025 e Trump não são populares.

Em muitos países, incluindo os EUA, as maiorias não apoiam esta agenda. Sondagens repetidas mostraram que grandes maiorias de americanos não gostam do Projeto 2025. Além disso, cerca de 60% do público americano tem uma opinião desfavorável sobre a administração Trump, e esse número parece estar a crescer. Metade dos americanos inquiridos no início de março de 2026 queria abolir o ICE, rejeitando as duras ações de deportação do governo americano.

Apenas 10% dos americanos apoiam totalmente o nacionalismo cristão, o movimento político no coração do Projeto 2025 e os seus ataques aos direitos humanos de várias comunidades, e outros 20% apoiam-no apenas parcialmente. Significa, portanto, que cerca de 70% dos americanos rejeitam uma teologia cujos valores fundamentais apelam a quem tem “visões anti-imigrantes, entendimentos patriarcais dos papéis tradicionais de género, violência política e crenças QAnon”.

Sondagens recentes mostram que os europeus também não gostam realmente de Trump ou da sua agenda. Cerca de 51% a 64% dos europeus têm uma visão negativa de Trump, e muitos consideram-no um “inimigo da Europa”. Apenas cerca de 8% o veem como um amigo do continente. Uma classificação desfavorável de 84% foi registada na Alemanha em fevereiro, com classificações de aprovação igualmente baixas em França (2,5/10) e em Itália (2,5/10), enquanto os polacos são ligeiramente mais favoráveis (4,2/10). Apenas 26% dos cidadãos da UE inquiridos partilham uma visão otimista sobre o impacto de Trump na paz e segurança mundiais.

Os governos de extrema-direita foram afastados pelo voto

O descontentamento com a política de extrema-direita levou os eleitores de alguns países que sofreram uma tomada de poder pela extrema-direita a afastar partidos cuja agenda espelhava a do Projeto 2025. Isto pode até acontecer na Hungria este ano, onde a oposição está 12 pontos à frente nas sondagens desde o início de março e poderá potencialmente acabar com o governo de Orban, que dura há décadas.

Em 2022, movimentos de massas no Brasil que apoiavam o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um opositor declarado de Trump e da agenda do Projeto 2025, votaram contra Jair Bolsonaro, uma figura fundamental nos movimentos de extrema-direita não apenas no Brasil, mas também no estrangeiro. Bolsonaro, que era intolerante, antimulher e anti-LGBTQ+, incitou uma insurreição na capital do país, Brasília, que ecoou o ataque anterior ao Capitólio dos EUA em 6 de janeiro de 2021. Ao contrário dos EUA, no Brasil, isto foi levado a sério, e Bolsonaro cumpre agora uma pena de 27 anos de prisão por tentar derrubar o governo.

Da mesma forma, na Polónia, em 2023, o partido de extrema-direita que governou durante muito tempo, o Lei e Justiça (PiS), foi afastado do poder após um período prolongado de protestos em massa. O país ainda enfrenta desafios contínuos devido à manipulação do poder judicial sob o governo anterior e ao apoio contínuo à extrema-direita, particularmente nas áreas rurais. Em 2025, um funcionário do PiS foi eleito presidente, o que lhe permitiu bloquear alguma atividade legislativa sobre questões de direitos, incluindo o aborto. Na Polónia, a batalha pelos direitos humanos plenos e pela democracia continua.

Os protestos em massa são importantes

Os movimentos de massas também estão a protestar contra a agenda do Projeto 2025. Só em 2025, ocorreram mais de 10 700 protestos contra a segunda administração Trump, um aumento de 133% em relação a 2017. Estes incluíram grandes movimentos nacionais, como as manifestações “No Kings”, que atraíram até 7 milhões de participantes em 2700 cidades e vilas em outubro de 2025, de acordo com o Center for American Progress.

Na Hungria, embora o evento tivesse sido proibido e o governo estivesse a ameaçar com detenções em massa, quase 100 000 pessoas marcharam numa parada do Orgulho de 2025 em Budapeste, incluindo representantes eleitos de outros países. Protestos em massa semelhantes tiveram como alvo o partido de extrema-direita alemão, Alternative für Deutschland (AfD), particularmente depois de membros do partido se terem reunido em 2023 com um ex-neonazi austríaco para discutir a limpeza étnica de imigrantes do país. Outros países que enfrentam uma extrema-direita crescente assistiram a protestos semelhantes.

Isto é mais importante do que a maioria pensa, pois as ciências sociais mostram que, quando mais de três e meio por cento de uma população protesta, os regimes caem.

Outra resistência

Os tribunais também reagiram contra as agendas antidireitos. Isto está a acontecer agora nos EUA, até certo ponto, mas também foi uma característica da democracia brasileira sob Bolsonaro. A União Europeia também tem sido um fator na proteção dos direitos, tendo, por exemplo, usado financiamento para pressionar o antigo governo polaco a acabar com as chamadas “zonas livres de LGBTQ+”. O Tribunal Interamericano dos Direitos Humanos também proferiu decisões a favor dos direitos.

A UE também não está a recuar nas suas regulamentações sobre discurso de ódio face às queixas americanas, incluindo multas contra o X. O governo francês invadiu os escritórios do X em fevereiro, investigando a proliferação de conteúdos ilegais, nomeadamente a produção de deepfakes, material de abuso sexual de crianças e conteúdos que contestam crimes contra a humanidade.

No Quénia, os tribunais também frustraram a nova agenda, rejeitando elementos do recente acordo entre os EUA e o Quénia. Outros países africanos simplesmente recusaram-se a negociar novos acordos de ajuda que incluam condições antidir. E os movimentos de jovens saíram às ruas em resposta. Tudo isto deixa claro que a batalha pela direção da agenda contra os direitos continua a ser altamente contestada e, em muitas partes do mundo, tem apenas o apoio de uma minoria. Não podemos deixar que esse apoio cresça — ou que a voz da maioria seja silenciada. É imperativo combater estes movimentos, pois o futuro da democracia liberal e dos direitos humanos está em jogo.

Agradecimentos especiais à Horizons Foundation pelo seu compromisso em alcançar a mudança e salvar vidas e por tornar este trabalho possível.

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