Portugal: grupos de ódio e extremistas de extrema-direita

A extrema-direita contemporânea em Portugal tem raízes que vão até à reação tradicionalista à revolução liberal de 1910, que derrubou a monarquia e a substituiu pela Primeira República portuguesa. Ao contrário de muitos regimes fascistas no início do século XX, os reacionários portugueses eram principalmente retrógrados, ainda admiradores dos tempos monárquicos de antes do surgimento das ideias liberais e iluministas. A defesa desses valores tradicionais portugueses e de um estilo de vida rural foi mais tarde retomada pelo ditador do século XX, António de Oliveira Salazar, que expressou uma retórica fascista tradicional, mas que, na prática, instituiu um regime tradicionalista e antimodernista.

No início do século XX, uma geração de nacionalistas portugueses começou a ser influenciada pelos escritos do “Integralismo Lusitano”, uma escola de pensamento tradicionalista e antirrepublicana que consistia em racismo eugenista e científico, bem como em crenças antissemitas frequentemente importadas do estrangeiro. Um desses primeiros reacionários foi Amadeo Vasconcelos Mariotte, cujo texto Os Meus Cadernos, publicado em 1913, se baseava fortemente na Ação Francesa antissemita e nos escritos do francês Charles Maurras. Mariotte referia-se aos judeus como uma “raça amaldiçoada” e argumentava que a natureza “cosmopolita” dos judeus os colocava em desacordo com os interesses da nação portuguesa. Outra grande figura do Integralismo Lusitano foi António Sardinha, que apelou à purificação da “raça lusitana” da “infeção hebraica” em textos como “O Valor da Raça“. Em 1923, a obra apócrifa antissemita Os Protocolos dos Sábios de Sião foi traduzida para o português sob o título Os Planos da Autocracia Judaica: Protocolos dos Sábios de Sião. A sua publicação provocou comoção pública e “denúncias” de proeminentes indivíduos judeus em Portugal. Embora não houvesse uma grande comunidade judaica portuguesa, devido a um decreto de 1496 do rei D. Manuel I que impôs a conversão ao catolicismo ou a expulsão da população judaica do país, esta atitude de “antissemitismo preventivo” durou muito tempo no regime de Salazar. 

O império global de Portugal no início do século XX incluía Timor-Leste, a Índia Portuguesa, Macau e fortes e plantações ao longo das costas do continente africano. Durante a chamada “Corrida a África” entre 1884 e 1914, em que os europeus acorreram a colonizar o continente, também se incluiu grande parte do interior de Angola e Moçambique. Durante quase 400 anos, até ao final do século XIX, Portugal esteve entre as primeiras das nações colonizadoras a enviar pessoas escravizadas de todo o seu império marítimo. Os séculos de comércio transatlântico de escravos e a brutal opressão dos povos africanos e indígenas nas colónias portuguesas estabeleceram um sistema de superioridade racial e de trabalho forçado que durou até à queda da ditadura de Salazar em 1974.

Durante grande parte do século XX, Portugal continental e os seus territórios coloniais viveram sob o punho de ferro do ditador António de Oliveira Salazar. O seu Estado Novo (1933-1974) baseava-se numa combinação ideológica de pensamento fascista e tradicionalista católico. Esta combinação significava que o Estado Novo era uma forma muito diferente do fascismo dos seus homólogos alemão e italiano. Salazar preferia um público passivo com o controlo político nas mãos da elite tradicional, como a Igreja Católica, os militares e os grandes proprietários de terras. Enquanto os cidadãos portugueses que apoiavam os nazistas e fascistas italianos eram tolerados desde que apoiassem o regime, desafios organizados ao regime, como o grupo falangista de Rolão Preto, o Movimento Nacional-Sindicalista e os seus “camisas-azuis” eram reprimidos. Apesar de permanecer neutro durante a Segunda Guerra Mundial, o Estado Novo colaborou com os nazis durante a guerra, exportando bens e materiais para as potências do Eixo. Embora tivessem as suas diferenças, Salazar era admirador de Mussolini e de Hitler, e organizou três dias de luto nacional após a morte deste último.

De 1945 a 1969, a Polícia Internacional e de Defesa do Estado, mais vulgarmente referida como PIDE, operou como polícia secreta do Estado, e tinha o poder de reprimir toda e qualquer resistência ao regime de Salazar. Qualquer pessoa suspeita de ser comunista ou de esquerda era sequestrada, torturada ou morta pela PIDE. A frase portuguesa “as paredes têm ouvidos” vem dessa época, porque os portugueses não podiam falar livremente em nenhum lugar do país, por medo de serem mortos ou torturados. Todas as publicações eram fortemente censuradas para refletir os princípios ideológicos do regime de Salazar.

Os direitos das minorias sob o Estado Novo eram extremamente limitados. A conceção “naturalista” de sociedade de Salazar levou-o a acreditar que as mulheres só serviam para manter a “vida familiar”. Na Constituição de 1933, os “cidadãos” eram considerados iguais “exceto apenas quanto à distinção devida às mulheres em razão da sua natureza e no interesse da família”. Os imigrantes eram vistos por Salazar como grupos que diminuiriam o “espírito nacional” e eram rejeitados. O Estado português recusou-se a ajudar quaisquer refugiados judeus em fuga do Holocausto durante a guerra, e o Estado desmantelou redes clandestinas que criavam passaportes falsificados para eles. A vida nas colónias portuguesas também era incrivelmente violenta e repressiva; quando as rebeliões eclodiram na era do pós-guerra, o Estado português respondeu mobilizando dezenas de milhares de portugueses do continente e reprimiu violentamente tanto os que nas forças armadas rebeldes lutavam pela independência como os civis. Mesmo assim, no continente, Salazar promovia o “lusotropicalismo”, uma falsa crença que argumentava que o império português era uma alternativa “mais moderada” e multicultural às outras potências europeias. Isto, claro, ignorava a história de atrocidades, do trabalho forçado e da hierarquia racial que ocorriam no domínio colonial português, que era ignorado internamente em favor de uma glorificação dos exploradores marítimos do país e das suas “descobertas”.

A organização económica do Estado Novo era corporativista, com um punhado de indivíduos a deter grande parte da propriedade de forma monopolista. Embora tenha havido crescimento económico em Portugal durante este tempo, a desigualdade económica significou que a maioria desses ganhos foi para as elites políticas próximas de Salazar. Até à revolução de 1974, Portugal tinha o mais alto nível de analfabetismo, mortalidade infantil e os mais baixos padrões de vida da Europa Ocidental. Relatórios de 1962 afirmam que a população era “subnutrida, subeducada, subempregada e mal paga”. A emigração era uma maneira comum de evitar a perseguição política e de encontrar melhores oportunidades no estrangeiro. “Política estável, em vez de crescimento” era a prioridade de Salazar.

Apesar do sofrimento da população, Salazar era extremamente hesitante em reformar o Estado, que via como o caminho para a subversão. “Firmeza, firmeza!”, afirmou aos seus apoiantes em Lisboa, em 1959, quando confrontado com crescentes protestos contra o regime em Portugal e no estrangeiro, “Isso é tudo o que é necessário para que a tempestade diminua e para que a justiça nos seja feita”. Além disso, acreditava-se amplamente que, mesmo que houvesse problemas em Portugal, o ditador espanhol Francisco Franco enviaria tropas para ajudar a reprimir qualquer atividade revolucionária. No entanto, isso nunca se concretizou, e o Estado Novo viria a ser deposto durante o Movimento dos Capitães, a 25 de abril de 1974, fomentado por membros descontentes das forças armadas e veteranos das guerras coloniais, durante a Revolução dos Cravos.

A queda da ditadura de Salazar trouxe uma nova era para a extrema-direita portuguesa. Imediatamente após a revolução de 25 de abril, vários grupos de extrema-direita organizaram-se separadamente uns dos outros com o objetivo principal de defender o império português e opor-se às fações comunistas da Revolução dos Cravos. Esses grupos incluíam o partido revolucionário nacional Movimento Federalista Português – Partido do Progresso, os salazaristas católicos com o Movimento Popular Português, o Partido Trabalhista Democrático Português (PTDP), o fascista Movimento de Ação Portuguesa (MAP), formado por ex-membros da PIDE e da Legião Portuguesa, o Partido da Democracia Cristã (PDC) e o Partido Nacionalista Português (PNP), formado por elementos do antigo Estado Novo e da Legião Portuguesa. Estas fações iniciais e fragmentadas da extrema-direita pós-revolução foram rapidamente tornadas ilegais e reprimidas pelos militares, depois de apoiarem a tentativa de golpe contrarrevolucionário de António de Spínola a 28 de setembro de 1974.

Com o apoio aos partidos de extrema-direita a cair após a repressão destes grupos contrarrevolucionários iniciais, alguns voltaram-se para o terrorismo. O “Verão Quente de 1975” foi um período imediatamente a seguir à sua repressão, em que os três principais grupos de extrema-direita, o Exército Libertação de Portugal (ELP), o Plano Maria da Fonte e o Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP) organizaram ataques terroristas contra partidários da revolução, principalmente comunistas.

Durante o resto do século XX, a direita radical foi uma força marginal na política portuguesa. Nas eleições de 1980, uma breve coligação entre o Partido da Democracia Cristã (PDC), o Movimento Independente para a Reconstrução Nacional (MIRN) liderado pelo general Kaúlza de Arriaga, lusotropicalista e leal a Salazar, e a Frente Nacional, formada pelo revolucionário nacionalista e pró-Salazar Manuel Maria Múrias, tentou reavivar a política de extrema-direita sob a nova república, mas falhou miseravelmente, obtendo apenas 0,4% dos votos. Outro projeto sem sucesso foi o nostálgico partido lusotropicalista e salazarista Força Nacional – Nova Monarquia, que procurou ser uma organização abrangente para nacionalistas de direita de todos os tipos (semelhante ao partido político da Frente Nacional em França). 

Nas décadas de 1980 e 1990, a extrema-direita portuguesa passou por uma transformação que viu substituir grande parte das suas influências salazaristas pelo etnonacionalismo e reorientar-se em torno de muitas das mesmas questões que a extrema-direita europeia mais ampla. A descolonização, e o aumento da imigração das ex-colónias, levaram a uma transformação da extrema-direita, que passou de ser caracterizada pelo lusotropicalismo para se tornar de natureza xenófoba e nativista. Isto foi especialmente pronunciado entre os “retornados” (os que tinham regressado) da África de expressão portuguesa e o português branco nativo incomodado com o crescente multiculturalismo nas cidades. Muitos jovens militantes desta geração acabaram por aderir a novos grupos de extrema-direita, como o grupo etnonacionalista português Movimento de Ação Nacional (MAN), e a subculturas racistas importadas dos EUA e do Reino Unido, como os skinheads racistas e o movimento supremacista branco.

Desde o início do século XXI, o Partido Nacional Renovador (PNR) tem sido o principal partido de extrema-direita. Este partido equilibrou as fações dos antigos salazaristas e a nova direita etnocêntrica para formar a fação ultranacionalista e antidemocrática em Portugal antes da chegada do Chega em 2019. À superfície, o líder do PNR, José Pinto-Coelho, usava a retórica populista numa tentativa de integrar as suas crenças racistas no discurso aceitável, mas a falta de um líder carismático no partido significava que não conseguia traduzir a sua retórica polarizadora em votos. Além disso, a ligação do partido ao infame neonazi Mário Machado e aos Hammerskins portugueses através da curta vida da Frente Nacional (2004-2008) manchou a imagem do partido de uma forma de que nunca recuperou.

Em Portugal há hoje uma clara tendência de internacionalização entre elementos de extrema-direita. Onde antes o nacional-socialismo, a fidelidade ao regime salazarista ou as visões lusotropicalistas do império português dominavam grande parte da extrema-direita pós-25 de abril, hoje, a extrema-direita portuguesa bebe cada vez mais dos movimentos neofascistas franceses (Movimento Social Nacionalista), neofascistas italianos (Escudo Identitário/Força Nova), identitários franceses (Portugueses Primeiro/Escudo Identitário) e até supremacistas brancos americanos (Proud Boys Portugal). Embora não seja tão influente como nos seus homólogos franceses, a teoria da conspiração supremacista branca da “Grande Substituição”, que alega uma conspiração de “elites” ou “globalistas” para “substituir” a população portuguesa nativa por uma estrangeira, também se apoderou de partes da extrema-direita portuguesa.

A extrema-direita portuguesa é cada vez mais dominada pelo partido de extrema-direita Chega, liderado pelo carismático líder populista André Ventura. Desde que elegeu o primeiro deputado em 2019, o partido tem trabalhado para envenenar o discurso nacional com uma retórica racista, anti-LGBTQ+, anti-imigração e anticigana. O Chega, que superficialmente se assemelha aos típicos partidos populistas de extrema-direita de toda a Europa, também é o vetor comum para movimentos mais extremos da extrema-direita portuguesa, incluindo nacionalistas, identitários, conspiracionistas, supremacistas brancos, nostálgicos de Salazar, nacionalistas cristãos e outros que apoiam o autoritarismo. O apoio de Chega entre a população portuguesa disparou desde 2019 e sondagens recentes colocam-no num terceiro lugar não muito distante (cerca de 13% dos votos em junho de 2023). Durante a maior parte da era pós-revolucionária, Portugal foi visto por muitos observadores como um caso excecional de um país sem um grande partido populista de extrema-direita, mas a rápida ascensão do Chega é um aviso de que nenhum país é verdadeiramente imune a forças demagógicas excludentes e que minúsculos partidos de extrema-direita podem expandir rapidamente a sua base de apoio.

Como em muitos outros países, a recente pandemia levou ao florescimento de movimentos conspiracionistas e antigovernamentais de extrema-direita, que surgiram em oposição à imposição de medidas de saúde pública pelo Estado. Agora que a pandemia diminuiu em grande parte, muitos desses grupos mudaram-se para a órbita de outros grupos de extrema-direita, como o Chega e o Partido Nacional de Renovação, recentemente renomeado Ergue-Te. 

Em 2021, o Comissário do Conselho da Europa para os Direitos Humanos divulgou um memorando a indicar que “o racismo na polícia continua a ser uma questão de profunda preocupação” em Portugal. O memorando também apontou para o nível “alarmantemente alto” de violência em Portugal contra as mulheres, principalmente sob a forma de violência doméstica e agressão sexual, bem como um aumento de “crimes de ódio motivados racialmente e discurso de ódio” contra pessoas de ascendência africana. Concluía que “Mais esforços também são necessários para combater o preconceito racista contra pessoas de ascendência africana herdado do passado colonial e do histórico comércio histórico de escravos.” Também houve assédio considerável à organização antirracista portuguesa SOS Racismo e ao seu líder Mamadou Ba pela extrema-direita nos últimos anos, incluindo por skinheads racistas. As estatísticas também mostram que, apesar de constituírem uma fração de um por cento da população portuguesa, o sentimento anticigano continua a prevalecer em Portugal, e faz o seu caminho até à retórica de grupos de extrema-direita, incluindo o Chega.

O que se segue não é de forma alguma uma lista abrangente de todos os grupos extremistas de extrema-direita em Portugal, especialmente no que diz respeito a grupos recém-formados sem uma grande presença na política portuguesa, e aqueles que passaram à clandestinidade para evitar ações do Estado. Grupos que existem exclusivamente online são excluídos do âmbito deste relatório. Um asterisco indica uma sede principal de uma organização.

Os grupos

Active Club Portugal

Localização: sem sede

Ideologia: neonazi

O Active Club Portugal é a filial portuguesa da rede neonazi Active Club que está presente em vários países. A rede começou por volta de 2021, em grande parte inspirada pelo americano Robert Rundo, fundador do movimento neonazi Rise Above Movement, com base na Califórnia. Rundo introduziu pela primeira vez a ideia dos “Active Clubs” no final de 2020 e, no ano seguinte, ele e Denis Kapustin (também conhecido como Denis Nikitin), um neonazi russo e fundador da marca de roupa nacionalista branca “White Rex”, começaram a co-apresentar um podcast intitulado “Active Club Podcast”. O objetivo era inspirar outros supremacistas brancos a criar os seus próprios clubes locais e desenvolver o “espírito do guerreiro” através do treino em artes marciais mistas (MMA) e da “preservação da herança europeia”. Os membros do Active Club veem-se como em preparação para uma guerra em curso contra os governos que existem para destruir a raça branca. Os clubes participam em treinos de MMA e também espalham propaganda da supremacia branca. Reúnem frequentemente clubes de vários países para participar em lutas de MMA. O grupo português é pequeno, composto por algo entre 4 e 10 membros, mas tem ligações com a rede maior do Active Club. Até ao início de 2023, o grupo tinha uma conta ativa no Instagram que foi removida. As suas atividades estão documentadas nos canais internacionais de Telegram do Active Club e há imagens deles com simpatizantes do Escudo Identitário, significando um possível caminho para o recrutamento e apoio do clube português. 

 

Alternativa Democrática Nacional (ADN)

Localização:  Lisboa

Ideologia: anti-imigração, anti-LGBTQ+, conspiração

O Alternativa Democrática Nacional (ADN) é um partido de extrema-direita e anti-establishment legalizado em 2021. Surgiu do Partido Democrático Republicano (PDR) no contexto da pandemia e foi formado por vários ex-membros do Chega após uma divisão entre a ala “mainstream” desse partido e a ala mais conspiracionista. Miguel Dams de Carvalho e Jorge Rodrigues de Jesus aderiram ao ADN depois de terem sido expulsos da Chega. Patrícia Sousa Uva, fundadora da Chega, e a ex-militante do Chega Lucinda Ribeiro também aderiram ao ADN em 2022. Anabela Seabra, ex-presidente de câmara e conspiracionista de vacinas, e José Manuel Castro, advogado do mais proeminente neonazi português, Mário Machado, também fizeram campanha pelo ADN. Ideologicamente, o partido insiste principalmente em narrativas de conspiração, alegando que há algo em andamento com “elites conspiradoras” no governo, que consideram uma ditadura, e o “lobby LGBT”. A maior parte do seu impulso veio da oposição às medidas de saúde durante a pandemia da COVID. Eis como descrevem as preocupações do seu partido: “Estamos a lutar em  todas as frentes, a corrupção, a inflação programada dos globalistas, a destruição da educação, a pedofilia, a destruição da família, a destruição da nossa herança e da nossa história. Se se revê nestas lutas que estão a dizimar a sociedade como sempre a conhecemos, junte-se a nós nas redes sociais.” A oposição do partido às medidas de saúde postas em prática durante a pandemia foi impulsionada pelo medo de uma “ditadura” do Estado. Durante vários meses, o proeminente teórico da conspiração Rui da Fonseca e Castro, agora com o Habeas Corpus, ocupou o cargo de secretário-geral da organização, mas desfiliou-se por causa da atenção insuficiente do partido para outra teoria da conspiração que ele favorece, “a questão do lobby da Maçonaria.” O ADN vê-se em oposição ao “lobby LGBT.” Também é fortemente contra os direitos da comunidade transgénero. O presidente do ADN, Bruno Fialho, compara o “lobby LGBT” aos “lobbies” neonazis, maçons e da Opus Dei, dizendo: “Nesse sentido, esclareço que no ADN somos contra todos os lobbies que possam influenciar negativamente a vida dos portugueses, sejam eles LGBT, neonazis, maçons, Opus Dei ou outros, mas rejeitamos a discriminação contra os cidadãos sob qualquer pretexto, sem base legal ou ética.” Devido ao extremismo da organização, os membros do Partido Democrata Europeu pediram que o ADN fosse expulso da sua fação no Parlamento Europeu. Numa uma conferência do partido em 2023, Rui Castro, o ex-secretário-geral do ADN, expressou sentimentos relacionados com a teoria da conspiração da “Grande Substituição”. Disse que “está a ser implementado um plano que é o repovoamento de Portugal por pessoas de diferentes partes do mundo. Uma das consequências desse repovoamento por estrangeiros é o aumento da criminalidade. O repovoamento do território nacional só pode ser feito com mais portugueses, sem substituir a nossa população em Portugal.” 

Correção: Uma versão anterior deste relatório afirmava erroneamente que Rui Da Fonseca E Castro ocupava o cargo de secretário-geral “há vários anos” entretanto. Rui Da Fonseca E Castro foi secretário-geral de 11 de fevereiro a 4 de abril de 2023.

 Associação Portugueses Primeiro

Localização: sem sede

Ideologia: nacionalista branca, anti-imigração, anti-LGBTQ+, antimulher 

A Associação Portugueses Primeiro (P1º) é uma organização política identitária e a ala cultural do Partido Nacional Renovador (PNR, Ergue-te!). O identitarismo é uma ideologia nacionalista branca que argumenta contra imigrantes não brancos em países europeus e muitas vezes alega que a conspiração da “Grande Substituição” da supremacia branca está a ocorrer, em que os “globalistas” (por vezes entendidos como sendo judeus) são culpados por importar pessoas de cor para o que definem como países tradicionalmente brancos. O P1 foi formado após a manifestação de setembro de 2015 na Assembleia da República contra o acolhimento de refugiados por membros do grupo do Facebook “Imigrantes Não Obrigado”, e tornou-se por algum tempo o único grupo Identitário no país após a dissolução da Causa Identitária em 2010. Cláudia Ferreira Gomes e Rui Amiguinho registaram inicialmente a organização sob o nome de Apostar na Identidade – Associação de Iniciativa Cívica, mudando depois o nome para um antigo slogan do PNR, “Portugueses Primeiro”. Outro membro fundador foi Nelson Dias da Silva, que se tornou o primeiro porta-voz do grupo, antes de sair para assumir o mesmo cargo no Chega. Muitos dos membros do grupo vêm de outros grupos extremistas, incluindo membros do grupo skinhead racista Portugal Hammerskins. A ala juvenil do P1 é o Jovens Portugueses Primeiro, embora não seja claro se este grupo ainda está ativo em meados de 2023. O grupo organiza frequentemente manifestações de rua e outras formas de protesto, como a sua marcha “Lisboa não seja francesa” (um trocadilho com a famosa canção de Amália Rodrigues com o mesmo nome, que apelava a Lisboa para permanecer autenticamente portuguesa) em 2018, e tem vindo a reunir-se com o SEF (serviço de imigração e controlo de fronteiras), a fim de pressioná-lo a ser mais restritivo em matéria de imigração e cidadania. O P1 é fortemente antimuçulmano. Em 2018, militantes do P1, entre eles João Martins e João Saraiva, despejaram sangue de porco num local onde uma mesquita estava a ser construída na zona da Mouraria, em Lisboa. Embora não a mencionem pelo nome, propagandeiam as ideias da teoria da conspiração da “Grande Substituição”. O site deles afirma: “Hoje, o povo português, juntamente com os seus irmãos europeus, enfrenta a maior ameaça da sua história: a invasão e colonização do continente por povos de todos os cantos do mundo, um produto da globalização que, por sua vez, é a expressão doutrinária do capitalismo financeiro sem Estado. Nesta realidade, a Europa é confrontada com o imperialismo subcultural dos Estados Unidos, bem como com a população e o expansionismo religioso do Islão totalitário.” O P1 também é fortemente anti-imigração, referindo-se à atual lei de nacionalidade portuguesa como um “cavalo de Troia no meio da Europa”. O grupo apoia uma política de imigração que proíba o reagrupamento familiar na sua totalidade e baseia-se no “Jus Sanguinis”, ou seja, ninguém nascido fora de Portugal, e apenas aqueles cujos pais nasceram em Portugal, pode ter a cidadania, removendo assim a capacidade dos estrangeiros de ganharem a cidadania portuguesa através da naturalização. Além disso, propõe uma “eliminação das ‘lojas étnicas’” que alegam que “se aglomeram nas grandes cidades, destroem empresas locais, praticam a evasão fiscal e funcionam como centros de apoio à imigração ilegal e à lavagem de dinheiro.” Durante uma convenção do Chega em setembro de 2020, o membro da Associação Portugueses Primeiro, Rui Roque, propôs uma moção para remover os ovários das mulheres que fazem abortos. O P1 também é contra aquilo que a chama “ideologia de género”, que é essencialmente uma palavra de código para os direitos LGBTQ+ de vários tipos. Em abril de 2018, os membros do P1 participaram numa conferência com o grupo identitário português Escudo Identitário e o grupo neofascista italiano CasaPound. 

 

Blood and Honour (B&H) Portugal

Localização:  Lisboa

Ideologia: neonazi

Blood and Honour (B&H) Portugal é o capítulo oficial do B&H do país, parte do movimento neonazi descentralizado originário do Reino Unido. O capítulo português foi criado em 1998 por membros do grupo Ordem Lusa com o patrocínio de neonazis de Espanha. Miguel Temporão, que tinha sido condenado a dois anos de prisão por agressão física agravada durante o ataque à sede do Partido Socialista Revolucionário em 1989, fundou o B&H Portugal em 1998. O B&H Portugal segue os princípios do Nacional-Socialismo e é nostálgico do Terceiro Reich de Hitler. No seu primeiro fanzine, em outubro de 2004, o grupo elogiava Rudolf Hess, o vice-fuhrer da Alemanha nazi de 1933 a 1941. O grupo concentra-se principalmente no recrutamento de membros e na organização de concertos de poder branco no Porto. O B&H Portugal tem sido historicamente um rival intenso da Nação Hammerskin em Portugal, fundada pelo proeminente neonazi Mário Machado, devido à sua concorrência dentro do movimento skinhead, desentendimentos sobre o apoio ao Partido Nacional Renovador (PNR) e às tentativas de Machado de cooptar e eliminar outras fações de extrema-direita. O relatório Terrorism Situation and Trend de 2021 da Europol citou o Escudo Identitário e os seus parceiros neonazis Blood & Honour como grupos de interesse devido aos seus protestos contra as medidas de saúde do governo durante a pandemia. 

 Chega! .

Localização:  Lisboa

Ideologia: anti-imigração, antimulher, anti-LGBTQ+, anticiganos, conspiração

Fundado em 2019, o Chega! é o principal partido político de extrema-direita em Portugal e, até à data, o terceiro partido mais representado no parlamento nacional. Desde a queda do Estado Novo do ex-ditador António de Oliveira Salazar em 1974, não houve presença significativa na legislatura nacional de um partido de extrema-direita até ao aparecimento do Chega. A sua ascensão foi acompanhada por um aumento significativo no discurso de ódio e mobilização de rua da extrema-direita. O partido é liderado pelo chefe carismático e populista André Ventura. O partido é altamente centralizado em torno de Ventura e o Tribunal Constitucional rejeitou mesmo os estatutos de Chega várias vezes, por concentrar excessivamente o poder nas mãos do presidente do partido. O Chega é um partido extremamente anti-imigração e antimuçulmano. Ventura acredita que “o crescimento da imigração ilegal… destrói a Europa.” Após o ataque terrorista islâmico extremista em Nice, em julho de 2016, Ventura pediu “a redução drástica da presença islâmica na União Europeia”. Ventura já fez discursos sobre uma “substituição demográfica” supostamente a acontecer na Europa, e referiu especificamente a teoria da conspiração da “Grande Substituição” da supremacia branca durante um congresso do grupo Identidade e Democracia (ID) que teve lugar em Lisboa em novembro de 2023. Há também um ódio especial ao povo cigano em Portugal por parte de Ventura e de outros membros do partido. O partido alega que os ciganos são “um sério problema de segurança pública”, “vivem quase exclusivamente de subsídios estatais” e estão “acima da lei”. Em 2022, Ventura acusou os ciganos de serem “criminosos” e de “abusarem de benefícios sociais.” No contexto da primeira onda da pandemia, Ventura defendeu um “plano de confinamento específico para a comunidade cigana”, apesar das claras preocupações constitucionais e de direitos humanos. Em 2017, Ventura culpou falsamente uma família cigana por ataques no Hospital de Beja e foi forçado a pagar uma multa de cerca de 3000 euros. O tribunal decidiu que Ventura “tinha o propósito de ofender para humilhar as pessoas de etnia cigana, aumentando a estigmatização e o preconceito contra a comunidade.” A Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) multou Ventura várias vezes por comentários discriminatórios sobre a população cigana. Durante uma convenção do Chega em setembro de 2020, Rui Roque, ex-PNR, e paralelamente membro da Associação Portugueses Primeiro, propôs uma moção para retirar os ovários de mulheres que fizeram abortos, que falhou por 38-216 votos. Na sequência do frenesim mediático após esta votação, Rui Roque foi “suspenso por tempo indeterminado” em março de 2021, mas manteve-se como membro ativo e ajudou na criação de outras três moções para o partido. Após a chamada suspensão no final de 2021, Rui Roque subiu na hierarquia do partido e foi autorizado a concorrer como candidato da Lista A a delegado de Faro onde foi eleito, sendo escolhido para Conselheiro Nacional do IV e V congressos do partido.

Propuseram sentenças de prisão de dois a cinco anos para pessoas que filmem a polícia, especialmente durante casos relacionados com “grupos minoritários étnicos ou raciais.” O Chega fala frequentemente de uma conspiração para proibir o partido, o que é uma possibilidade, pois tem havido pedidos para que o partido seja banido por ser uma organização racista que incorpora a ideologia fascista. Os partidários do Chega já usaram faixas com “All Lives Matter”, um jogo de palavras racista com “Black Lives Matter”, e chamaram à questão do racismo “uma distração”, e usaram símbolos de mãos semelhantes à saudação nazi. Ao longo dos anos, o Chega teve entre as suas fileiras muitos supremacistas brancos, identitários e neonazis. Durante a pandemia, membros e apoiantes do Chega espalharam desinformação do grupo antivacinas e negacionista da COVID Médicos pela Verdade. O partido defende também outras teorias da conspiração. Os membros da Chega republicaram uma carta de uma queixa que os crentes portugueses do QAnon enviaram à Procuradoria-Geral da República sobre ficheiros de computador que a polícia apreendeu ao hacker Rui Pinto, alegando que continham informações sobre círculos de pedofilia entre a elite política em Espanha e Portugal. O partido Chega acredita que existe uma conspiração “cultural marxista”, uma ideia avançada pelos supremacistas brancos americanos, para mudar a sociedade e destruir a civilização europeia, impondo uma cultura pró-LGBTQ+ na sociedade portuguesa. Também se proclamam contra a chamada “ideologia de género”, um eufemismo para os direitos LGBTQ+. Mostrando o seu desrespeito por muitos portugueses, em várias ocasiões, Ventura afirmou que não seria presidente de todos os cidadãos portugueses, mas apenas dos “bons portugueses”, uma referência àqueles que não vivem de subsídios do Estado. O boletim oficial do Chega é a Folha Nacional.

Chega Juventude

Localização: Lisboa,* Coimbra, Porto

Ideologia: nacionalista branca, anti-imigração, antimulher, anti-LGBTQ+

O Chega Juventude é o ramo oficial da juventude do partido de extrema-direita Chega! Rita Matias, uma deputada do Chega da fação Identitária do partido, lidera o Chega Juventude. Embora muitas das crenças do ramo de juventude não difiram muito do partido principal, tem membros mais radicais. Alguns apoiaram a supremacia branca, a misoginia, elogiaram o regime salazarista e defenderam o fascismo. Francisco Araújo, líder do capítulo do Porto, é um exemplo disso. No Twitter, Araújo publicou num tweet uma imagem de um soldado português a ser controlado por um soldado soviético e um banqueiro que apunhala outro soldado pelas costas. Uma representação racista de uma pessoa de ascendência africana dispara contra o soldado. Uma representação racista de uma pessoa de ascendência africana dispara contra o soldado. A descrição diz “25 de abril – Traição”, referindo-se a quando o regime de Salazar terminou. Araújo escreveu em resposta ao seu retweet: “Já se passaram 48 anos desde que: 1) A Maçonaria recuperou a carta branca 2) Estamos sob a ocupação de interesses globalistas estrangeiros 3) Fomos traídos por soldados com interesses financeiros 4) Escolhemos o suicídio demográfico e a subjugação económica”, sendo esta última uma referência não muito subtil à teoria da conspiração da “Grande Substituição” da supremacia branca. Araújo não é simplesmente um membro de base, mas parte importante da liderança da Juventude Chega, participando regularmente em eventos em todo o país e falando em conferências oficiais do Chega. Em janeiro de 2023, fez um discurso à liderança nacional no 5.º Congresso do partido em Santarém, que contou com membros da alta liderança dos partidos de extrema-direita europeus, incluindo o eslovaco Boris Kollar (SME Rodina), o belga Tom van Grieken (Vlaams Belang), o holandês Geert Wilders (Partido pela Liberdade) e o francês Jordan Bardella (Rassemblement National, RN). Outros membros têm uma clara simpatia pelo fascismo e sistemas de crenças antidemocráticos. João Antunes, do ramo de Coimbra, tirou fotografias frente a murais onde se lê “És um fascista e nem sabias disso.” No seu fundo do Twitter, colocou-se através de Photoshop numa imagem ao lado do supremacista branco americano e negacionista do Holocausto Nick Fuentes. E aprendeu com os seus amigos americanos, tendo feito tweets sobre “o estado absoluto dos cuck-servatives norte-americanos”, sendo este último um termo originário dos EUA e usado contra os conservadores que baniram Nick Fuentes da CPAC 2023. Muitos membros do Chega Juventude simpatizam com o regime do ex-ditador Salazar. No aniversário de Salazar, vários membros publicaram tweets que recordavam o falecido ditador de um ponto de vista positivo. Os membros do Chega Juventude também servem como ligações a outros partidos políticos de extrema-direita. Por exemplo, João Antunes, do ramo de Coimbra do Chega Juventude, foi fotografado com José Pinto Coelho, presidente do partido de extrema-direita Ergue-Te.

Correção: uma versão anterior deste relatório afirmou erroneamente que o Twitter removeu o tweet em questão. O Twitter ocultou o tweet depois que nosso pesquisador o denunciou, mas não o removeu do site. O Twitter enviou um e-mail informando que o tweet não violava os termos de serviço do Twitter.

 Habeas Corpus

Localização: sem sede

Ideologia: conspiração

O Habeas Corpus (HC) é uma organização e movimento conspiracionista fundado pelo carismático ex-juiz e ex-secretário-geral do partido Alternativa Democrática Nacional, Rui Pedro Fonseca Nogueira da Fonseca e Castro. Foi lançado em 2020 durante a pandemia e subsequente distribuição das vacinas. Rui Pedro Fonseca Nogueira da Fonseca e Castro é conhecido pelas suas absurdas teorias conspiratórias sobre o crescente autoritarismo que acompanhou a distribuição das vacinas COVID, e é obcecado com teorias da conspiração que envolvem maçons que “controlam o governo.” Rui da Fonseca e Castro defendeu a “identificação dos seus membros” e o “confisco dos seus bens.” O Habeas Corpus começou como um desdobramento do grupo espanhol “Médicos por la Verdad”, um grupo de conspiração COVID, que levou aos “Juristas pela Verdade” de Rui da Fonseca e Castro, que mais tarde foi substituído pelo grupo organizado no Facebook “Habeas Corpus.” Embora o grupo não tenha uma localização primária identificável e grande parte da sua organização aconteça online, os apoiantes do Habeas Corpus reúnem-se regularmente para protestos e outras atividades que são documentadas no seu canal do Telegram e em vídeos do YouTube. As medidas de saúde postas em prática durante a pandemia são vistas como evidência da natureza diabólica do regime “totalitário“. Em agosto de 2021, Rui da Fonseca e Castro apresentou queixa criminal por “crimes contra a humanidade” contra o Presidente da República, o Primeiro-ministro e o Governo pelas restrições de saúde. Culpou a sua falta de sucesso com a queixa a um aparelho judicial “capturado por um regime de ocupação e integrado por uma elite parasitária controlada pela Maçonaria.” Também argumenta que esses grupos de elite “controlam” os média, afirmando: “Quem tem livre acesso aos meios de propaganda do regime? A maçonaria.” Os apoiantes do Habeas Corpus também acreditam nas teorias conspiratórias de redes de pedofilia entre a elite portuguesa inspiradas pelo Pizzagate e QAnon. Rui da Fonseca e Castro chamou ao Presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, “pedófilo”, o que levou Ferro Rodrigues a ser atacado verbalmente por manifestantes enquanto almoçava em Lisboa. Isto resultou em que Rui da Fonseca e Castro fosse processado criminalmente por difamação. Em 2021, os protestos ocorreram durante uma audiência administrativa de Rui da Fonseca e Castro e tornaram-se violentos entre manifestantes e policiais. Lá dentro, durante a audiência, Rui da Fonseca e Castro perorou sobre as motivações malévolas do governo para impor restrições sanitárias, as características “magnéticas” da vacina e a “corrupção” das empresas farmacêuticas que criaram as vacinas, Pfizer, Moderna e Johnson. O caso resultou em que Rui da Fonseca e Castro deixasse de poder exercer a atividade de jurista. Os membros também acreditam na teoria da conspiração do Great Reset, que alega que uma elite global está a usar a pandemia para desmantelar o capitalismo e impor mudanças sociais radicais. 

 Ergue-Te/Partido Nacional Renovador (PNR)

Localização:  Lisboa

Ideologia: nacionalista branca, anti-imigração, antimuçulmana, antigoverno, conspiração

O Partido Nacional Renovador (PNR) é o partido de extrema-direita mais duradouro da história da Segunda República Portuguesa. Embora nunca tenha atingido mais de um por cento em termos de votos em qualquer eleição nacional, existe há quase duas décadas. O PNR foi formado a partir das cinzas do Partido Renovador Democrático, de centro-esquerda, depois de ter sido infiltrado e tomado por fações de extrema-direita da Aliança Nacional. Procurando tornar-se um partido político oficial que pudesse unificar a fragmentada extrema-direita portuguesa na década de 1990, António da Cruz Rodrigues, José Pinto-Coelho e Luís Paulo Henriques criaram a Aliança Nacional, mas não conseguiram registrar oficialmente o partido devido à incapacidade de reunir assinaturas suficientes. A fim de contornar as regras sobre a certificação do partido, o grupo adotou uma nova estratégia e infiltrou-se no Partido da Renovação Democrática em 1999, e pressionou o então líder do partido, Manuel Vargas Loureiro, a entregar a liderança do partido, o que ocorreu na convenção nacional de 1999. Quando Cruz Rodrigues se tornou o presidente seguinte, as novas mudanças foram apresentadas ao Tribunal Constitucional, e o nome foi mudado para Partido Nacional Renovador. O PNR procura “renovar a mensagem e a imagem do nacionalismo” em Portugal e defender a nação dos “grandes males”, ou seja, do globalismo e do multiculturalismo. Veem uma ameaça em “políticas de imigração suicidas” e “imigração invasiva” que põem em perigo a identidade e a cultura da nação portuguesa. O partido vê o aumento da imigração como uma “autêntica substituição da população”, ecoando assim a teoria da conspiração da “Grande Substituição” da supremacia branca. Na sua plataforma lê-se: “A imigração em massa constitui uma verdadeira invasão e traduz-se numa ameaça à identidade, soberania, segurança e sobrevivência futura de Portugal.” Propõem alterar a Lei da Nacionalidade para a basear exclusivamente no “Jus Sanguinis”, ou seja, pelo sangue, o que limitaria a nacionalidade àqueles cujos pais possuam a cidadania. Também propõem tornar as leis de imigração muito mais restritivas, para “reverter os fluxos migratórios”, remover a dupla cidadania daqueles que não são portugueses “de sangue” e a repatriação de imigrantes indocumentados que tenham sido condenados por qualquer crime, aqueles que “não se integram” e aqueles que “dependem do apoio social como um modo de vida.” Também propõem proibir a construção de mesquitas. O PNR acredita que uma classe secreta conspiradora de “financiadores internacionais”, que designam como “Nova Ordem Mundial”, existe e está secretamente a controlar os assuntos políticos em Portugal e a destruir a nação. Identificam esses grupos como os Maçons, a Comissão Trilateral, George Soros e o Grupo Bilderberg e fazem-lhes frequentemente referência na sua literatura. O objetivo, afirmam, é criar um “governo mundial autoritário” que “substituirá as soberanias nacionais.” O PNR opõe-se tanto aos liberais como à esquerda no sistema partidário português, bem como às suas posições sobre o clima, a saúde pública, a pandemia, os direitos LGBTQ+, o feminismo, a “ideologia de género”, o veganismo, a imigração e o multiculturalismo. O PNR apoia o ex-ditador Salazar e celebra o dia do golpe que levou Salazar ao poder em 28 de maio de 1926. Refere-se ao Novo Estado de Salazar como os “quarenta e oito anos de glória nacional”. Em 2005, o proeminente neonazi Mário Machado aderiu ao PNR. Após a sua libertação da prisão em 2002, Machado dedicou-se à missão de unir os elementos fragmentados da extrema-direita portuguesa e criar uma organização disciplinada que pudesse ser usada para fins políticos e violentos. Para estes últimos, Machado criou o grupo skinhead racista Portugal Hammerskins (PHS), e para os primeiros criou a Frente Nacional, cuja missão era influenciar a liderança do Partido Nacional Renovador (PNR). Machado aderiu depois ao PNR com as suas centenas de militantes e formou uma aliança com José Pinto-Coelho, permitindo que ambos subissem ao topo da liderança do partido. A partir desse ponto, os Portugal Hammerskins (PHS) e a Frente Nacional serviram como braço armado de facto do Partido Nacional Renovador, até à expulsão de Machado em 2014. 

 Escudo Identitário

Localização: Lisboa, Porto

Ideologia: nacionalista branca, anti-imigração

O Escudo Identitário (EI) é uma organização identitária, inspirada na primeira organização desse tipo, a Generátion Identitaire em França, criada em 2017 com a intenção de repelir a “invasão islâmica” da Europa. Os identitários são anti-imigração e geralmente acreditam na teoria da conspiração da “Grande Substituição” da supremacia branca, que alega que os brancos estão a ser “substituídos” nos seus “países de origem” por imigrantes, refugiados e pessoas de cor. A EI nasceu no rescaldo do caso da Nova Portugalidade (NP) em 2017, quando a Associação de Estudantes da FCSH – Universidade Nova de Lisboa se recusou a permitir  uma apresentação planeada por Jaime Nogueira Pinto e Rafael Pinto Borges, chefe da Nova Portugalidade (NP) lusotropicalista e fã do ex-ditador Salazar. Grupos de extrema-direita que protestaram contra o cancelamento do evento decidiram que precisavam de criar uma organização com uma ideologia explicitamente etnonacionalista que pudesse atrair as gerações mais jovens. O grupo foi fundado por João Martins, conhecido ativista de extrema-direita que foi condenado a 17 anos de prisão (mas cumpriu apenas nove) pelo assassinato de Alcindo Monteiro, em 1995, no Bairro Alto, Lisboa. Fazia parte de um grupo de extremistas que saíram às ruas para atacar negros na década de 1990 e é conhecido por fundar dois outros grupos de extrema-direita, a Causa Identitária e a célula portuguesa da Divisão Misantrópica neonazi. Os membros do EI vieram de organizações anteriormente existentes, incluindo o Partido Renovador Nacional (PNR) e a Associação Portugueses Primeiro (P1), bem como das suas organizações juvenis, com a ajuda dos veteranos ativistas de extrema-direita João Martins (Causa Identitária) e Vítor Luís Rodrigues (Partido Nacional Renovador). A EI é uma organização anti-imigração que também exibe aspetos do nacionalismo branco. Os escudistas culpam a imigração da pobreza e da marginalização que está a “ameaçar” a identidade portuguesa. Em julho de 2018, os escudistas deixaram uma faixa no cimo do Arco da Rua Augusta, em Lisboa, estampada com o slogan “Migração em Massa = Invasão”. Em termos de estratégia política, são principalmente conhecidos por ações de rua do estilo flash mob, semelhantes às da Generátion Identitaire, bem como pela colocação de cartazes, adesivos e faixas que celebram feriados nacionais e figuras históricas portuguesas. Também organizam conferências, como o Fórum Prisma Atual, onde a pró-AZOV Olena Semenyaka do National Corps foi oradora programada, Os Nossos Caminhos e outros esforços de propaganda. A porta-voz do Escudo Identitário, Irene Sousa, terá coordenado comícios em comemoração do Dia de Portugal com o Sargento de Armas dos Proud Boys Portugal Ricardo Mota. Em junho de 2021, os escudistas reuniram-se para o dia da “Raça” com membros do grupo skinhead neonazi Blood & Honour Portugal, antes de ambos se juntarem a uma manifestação em Lisboa promovida pelo Partido da Renovação Nacional. O relatório Terrrorism Situation and Trend de 2021 da Europol citou a EI e os seus parceiros neonazis Blood & Honour como grupos de interesse devido a terem protestado contra as medidas de saúde do governo durante a pandemia. O grupo tem ligações com outros extremistas de extrema-direita no estrangeiro. Por exemplo, em abril de 2018, o Escudo Identitário participou numa conferência com a Associação Portugueses Primeiro e o grupo neofascista italiano CasaPound, e também se reuniu com o CasaPound em muitas outras ocasiões. Os escudistas também expressaram o seu apoio às causas identitárias em França. 

 Força Nova

Localização: sem sede

Ideologia: nacionalista branca, antissemita

O Força Nova (FN) é um grupo neofascista inspirado no grupo italiano anti-imigração e anti-LGBTQ+ Forza Nuova, e os escritos do filósofo esotérico italiano Julius Evola, que acreditava em ideias reacionárias extremas, num regresso à monarquia e tinha laços com a Alemanha nazi e Mussolini. O FN foi fundado no início de 2021 por Alexandre Santos, anteriormente da Resistência Nacional. Os ativistas do Força Nova participaram em eventos com outros grupos de extrema-direita, como o Parti Nationaliste Français (PNF), o Forza Nuova Italia e o British National Party (BNP, Partido Nacional Britânico), que tinha laços profundos com supremacistas brancos no Reino Unido e no exterior. Na sua página no Facebook, o FN publica regularmente material fascista e antissemita. Também expressam preocupações consideráveis de que uma “Grande Substituição” esteja a ocorrer através de imigrantes e minorias, e partilham conteúdo alegando que minorias e imigrantes são responsáveis por crimes violentos. 

 Movimento Social Nacionalista 

Localização: Ovar, Porto

Ideologia: nacionalista branca

O Movimento Social Nacionalista (MSN) é um pequeno movimento de extrema-direita que foi criado em 2015 com base no agora extinto grupo neofascista francês Mouvement d’Action Sociale (MAS). Ideologicamente, o grupo defende ideias de terceira posição, o que significa que mistura apelos económicos socialistas à classe trabalhadora com nacionalismo e racismo. O MSN defende uma posição “etnopluralista” sobre a questão da imigração e do multiculturalismo, o que significa que deseja uma nação etnicamente homogénea e quere que os imigrantes, geralmente uma referência a pessoas de cor, permaneçam nos seus países de origem. O capitalismo é criticado pela posição de que cria ondas de imigração e, ao promover o multiculturalismo e as forças políticas que o apoiam, o capitalismo “destrói” a cultura de uma nação homogénea. O seu lema é “Nação, Revolução, Socialismo”. Também extraíram as suas ideias de pensadores da Nouvelle Droite francesa, ou Nova Direita, que se opunham ao multiculturalismo, ao capitalismo e à democracia. O MSN é principalmente um movimento de rua e organiza regularmente manifestações com as suas várias dezenas de membros no Porto para certos feriados de importância para a extrema-direita, como o Dia de Portugal e o Dia da Restauração. Também se junta a protestos maiores e deixa cartazes e faixas a promover a sua causa por toda a cidade. Esteve presente no evento “Regenerar Portugal” de 2023, organizado pela Defender Portugal, onde distribuiu propaganda. As suas influências fascistas e neonazis são óbvias. Durante uma manifestação do MSN em dezembro de 2019 no Largo Dom João III pelo dia da Restauração da Independência Nacional, António Soares, um membro proeminente, fez um discurso em memória dos “caídos” e em defesa do império português, enquanto membros do MSN faziam saudações nazis. As suas posições anti-imigração também são claras, pois rejeitam refugiados em Portugal. Defendem a saída da UE e da NATO e exigem a criação de uma “Aliança Europeia de Nações Livres” e uma “relação especial com os países que civilizou no passado (ou seja, países que foram colonizados)”.

 Portugal Hammerskins

Localização: Matosinhos, Porto

Ideologia: neonazi

Portugal Hammerskins (PHS) é o capítulo oficial do grupo skinhead racista americano Hammerskin Nation. Os Portugal Hammerskins foram estabelecidos pelo talvez mais conhecido neonazi português, Mário Machado, que pretendia que se tornassem uma força hegemónica na extrema-direita da política portuguesa. Após a sua libertação da prisão em 2002, Machado dedicou-se à missão de unir os elementos fragmentados da extrema-direita portuguesa e criar uma organização disciplinada que pudesse ser usada para fins políticos e violentos. Para estes últimos, Machado criou o grupo skinhead racista Portugal Hammerskins (PHS), e para os primeiros criou a Frente Nacional, cuja missão era influenciar a liderança do Partido Nacional Renovador (PNR). Como acontece nos EUA entre organizações skinhead racistas rivais, o Portugal Hammerskins historicamente lutou pelo controlo do movimento com seu principal rival, Blood & Honour Portugal. Os grupos competiram ferozmente dentro do movimento skinhead racista por membros e ajustes. Também tiveram fortes desentendimentos sobre o apoio ao Partido Nacional Renovador (PNR) e as tentativas de Machado de cooptar e eliminar outras fações de extrema-direita. Essa luta diminuiu em grande parte a partir de meados de 2023, já que os grupos dividiram o país com os Hammerskins a tomar o norte e o Blood &Honour a tomar Lisboa e o Sul. Em 2012, Machado foi condenado a 10 anos de prisão por agressão qualificada, discriminação racial, chantagem de um promotor público e posse ilegal de arma, em três casos separados. Várias investigações policiais e depoimentos de testemunhas mostram que os Hammerskins, sob a liderança de Machado, estão envolvidos em tráfico de drogas, roubos, extorsão, tráfico de armas, intimidação étnica e ataques a outros grupos de extrema-direita. Em 2022, Machado obteve o direito de deixar Portugal para ir lutar na Ucrânia, embora enfrente outras acusações. Regressou ao fim de apenas uma semana. Em 2023, não é clara a dimensão dos Portugal Hammerskins. 

 Proud Boys Portugal

Localização: Lisboa,* Algés, Amadora, Cascais, Oeiras, Sintra

Ideologia: nacionalista branca, antimulher

Os Proud Boys Portugal são o capítulo oficial português do movimento Proud Boys, fundado em 2016 na América pelo canadiano Gavin McInnes. O grupo é supremacista branco e misógino e conhecido por se envolver em violência de rua significativa e elogiar a violência em geral. Com sede nos EUA, o grupo criou filiais em vários países e está listado como uma entidade terrorista no Canadá. O seu presidente com base na América, Enrique Tarrio, e vários líderes foram considerados culpados de conspiração sediciosa em 2023 pelas suas ações durante a Insurreição do Capitólio americano de 6 de janeiro de 2021 (não é claro em junho de 2023 se Tarrio ainda ocupa o lugar cimeiro, dado o seu encarceramento). O capítulo português foi fundado por Pedro Lopes em 2019 após um encontro com membros do Proud Boys Britannica. Lopes é um alegadamente militante do Chega. Tal como acontece com os principais capítulos dos Proud Boys nos EUA, a filial portuguesa considera-se uma “fraternidade” e uma “irmandade” baseada em valores supremacistas brancos e masculinos. Em 2021, o grupo foi infiltrado por um repórter de investigação do Setenta e Quatro, um meio de comunicação português, que passou pelo processo de recrutamento e tomou conhecimento da liderança e estrutura organizacional. Desde esses relatórios, o grupo tem estado relativamente inativo. O grupo não tem nenhuma conta de rede social e não fala com jornalistas, por isso há poucos relatos das suas atividades, porque opera clandestinamente. O capítulo português tem supostamente ligações com o Chega e com o Escudo Identitário. Enquanto outros capítulos internacionais têm sido responsáveis por violência de rua substancial, o grupo português tem tido um perfil muito mais discreto, devido aos números reduzidos e a um desejo de evitar o interesse da polícia. 

Nota: a tradução deste relatório do inglês para o português foi fornecida por um tradutor externo. Quaisquer possíveis erros ou inconsistências na tradução do inglês são de responsabilidade do tradutor. Se tiver dúvidas sobre a tradução, escreva para contact@globalextremism.org. 

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