Brasil: Grupos extremistas e de ódio de extrema-direita

Nota do editor do GPAHE: os relatórios nacionais do GPAHE descrevem grupos extremistas e de ódio de extrema-direita ativos (incluindo partidos políticos que atendem aos nossos critérios) para destacar a crescente ameaça global do extremismo de extrema-direita e a natureza transnacional desse movimento. Você pode ler mais sobre como classificamos grupos extremistas de extrema-direita e o propósito desses relatórios.

O Brasil tem um longo histórico de políticas e movimentos de extrema-direita alimentados por um racismo horrível em relação às suas populações negras e indígenas. O país escravizou milhões de africanos durante os séculos de colonização portuguesa, explorando-os para construir uma classe que enriqueceu com plantações. Dos 12 milhões de africanos sequestrados e levados para as Américas, aproximadamente metade foi realocada à força para o Brasil entre 1540 e 1860. Vergonhosamente, o Brasil também foi a última nação do mundo ocidental a abolir oficialmente a escravidão em 1888, muito depois de se tornar independente de Portugal em 1822.  Muitos sulistas americanos se mudaram para o Brasil após a Guerra Civil. Chamados de confederados, eles queriam continuar seu modo de vida escravocrata, e algumas comunidades até hoje celebram o passado por meio de bandeiras de batalha confederadas e outros emblemas associados aos estados do sul dos Estados Unidos antes da Guerra Civil. O tratamento desumano e o trabalho forçado de africanos escravizados são parte fundamental da história do Brasil e, assim como dos EUA, e da sua luta contínua contra o racismo sistêmico.  

A partir do início do século XX, grandes movimentos fascistas surgiram no Brasil, inspirados pelos nazistas na Alemanha, mas ainda mais pelo Partido Fascista de Benito Mussolini na Itália. Após a Segunda Guerra Mundial, o país sofreu com décadas de regime militar violento e autoritarismo. O legado dessa política continua a ter um impacto negativo na vida de muitos brasileiros e alimenta a nostalgia dos movimentos de extrema-direita por esse passado. A eleição de Jair Bolsonaro como presidente em 2018 estimulou ainda mais o crescimento do extremismo no país, funcionando como combustível para movimentos neonazistas, separatistas brancos e fascistas, particularmente no sul do país.

O fascismo chegou ao Brasil na década de 1920, com a criação da Legião do Cruzeiro do Sul em 1922. Em meados da década de 1920, a ideologia fascista começou a se infiltrar na comunidade de imigrantes e expatriados italianos por meio do veterano da “Marcha sobre Roma” Serafino Mazzolini, cônsul italiano no Brasil. O Fascio di São Paulo foi formado em março de 1923, aproximadamente seis meses após os fascistas tomarem o poder na Itália, e os italianos em São Paulo se inscreveram com entusiasmo, ao mesmo tempo em que o movimento se espalhou rapidamente para as comunidades italianas de outras cidades. Uma década depois, surgiram mais entidades fascistas, incluindo a Legião de Outubro, o Partido Nacional Sindicalista, o Partido Fascista Nacional, o Partido Nacional Regenerador e outros. Esses movimentos foram impulsionados pela grande população imigrante vinda da Itália e de uma muito menor vinda da Alemanha que chegaram ao sul do Brasil no final do século XIX, com ondas maiores no início do século XX. 

Também havia um movimento nazista no Brasil, mas não era tão grande quanto esses movimentos fascistas, e teve duração muito mais curta. Muito antes da Segunda Guerra Mundial, o partido nazista inundou o Brasil com propaganda política para obter apoio da comunidade alemã. A divisão brasileira do Partido Nazista foi fundada em 1928. Em 1939, apenas cerca de 3.000 expatriados alemães no Brasil haviam se juntado ao partido, mas ainda assim essa era a maior divisão no exterior. Como o partido só aceitava cidadãos alemães, nascidos na Alemanha, aqueles atraídos por ele mas sem esse “pedigree”, em vez disso, juntaram-se a outros movimentos fascistas e entidades políticas de extrema-direita relacionadas. 

Fascismo brasileiro: integralismo

O Brasil criou sua própria forma de fascismo, o Integralismo Brasileiro, que compartilhava suas raízes com o fascismo italiano e o movimento fascista português, o Integralismo Lusitano. Fundado em 1932 por Plínio Salgado, escritor e político que se apaixonou por Mussolini após uma viagem à Itália em 1930, onde o conheceu pessoalmente. Após seu retorno ao Brasil, Salgado decidiu criar um partido como o dos fascistas italianos. Em 1932, ele estabeleceu a Ação Integralista Brasileira (AIB), adotando muitas ideias fascistas e criando um movimento altamente militarizado e fortemente anticomunista. Mas o movimento era menos ligado aos nazistas, já que Salgado era contra o racismo, pelo menos em suas formas mais grosseiras, e, dada a diversidade do Brasil, seu movimento esperava unir todos os brasileiros em sua concepção fascista.  

Como outros movimentos fascistas, os integralistas eram organizados em patentes uniformizadas de camisas verdes, realizavam manifestações altamente arregimentadas e disseminavam uma retórica contra o marxismo e o liberalismo. Os membros ostentavam o símbolo do movimento, a letra grega Sigma, e faziam fortes saudações armadas muito semelhantes às dos nazistas. No Brasil, a saudação é dada com o termo “Anauê”, que significa vagamente “você é meu irmão” supostamente em Tupi, a língua do maior grupo indígena do Brasil antes da colonização.

O Integralismo do Brasil era decididamente mais religioso em espírito, semelhante ao Integralismo Português, em vez do fascismo italiano. Salgado interpretou a história humana como um conflito entre o “materialismo”, representado pelo ateísmo e hedonismo, e o “espiritualismo”, que para ele significava a crença em Deus e a busca pelos objetivos mais elevados pregados pelo catolicismo, como misericórdia, caridade e preocupação com os outros. Para substituir o materialismo e o capitalismo, que é seu parceiro, Salgado promoveu um estado corporativo e o nacionalismo como uma identidade espiritual compartilhada que uniria a nação brasileira por meio do cristianismo. Embora teoricamente críticos do capitalismo, os verdadeiros bichos-papões do movimento eram os os comunistas. Estima-se que, em 1936, havia quase um milhão de apoiadores e simpatizantes integralistas, o que fez dele o maior movimento de massas da história brasileira.  

Salgado traduziu os ideais do movimento no Manifesto de Outubro de 1932, o manual da AIB, a mais importante organização política integralista , que enfatizava Deus, a Pátria e a Família, slogan posteriormente usado por Jair Bolsonaro em suas candidaturas à presidência. Contra o racismo e o antissemitismo, Salgado, que tinha uma visão do antissemitismo diferente das de outros Integralistas proeminentes, via o Integralismo como uma forma de unir pessoas de todas as raças por meio de uma estrutura autoritária, daí o slogan do movimento: “União de todas as raças e todos os povos”. Ele ainda colocava os negros na parte inferior da população brasileira, mas, ao contrário de movimentos europeus semelhantes, eles eram ao menos considerados parte da sociedade.  A AIB era conhecida por sua retórica agressiva e táticas paramilitares, e seus membros se envolviam em confrontos violentos com grupos de esquerda, atacando comunistas, estrangeiros e maçons, que eram vistos como inimigos da Igreja. Certos oficiais da igreja, alguns deles envolvidos na AIB, foram responsáveis por espalhar o antissemitismo raivoso na década de 1930, e os judeus foram impedidos de imigrar para o Brasil.

Em seu auge, a AIB chegou a ter 200.000 membros. Embora Salgado afirmasse ser contra o racismo e o antissemitismo, alguns de seus aliados proeminentes, como Gustavo Barroso, eram abertamente intolerantes. Barroso era talvez a segunda pessoa mais poderosa, atrás de Salgado, e um antissemita declarado. Ele produziu a primeira tradução para o português dos Protocolos dos Sábios de Zion, uma importante teoria da conspiração antissemita, e escreveu suas próprias obras antissemitas, incluindo a Maçonaria e o Comunismo.  

O Estado Novo

O Estado Novo (1937-1946), liderado pelo ditador Getúlio Vargas, pôs fim a essas organizações depois que Vargas assumiu o poder em 1937 por meio de um golpe. O regime de Vargas bebeu do fascismo sem endossá-lo de fato e, por fim, esmagou organizações fascistas e outros movimentos de massa semelhantes, vendo-os como uma ameaça ao seu regime sob o argumento de que “conspiravam contra o Estado brasileiro” ao receber ordens de marcha do governo fascista da Itália. A divisão brasileira do Partido Nazista também foi abolida. Após a declaração de guerra do Brasil contra as potências do Eixo em 1942, muitas instituições italianas tiveram que mudar de nome para se distanciar do regime de Mussolini. A intenção de Vargas de construir uma identidade brasileira unificada era tamanha que forçou as comunidades alemã, italiana e japonesa a se “brasilizarem”, ou seja, essencialmente abandonar os costumes e as línguas de sua terra natal e assimilar os locais. Mesmo assim, alguns nazistas proeminentes, incluindo Joseph Mengele, que realizou experimentos médicos brutais e grotescos nos enviados para o campo de concentração de Auschwitz, fugiram da Alemanha para o Brasil após a guerra, escondendo-se em comunidades de língua alemã.

Quando a ditadura de Vargas terminou, Salgado fundou o Partido de Representação Popular (PRP), que mantinha a ideologia do Integralismo, mas sem seus aspectos paramilitares. Alguns ex-membros ligados ao movimento participaram do golpe militar de 1964 que derrubou o presidente João Goulart. De 1965 a 1985, o Brasil foi governado por uma série de ditaduras militares brutais, e os integralistas e ex-integralistas assumiram diversas posições dentro dos vários regimes militares no poder. Salgado, por exemplo, se juntou à ARENA, o partido pró-militar. Em 1988, uma nova constituição foi aprovada, e o Brasil retornou oficialmente ao regime democrático com a eleição presidencial de 1989. Essa era até os dias atuais é conhecida como a Sexta República Brasileira ou a Nova República.

Ascensão de Bolsonaro

Durante os anos de governo democrático até a ascensão de Jair Bolsonaro, eleito presidente pela primeira vez em 2018, a política no Brasil foi marcada por crises econômicas e acusações de corrupção contra vários governos presidenciais e a classe política em geral. A extrema-direita como movimento não era proeminente até que Bolsonaro construiu sua campanha presidencial com base na adoção e divulgação de mensagens típicas da extrema-direita, demonizando predominantemente comunidades marginalizadas, especificamente LGBTQ+, negros e indígenas. Famoso por comentários inflamatórios sobre mulheres e minorias, que lhe renderam o apelido de “Trump dos Trópicos”, Bolsonaro, ex-capitão do exército, elogiou abertamente a ditadura militar de 21 anos que começou com um golpe em 1964. Bolsonaro também se aproveitou das acusações de corrupção de governos anteriores e do fracasso em conter o crime para construir seu movimento. 

Bolsonaro diferenciou-se de outros líderes de extrema-direita, como Trump, devido a circunstâncias brasileiras específicas, incluindo sua população racialmente diversificada e o fato de que a imigração não é um problema significativo. Ele também encontrou apoio considerável entre os evangélicos de extrema-direita, um movimento construído por missionários evangélicos americanos que importaram seu nacionalismo cristão para o Brasil e hoje estão fortemente conectados com os evangélicos do país. Os evangélicos em breve superarão os católicos como religião majoritária no Brasil, apesar de compartilharem alguns valores com movimentos católicos conservadores, já que ambos geralmente são contra os direitos LGBTQ+. Bolsonaro enfatizou a “solidariedade nacional”, colocando “cidadãos de bem” contra os “corruptos”. 

Entre suas muitas declarações controversas, Bolsonaro disse que “a única razão pela qual ele não estuprou” uma congressista foi “porque ela não merecia”, já que “ela era feia demais”; defendeu que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deveria ser “executado em praça pública”; chamou ativistas negros de “animais” que deveriam “voltar para o zoológico”; argumentou que a homosexualidade se deve a “falta de surras”; e que ele “não precisava se preocupar” com nenhum de seus filhos namorando mulheres negras ou serem gays “porque lhes deu uma boa educação”. Ele chamou os refugiados haitianos, africanos e do Oriente Médio no Brasil de “a escória da humanidade”, que deve ser resolvida “pelo exército”. Ele elogiou os torturadores do exército e disse que o erro do ditador chileno Augusto Pinochet foi não matar pessoas suficientes. E que, se visse “dois caras de mãos dadas” na rua, ele os “espancaria”. Em outro discurso antiLGBTQ+, Bolsonaro disse que os homossexuais “deveriam se curvar” diante da maioria e que “90% das crianças adotadas por casais LGBT” seriam usadas como escravas sexuais, o que significava que a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo “legalizaria o abuso infantil”.

Em 2017, Bolsonaro fez um discurso para cerca de 500 pessoas, alegando que os povos indígenas que vivem em reservas eram “parasitas”, que os quilombolas (descendentes negros de escravos fugitivos) “nem sequer estavam aptos para a reprodução”, que organizações da sociedade civil e movimentos sociais estavam roubando os recursos do país e que a única maneira de combater o crime era distribuindo armas à população. Não muito tempo depois desse discurso, em um vídeo do YouTube, ele novamente afirmou que os povos indígenas e quilombolas estavam drenando os recursos nacionais. Ele também argumentou que a Funai (Fundação Nacional do Índio) escolheu deliberadamente as terras “mais ricas e férteis” para “doar” a “índios e negros”, enquanto roubava terras de brancos que “viviam lá há séculos”. De acordo com Bolsonaro, como o Brasil é “um país cristão”, os não-cristãos devem ficar fora da vida política, pois não são “verdadeiros cidadãos”, e o Islã e as religiões africanas devem ser banidos, pois são antitéticos à “fé nacional” e operam como uma “porta aberta para terroristas”. Ele destacou como inimigos internos a comunidade LGBTQ+, os povos indígenas, os ativistas ambientais e de direitos humanos, a mídia, os acadêmicos e a elite cultural. Bolsonaro enfatizou Deus, o país e a família, usando o antigo slogan integralista, e construiu apoio entre as igrejas evangélicas em expansão no país. Assim como os nacionalistas cristãos dos Estados Unidos, Bolsonaro afirmou que o país estava sendo ameaçado pelo casamento gay, o aborto e a “ideologia de gênero”.

Bolsonaro também reuniu um verdadeiro exército de apoiadores on-line, que usaram as redes sociais para elogiar o presidente com hashtags como #UnidosComBolsonaro. “Gabinete de Ódio” foi o nome dado a um grupo de assessores de Bolsonaro que operava dentro do Palácio do Planalto, sede do poder executivo do país. Coordenado pelo próprio ex-presidente e por seu filho, Carlos, o gabinete dirigiu multidões on-line que inundavam os oponentes de Bolsonaro com memes, discursos de ódio e informações enganosas ou falsas. Eles ecoavam a retórica e as mentiras do presidente, inflando seu apoio e iniciando uma enxurrada de ataques contra aqueles que se opunham a ele. Os esforços começaram antes da vitória eleitoral de Bolsonaro em 2018 e continuaram durante sua campanha fracassada em 2022.

Bolsonaro alimentou a extrema-direita

Todas essas atividades deram nova vida à extrema direita no Brasil, que passou a ostentar seu extremismo de forma mais aberta e expandiu suas garras. Os grupos neonazistas floresceram; a acadêmica brasileira Adriana Dias alega que, em 2021, o número de células neonazistas no Brasil aumentou quase 60% sob o governo de Bolsonaro, com cerca de 530 células em todo o país, a maioria nos estados de São Paulo e Santa Catarina. Alguns desses grupos neonazistas se envolveram em violência, atacando membros da comunidade LGBTQ+, judeus e sinagogas em São Paulo e Santa Catarina. Os oponentes de Bolsonaro receberam ameaças. Bandeiras neonazistas foram exibidas em marchas a favor de Bolsonaro e os apoiadores usaram saudações nazistas. Bolsonaro também contou com o apoio de organizações Integralistas modernas, incluindo a Frente Integralista Brasileira (FIB) e o Movimento Integralista e Linearista Brasileiro (MIL-B) e nomeou alguns de seus membros na sua administração. 

Bolsonaro e membros da sua administração também agradaram diretamente esses grupos extremistas. Em 2018, a campanha de Bolsonaro escolheu como slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. A primeira parte do slogan foi usada por um grupo de soldados pára-quedistas, Spark Nativista, e imita o slogan nazista “Deutschland über Alles”. Em janeiro de 2020, o então secretário de cultura, Roberto Alvim, repetiu trechos de um discurso do ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels. Surpreendentemente, ele foi forçado a renunciar. Em 2021, Felipe Martins, assessor para assuntos internacionais, fez o sinal de “OK” com os dedos, popular entre os supremacistas brancos, em um evento no Senado Federal. Apesar de investigado, Martins foi absolvido da acusação. Bolsonaro, após uma visita de Estado a Israel, afirmou que os nazistas eram esquerdistas e que “podemos perdoar, mas não esquecer” o Holocausto, um sentimento fortemente criticado por judeus brasileiros e autoridades israelenses. 

Brincar com elementos extremistas é uma tática de Bolsonaro há muito tempo. Uma carta de Bolsonaro de quando era deputado federal em 2004 foi publicada em três sites neonazistas com links para o seu site. A carta estava em posse do neonazista Donato di Mauro, que foi condenado a mais de oito anos de prisão em 2016 em Minas Gerais por apologia ao nazismo e corrupção de menores. Enquanto ainda era deputado, Bolsonaro defendeu estudantes em uma academia militar de Porto Alegre que escolheram Hitler como a figura histórica que mais admiravam.

Bolsonaro também construiu relacionamentos com indivíduos e grupos de extrema-direita no exterior. Ele era próximo de Trump e participava do círculo íntimo dele, que incluía seus filhos. Em 2021, Bolsonaro recebeu no Brasil a parlamentar alemã Beatrix von Storch, ex-vice-presidente do partido político radicalmente anti-imigrante e antimuçulmano Alternative für Deutschland (Alternativa para a Alemanha, AfD) e sobrinha do ministro das Finanças do Terceiro Reich. Bolsonaro e sua família também apareceram mais de uma vez nas conferências do grupo de extrema-direita americano CPAC, falando ao lado de seguidores de Trump em eventos que muitas vezes criticavam a comunidade LGBTQ+. A CPAC estabeleceu uma divisão brasileira, que atualmente é administrada por um grupo liderado pelo filho de Bolsonaro, Eduardo.

Insurreição de 8 de janeiro no Brasil

Bolsonaro seguiu os passos de Trump e negou a legitimidade das eleições após sua derrota na corrida presidencial de 2022 para Luiz Inácio Lula da Silva. Ele alegou que as máquinas de votação foram “manipuladas”, e seu negacionismo se espalhou como um incêndio pela Internet, com teorias da conspiração questionando os resultados e alegando irregularidades. Isso mobilizou apoiadores de Bolsonaro, que se reuniram em uma série de acampamentos improvisados por todo o país, muitos em frente a bases militares . Eles exigiam que o exército intervisse para resolver a suposta fraude eleitoral e colocar Bolsonaro de volta ao poder.

Isso levou o Brasil a ter sua própria tentativa de insurreição em 8 de janeiro de 2023, muito parecida com a que aconteceu nos EUA em 6 de janeiro de 2021. Dois dias depois do aniversário de dois anos do horror da insurreição na capital dos EUA, na capital Brasília, partidários de Bolsonaro saquearam o Congresso, o Palácio da Alvorada e o Supremo Tribunal Federal. Eles esperavam desencadear uma intervenção militar, aproveitando o sentimento pró-Bolsonaro nas forças armadas, mas acabaram presos. Embora Bolsonaro tenha finalmente condenado as ações em Brasília, os manifestantes continuam fazendo apelos pela continuidade da mobilização, anunciando greves gerais e tentativas de fechar refinarias e postos de gasolina. Em última análise, os planos foram frustrados, pois centenas de pessoas foram presas, incluindo o ex-Ministro da Justiça, porém pelo menos 12 torres de transmissão foram atacadas e várias foram derrubadas.

Em março de 2023, Bolsonaro, que nunca admitiu a derrota, voltou de seu exílio auto-imposto na Flórida, para onde fugiu após a eleição. Ele participou da Conservative Political Action Conference (CPAC) de março de 2023 em Washington, DC, onde questionou os resultados da sua campanha fracassada para a reeleição e disse que sua missão no Brasil “ainda não terminou”. Em maio de 2023, a polícia fez uma busca em sua casa e alguns de seus assessores foram presos por falsificar registros de vacinas (Bolsonaro era um negacionista da COVID). Ele também está sendo investigado por suposta supressão de votos, ataques à legitimidade das eleições brasileiras e desvio de presentes estrangeiros. Bolsonaro negou qualquer irregularidade nesses casos. Em junho de 2023, Bolsonaro foi impedido de ocupar cargos políticos por oito anos depois que o tribunal eleitoral do país decidiu que ele havia abusado de seus poderes presidenciais. Atualmente, ele está sob investigação da polícia federal por liderar um golpe fracassado para permanecer no poder após sua derrota e foi forçado a entregar seu passaporte em fevereiro de 2023.

A extrema-direita hoje

Assim como nos EUA com Trump, o crescimento da extrema direita no Brasil foi paralelo à ascensão de Bolsonaro. A pesquisadora Adriana Dias estima que, em 2019, havia pouco mais de 300 células neonazistas no país, a maioria online; já em 2022, havia mais de 530. Ela estima que haja cerca de 150 mil neonazistas no Brasil, a maioria nos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo. Esses grupos são particularmente difíceis de rastrear no Brasil, pois geralmente são isolados e pequenos, com talvez de 10 a 15 membros e não são conectados a outros grupos. Muitos operam online, compartilhando propaganda e recrutando jovens.

A lei de 1989 contra o racismo pune o uso de símbolos ligados ao nazismo e discursos que são considerados lenientes com o regime nazista. A lei prevê uma pena de dois a cinco anos de prisão para aqueles que fabricam, comercializam, distribuem ou transmitem símbolos, emblemas, ornamentos, insígnias ou publicidade que usam a suástica para fazer propaganda nazista. O número de inquéritos da polícia federal investigando a defesa ao nazismo saltou para 110 em 2020, depois de permanecer abaixo de 22 todos os anos de 2010 a 2018. Em junho de 2023, a polícia federal disse que o número de investigações abertas sobre o suposto incitamento ao neonazismo teve um “aumento significativo”. A polícia disse que 21 investigações sobre a suposta fabricação, venda, distribuição ou exibição de suásticas “com o propósito de propagar o nazismo” foram abertas apenas nos primeiros seis meses de 2023. 

Os números da polícia também mostraram um aumento de 380% no número de “atos antidemocráticos”, saltando de 68 em 2022 para 326 apenas nos primeiros dois meses de 2023. A maior parte desses casos — que incluem tentativas de impedir eleições ou incitar a violência contra o Estado — ocorreu no Sul, principalmente em Santa Catarina. Há outros sinais de que o ativismo de extrema-direita está aumentando. A Safernet Brasil, que informa sobre postagens na internet em apoio ao nazismo, viu um aumento nesse tipo de material nos últimos anos. Em 2015, eles relataram 1.282 desses casos, que subiram para 9.004 em 2020, um salto de 600%. Em 2020, o maior número de páginas foram removidas da internet por conteúdo ilegal relacionado à defesa dos nazistas. Foram 1.659 removidos naquele ano, em comparação com 329 em 2015.

A violência acompanhou o crescimento do movimento e as ameaças a comunidades marginalizadas têm aumentado. Em 2021, por meio da ação conjunta de autoridades americanas e brasileiras, quatro membros de um grupo neonazista foram presos no Brasil por planos de realizar vários ataques em massa contra judeus e negros na véspera de Ano Novo. No final de 2022, em Florianópolis, no estado de Santa Catarina, a polícia prendeu dez homens acusados de serem membros do Hammerskins e de sua organização alimentadora Crew 38, um grupo racista, skinhead e neonazista originário do Texas que, segundo as autoridades locais, chegou ao Brasil graças à ajuda de alguns de seus membros nos EUA.  Em novembro de 2022, poucas horas antes de um evento realizado por imigrantes haitianos em Itajaí, Santa Catarina, o organizador recebeu um e-mail dizendo: “Cancele a exposição sobre o Haiti ou faremos um massacre… Santa Catarina é uma terra de PESSOAS BRANCAS, PARA PESSOAS BRANCAS”. O e-mail terminava com a saudação nazista “SIEG HEIL”. 

No final de 2022, a ABIN, a Agência Brasileira de Inteligência, alertou que neonazistas, supremacistas brancos e movimentos para deslegitimar o governo democrático eram as principais ameaças à posse de Lula. A agência disse que identificou um crescimento nas atividades de “indivíduos e grupos extremistas e violentos com motivação ideológica” após a derrota de Bolsonaro. A agência disse que, embora os protestos de rua tenham se acalmado após a tentativa de insurreição em Brasília, ainda houve atos violentos cometidos por agentes de extrema-direita, incluindo tentativas de invadir um prédio público e um ataque a bomba em Brasília. Nas redes sociais, indivíduos compartilhavam materiais para fabricação de bombas e instruções sobre como criar armas de fogo com impressoras 3D, além de espalhar teorias da conspiração e fazer ameaças contra funcionários públicos.

Os ataques a escolas foram particularmente perturbadores. Em fevereiro de 2023, um jovem de 17 anos acusado de jogar um explosivo caseiro em uma escola de São Paulo usava uma braçadeira com uma suástica. Em março de 2023, um menino de 13 anos esfaqueou e matou uma professora em uma escola em São Paulo enquanto usava uma máscara de crânio associada a movimentos neonazistas, a mesma máscara usada por um menino acusado de um ataque semelhante em uma escola na mesma cidade em 2019. Em abril de 2023, um jovem de 25 anos acusado de estar ligado ao neonazismo matou quatro crianças com um machado em um jardim de infância em Blumenau e, em outubro de 2023, um menino de 16 anos foi acusado de disparar contra uma escola, matando uma pessoa e ferindo outras duas. O suspeito havia postado uma foto de si mesmo com uma suástica desenhada no rosto.  

O governo Lula continuou a repressão de grupos violentos de extrema-direita. Após o ataque com o machado em abril de 2023, o ministro da Justiça, Flavio Dino, instruiu as autoridades a investigar quaisquer possíveis atividades interestaduais de grupos neonazistas. Em julho de 2023, a polícia brasileira realizou várias operações em quatro estados como parte de investigações sobre 15 pessoas ligadas à chamada “nova SS de Santa Catarina”. Mais de uma dúzia de batidas foram realizadas em só uma semana de julho de 2023, e a polícia apreendeu “vastas [quantidades de] material nazista e extremista”, além de quatro armas de fogo e dezenas de facas e outras armas. Treze dos 15 ataques ocorreram em estados do sul. As vastas operações policiais seguem alguns ataques que, segundo as autoridades brasileiras, podem ter a sua origem rastreada até a crescente disseminação de movimentos neonazistas. E não podemos esquecer que, em 2022, um brasileiro tatuado com um símbolo nazista foi preso pela tentativa de assassinato da vice-presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner.

Muitas das investigações em andamento sobre o extremismo de extrema-direita estão concentradas no Sul, onde a maioria da população se identifica como branca. Isso parece ser o resultado da imigração italiana e alemã para a região onde, segundo a acadêmica Marina Macedo Rego, ocorreu um processo de “branqueamento”. Ela ressalta que isso levou os sulistas a se verem como “brancos” de maneiras que não acontecem em outras partes do país, criando uma identidade oposta a outras partes do país que têm mais pessoas de cor, principalmente no norte do Brasil. O problema do neonazismo é particularmente grave em Santa Catarina, um estado onde muitos têm ascendência alemã e italiana. O estado tem a maior proporção de residentes que se identificam como brancos no Brasil, mais de 80% no último censo.

Ao mesmo tempo, o Integralismo foi revitalizado durante o governo de Bolsonaro, que era fã do movimento e usava um slogan ligado aos primeiros anos do Integralismo. Pelo menos três grandes grupos Integralistas estavam em operação até 2022, a Frente Integralista Brasileira (FIB), o Movimento Integralista e Linearista Brasileiro (MIL-B) e a Associação Cívica e Cultural Arcy Lopes Estrella (ACCALE). Eles se encontram principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, e on-line. A pesquisa mostrou a presença de policiais, ex-policiais, milicianos e até monarquistas nesses grupos. E na primeira “Conferência Integralista do Século XXI”, em 2004, que buscou revitalizar o movimento, estiveram presentes grandes organizações religiosas conservadoras, incluindo a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, da Família e da Propriedade (TFP), a União Nacionalista Democrática e a União Católica Democrática. Geralmente, esses grupos integralistas são antiLGBTQ+, antigênero e antitrans com base em suas visões religiosas e alguns se baseiam no antissemitismo.

Indivíduos e grupos conectados ao integralismo já se envolveram em violência. Por exemplo, o Comando de Insurgência Popular Nacionalista da Grande Família Integralista Brasileira (CIPN), apesar de não ter durado muito tempo, reivindicou a autoria de incidentes violentos. Em dezembro de 2018, pelo menos 11 membros entraram no campus da Universidade do Rio de Janeiro e queimaram três bandeiras de organizadores antirracistas. Eles também reivindicaram a autoria do ataque à sede da produtora Porta dos Fundos. Em um vídeo, o grupo mostrou cenas deles jogando coquetéis molotov no Porta e explicando que a motivação para o ataque foi o especial de Natal “A primeira tentação de Cristo“, produzido pelo Porta dos Fundos e que retrata Jesus Cristo como homossexual. No vídeo, o grupo disse que tinha a missão de “ser a espada de Deus” e que “o Brasil é cristão e nunca deixará de ser”. O CIPN surgiu no YouTube. Com rostos mascarados, o grupo exibia bandeiras integralistas e fazia fortes saudações fascistas ao mesmo tempo em que criticava “homossexuais militantes”, “pedófilos” e “criaturas covardes desprovidas de amor ao próximo”. 

Este relatório certamente subestima o número real de grupos de ódio e extremistas de extrema-direita no Brasil. As cidades marcadas com um asterisco indicam a sede de uma organização quando ela tem mais de uma divisão.

Os grupos

pastedGraphic.png

Associação Cívica e Cultural Arcy Lopes Estrella

Localização: São Gonçalo 

Ideologia: antiLGBTQ+, anti-imigração, conspiração

Fundada em 2017, a Associação Cívica e Cultural Arcy Lopes Estrella faz parte do movimento integralista moderno e tem fortes laços com outras organizações integralistas brasileiras. O nome do grupo é inspirado em Arcy Lopes Estrella, oficial militar e advogado que foi integralista a vida inteira, membro da Ação Integralista Brasileira (AIB) na juventude e intimamente associado a Plínio Salgado. Ele ajudou a dar nova vida ao integralismo ao iniciar a publicação Alerta em 1995. 

O grupo tem sede em São Gonçalo, o mesmo lugar onde Lopes Estrella fundou o Centro Cultural Plínio Salgado na década de 1990. A ACCALE se dedica a disseminar e promover os ensinamentos integralistas. Entre os líderes da Accale estavam Eduardo Fauzi, nomeado diretor em 2018, Wagner Barbosa, Emanuel Vilela Barbuy e Pedro Marcus. Fauzi, empresário e economista, também era afiliado ao Partido Social Liberal (PSL), chapa pela qual Jair Bolsonaro concorreu em 2018, e ao mesmo tempo era diretor da divisão do Rio de Janeiro da Frente Integralista Brasileira, embora o grupo tenha negado essa conexão posteriormente. Muitas vezes chamados de neo-integralistas, a ACCALE e seus aliados defendem valores ultraconservadores e um modelo de família e sociedade fundado na primazia do lema integralista original “Deus, pátria e família“, também usado por Jair Bolsonaro em suas campanhas. No Facebook, eles se descrevem da seguinte maneira: “Não somos de esquerda, direita ou centro. Procuramos boas ideias, não importa de onde venham. Não estamos interessados nos caminhos do progressismo ou do liberalismo. Nacionalismo, o único caminho!!!” O grupo se dedica à “luta contra o aborto e toda a esquerda cultural”.

O grupo está profundamente ligado ao movimento de Bolsonaro. Durante seu evento de fundação em outubro de 2017, realizado na Câmara Municipal de Niterói, três proeminentes políticos do Rio de Janeiro e apoiadores de Bolsonaro estiveram presentes: o deputado estadual Rodrigo Amorim, então vereador; Carlos Jordy, posteriormente deputado estadual; e Flávio Bolsonaro, um dos filhos de Jair Bolsonaro. O evento contou com uma palestra em homenagem aos 85 anos do lançamento do Manifesto Integralista de 1932, de Salgado. Foi aberto pelo membro da ACCALE Frederico Pires, que explicou os princípios e objetivos da associação, destacando que a ACCALE aumentaria a conscientização sobre as ideias integralistas por meio de palestras, reuniões e fóruns. O presidente da Frente Integralista Brasileira (FIB), Victor Emanuel Vilela Barbuy, falou dos laços diretos entre a missão da ACCALE e o Manifesto de 1932, dizendo que o movimento Integralista anterior reunia o “grupo mais fascinante da inteligência do país”. 

Além de espalhar as ideias do Integralismo, a ACCALE também presta homenagem a figuras históricas da extrema direita brasileira. Em uma reunião de 2018, o grupo elogiou o notório antissemita e Integralista original Gustavo Barroso com um discurso chamado “o criador do primeiro super-herói do mundo”. Outra palestra foi dedicada ao “encontro histórico entre Plínio Salgado e Benito Mussolini”.

O antigo líder do grupo tem um passado duvidoso. Fauzi foi indiciado pelo atentado com coquetel molotov de 2019 à produtora de vídeo Porta dos Fundos, no Rio de Janeiro, provavelmente motivado pelo lançamento de um especial de Natal na Netflix em que Jesus foi retratado como gay. Ele foi identificado como um dos cinco culpados. Na época, ele liderava a ACCALE, embora o grupo tenha afirmado mais posteriormente que ele não era mais filiado. Dias após o ataque, Fauzi disse em um vídeo online que a produtora era “intolerante” e que “quem fala mal do nome de Cristo prega contra o povo brasileiro”. Ele acrescentou: “Este é um crime contra a pátria. Eles são criminosos, são marginais, são bandidos.” Esse não foi seu primeiro problema com a lei. Em novembro de 2013, Fauzi agrediu o Secretário de Ordem Pública Alex Costa. Em 2019, ele foi condenado a quatro anos de prisão, mas recorreu com sucesso.

A responsabilidade pelo ataque foi finalmente reivindicada pelo grupo Comando de Insurgência Popular Nacionalista. Em 2018, o Comando também destruiu uma exposição de símbolos antifascistas na Universidade do Rio de Janeiro, quando o grupo roubou e queimou bandeiras na Faculdade de Direito. Em 25 de novembro de 2019, Fauzi desviou a atenção do Comando, argumentando no Facebook que os responsáveis pelo roubo das bandeiras eram estudantes e um professor da universidade. Fauzi fugiu para a Rússia um dia antes de ser preso pelo atentado ao Porta dos Fundos. Mais tarde, ele foi encontrado pela Interpol e extraditado da Rússia em 2020.  

As posições da ACCALE são articuladas em vários sites de redes sociais, mas em 2021 eles alegaram ter perdido suas contas do Facebook por motivos que não estão claros. Criticando a política de imigração da Europa em 2019 no Twitter, a ACCALE escreveu: “O que será da Europa? Se não houver uma mudança em direção a caminhos diametralmente opostos aos apresentados, o continente só será europeu na sua história. Triste realidade.” No Instagram, o grupo postou uma imagem de Henry Kissinger e George Soros, dois judeus proeminentes, culpando-os por uma “Nova Ordem Mundial“. 

pastedGraphic_1.png

Carecas do ABC

Localização: São Paulo,* Rio de Janeiro

Ideologia: neonazista, anti-imigração, antiLGBTQ+, anti-Trans, antissemita

Os Carecas do ABC são uma gangue de skinheads integralistas que começou como o grupo Carecas do Subúrbio na década de 1980, formado principalmente na região do grande ABC de São Paulo, particularmente em Santo André. No início, eles alegavam que seus principais inimigos eram a comunidade LGBTQ+ e os punks, e, ao longo dos anos, a polícia registrou vários ataques violentos de membros do grupo contra a polícia e outros. Hoje, eles estão presentes na maior parte da cidade e em algumas outras capitais. Inspirados pela Ação Integralista Brasileira, eles usam o mesmo slogan: “Deus, pátria e família“. Os Carecas são fortemente anticomunistas e antiliberais, defendendo o uso da violência contra aqueles que percebem como os “setores podres da sociedade”. O fanatismo do grupo é um pouco inconsistente. Eles parecem aceitar membros negros e evitar o racismo, seguindo os passos de Plínio Salgado, mas usam slogans associados a movimentos que são claramente supremacistas brancos e até neonazistas. Eles são abertamente antiLGBTQ+ e antissemitas. E há fotos de seus membros nas redes sociais mostrando tatuagens do slogan da supremacia branca, As 14 Palavras e outras simbologias nazistas. Eles elogiam o Integralista antissemita Gustavo Barroso em seu site.

Seu traje distinto inclui botas com ponteiras de metal, jeans apertados, jaquetas militares, camisas em cores escuras ou brancas e suspensórios ou cintos com fivelas de metal. Eles se associam a um gênero específico de música e ao estilo de vida “Careca”, que estimula o ódio em relação aos rivais e glorifica a violência entre gangues rivais. Os Carecas também já se envolveram em violência fora do movimento. Um incidente trágico ocorreu em 2000, quando Edson Néris da Silva, um treinador de cães e homem gay, foi brutalmente espancado até a morte por membros da Careca. Em 2021, o grupo atacou um músico antifascista, agredindo-o no “Dia da Consciência Negra” antes de uma apresentação sua programada em um bar em São Paulo. Durante o ataque, um banner proclamando “o orgulho branco não é um crime” foi exibido. 

 

Os Carecas foram os primeiros apoiadores de Jair Bolsonaro. Em 2011, eles organizaram um “evento cívico” em apoio ao então deputado federal Bolsonaro. O grupo teria sido atraído pelo apoio de Bolsonaro à ditadura militar e pelo uso de tortura nesse regime. Eduardo Thomaz, o líder dos Carecas na época, disse: “Estamos apoiando o deputado Jair Bolsonaro porque ele representa a família brasileira e temos o direito de apoiá-lo”. Eles participam de atividades e encontros patrocinados por organizações Integralistas, mantendo sua autonomia. Também participaram de manifestações pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Segundo a pesquisadora Adriana Dias, os Carecas tinham cerca de 250 membros em 2018.  Eleito deputado estadual suplente em 2022, Thomaz também fez campanha ativamente para Bolsonaro na corrida presidencial de 2022 e publicou fotos com o irmão do presidente, Renato Bolsonaro. Suas atividades recentes focaram em eventos musicais e sociais. Não está claro quem lidera o grupo atualmente. Thomaz é frequentemente citado como líder do grupo, mas nega qualquer conexão.  

pastedGraphic_2.png

Falange de Aço

Localização: Rio Grande do Sul

Ideologia: nacionalista branca

Associando-se a vários grupos separatistas e identitários brasileiros, o pequeno grupo nacionalista branco Falange de Aço defende a separação do Sul do resto do Brasil. O slogan deles no Twitter é “Em defesa do nacionalismo e o separatismo do Sul”. O uso de “Falange” no nome os identifica imediatamente com as origens do movimento autoritário que apoiou o ex-ditador espanhol Francisco Franco. O falangismo enfatiza a necessidade de autoridade, hierarquia e ordem centralizadas na sociedade e é anticomunista e antidemocrático. As imagens online do grupo deixam claro que eles são racistas e veem o Sul como europeu, ou seja, “branco” por natureza. Eles enfatizam a masculinidade em uma publicação de uma imagem de dois homens brancos lutando com espadas e o slogan: “Somos fortes, somos homens”. Outras publicações criticam as autoridades eleitas e outros que apoiam as pessoas que se mudam para o Sul, fazendo alusão aos nordestinos negros, dizendo que isso “destrói o que resta da nossa cultura e deixa nossas cidades sujas”. O grupo também culpa Israel por “destruir o Ocidente”.  

Ele faz parte de uma rede que inclui o Sol e Clava, a Milícia Independente do Sul e o Movimento Identitário Paulista, além de serem torcedores ativos de futebol. O grupo apoia o mais conhecido neonazista português, Mario Machado. Já o mencionou no Telegram, fazendo referência à ideia de que o Brasil também deve defender seu legado europeu. O grupo publica imagens das suas reuniões em Porto Alegre e cola adesivos pelas cidades da região. É claramente cristão e publica fotos idealizadas de famílias tradicionais. O grupo tinha uma conta no Instagram que, em abril de 2023, foi desativada, mas ainda é ativo no Twitter. O slogan deles é “grupo de defesa nacionalista e separatista do Sul”.

Na maioria das vezes, a Falange de Aço dissemina suas mensagens separatistas, como “Destrua os inimigos dos sulistas”. O motivo não está claro, mas, em 2023, o grupo perdeu um canal do Telegram e depois outro que o substituiu. Eles reclamaram profusamente no Twitter que não havia razão para sua remoção, e não está claro por que o Telegram removeu as contas, dada a quantidade de material extremista na plataforma.

pastedGraphic_3.png

Força Nacionalista do Brasil (FNB)

Localização: desconhecida

Ideologia: antiLGBTQ+, anti-Trans, antissemita, nacionalista religioso, conspiração

A Força Nacionalista do Brasil (FNB) faz parte de uma rede de pequenas organizações muito alinhadas com a Nova Resistência, que o governo dos EUA descreve como uma “organização neofascista quase paramilitar que opera na América do Sul, Europa e América do Norte com profundas conexões com entidades e indivíduos do ecossistema de desinformação e propaganda da Rússia”. Sob a bandeira de “Tradicionalismo, Proteção e Soberania”, a FNB apoia o nacionalismo, dissemina propaganda antiLGBTQ+ e anti-trans e espalha teorias da conspiração. Ela faz parte de uma rede de grupos que apoiam a Quarta Teoria Política, proposta pelo conselheiro do presidente russo Vladimir Putin, Alexander Dugin, em um livro com o mesmo nome. A teoria defende um novo sistema político que incorpore valores religiosos tradicionais e elementos do fascismo, do liberalismo e do comunismo, que considera as três teorias políticas anteriores. Para Dugin, o Ocidente e o liberalismo estão impulsionando uma degeneração moral que promove os direitos LGBTQ+, a “ideologia de gênero” e uma cultura “woke”, que será substituída por sua nova política. Eles defendem o nacionalismo cristão e apoiam o retorno da Educação Moral e Cívica nas escolas, um programa educacional imposto durante a ditadura militar.  

As ideias de Dugin são centrais para esse movimento. De modo geral, Dugin critica a modernidade e o Ocidente e afirma que suas ideias políticas são “patológicas”. Ele vê as democracias liberais como promotoras da “imposição totalitária agressiva do LGBT+, casamento gay e outras perversões”, e coloca essas “perversões” nas mãos da inteligência artificial e da “Big Tech pós-humanista”. Essas críticas ao Ocidente são combinadas com um fervor religioso conservador. 

A FNB é ativa no Twitter e no Telegram. No Twitter, eles já demonstraram ódio contra Israel, alegando a necessidade de “UMA LUTA CONTRA A TIRANIA SIONISTA“, culpando o Ocidente por “defender de forma fanática o Estado artificial e terrorista de Israel” e dando apoio a “todas as organizações e indivíduos, de qualquer parte do espectro político, que lutam contra a existência do Estado de Israel e expressam sua simpatia pelos movimentos de resistência à ocupação sionista!” Geralmente, suas redes sociais estão cheias de apelos para purificar a cultura dos “parasitas que infectam nosso corpo nacional” e trazer de volta os “valores espirituais, culturais e populares do Brasil”. Uma publicação descreve casais gays com filhos como “traficantes sexuais”. Referências positivas e imagens do Integralismo estão espalhadas por suas publicações, juntamente com apelos para se opor ao “cosmopolitismo” que é “espalhado por potências atlantistas e organizações globalistas”. Eles também falam sobre “banqueiros globalistas“. Suas publicações afirmam que Cleópatra era branca e que os indígenas brasileiros estão sendo manipulados por “agentes apátridas”. A propaganda deles foca na população LGBTQ+, pessoas transgênero e pede uma “revolução reacionária”. Como muitas organizações de extrema-direita, George Soros é muitas vezes o bicho-papão escolhido. Uma publicação recente dizia: “A Open Society Foundation, fundada por George Soros, visa impor uma pauta degenerada e imperialista aos países. Defensores de pautas como: liberação de drogas, legalização do aborto e libertação de prisioneiros, e questões LGBT, querem acabar com nosso país!” 

pastedGraphic_4.png

Força Nova do Brasil

Localização: desconhecida

Ideologia: nacionalista branca, anti-imigração, antiLGBTQ+, conspiração

A Força Nova do Brasil atua principalmente por meio de seu canal no Telegram, que em dezembro de 2023 tinha quase 200 seguidores. É uma ramificação brasileira do partido político italiano Forza Nuova. Há um e-mail de contato para os interessados em participar do grupo. Na Itália, o Forza Nuova é um partido político neofascista que defende o nacionalismo branco e critica imigrantes e pessoas LGBTQ+. Ele é um dos grupos mais organizados da extrema direita italiana. O movimento é liderado por Roberto Fiore, que também é presidente do grupo parlamentar europeu de extrema-direita Aliança pela Paz e Liberdade (AFP), sediado em Roma e com divisões em todo o país, e um movimento juvenil chamado Lotta Studentesca (Luta Estudantil). O site do Forza Nuova descreve o partido como um que “visa estabelecer as bases para uma reconstrução real e decisiva da lei, da estabilidade e da justiça em nosso país, fortalecendo assim sua fibra enfraquecida e garantindo o futuro de nosso povo” por meio da revogação de leis de aborto, facilitando o “crescimento familiar e demográfico”, “parando a imigração”, “banindo a Maçonaria e as Seitas Secretas”, “erradicando a usura”, restabelecendo a concordata Igreja-Estado de 1929 na Itália, revogando as leis liberticidas de Mancino e Scelba que destroem a liberdade por meio da restrição do discurso e das ações dos cidadãos e agindo para formar “Corporações para a Defesa dos Trabalhadores”. O partido fez campanha contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a imigração.  

A Força Nova do Brasil faz referência aos anos da ditadura militar brasileira e os comemora, na esperança de um retorno, e repassa informações de seu parceiro italiano. No Telegram, eles publicam uma quantidade considerável de conteúdo antiLGBTQ+, incluindo piadas pejorativas sobre pessoas transgênero, além de republicar material anti-imigrante e antimuçulmano. As publicações também elogiam grupos neonazistas, como em uma de novembro de 2023 que ofereceu apoio ao partido neonazista grego banido Golden Dawn. Também em novembro, publicações elogiaram países que romperam relações com Israel, como a Bolívia. Eles também elogiam Massimo Morsello, o fascista italiano que co-fundou o Forza Nuova, e incluem um link para a conta do Telegram de Fiore. As publicações no Telegram deixam claro que o grupo se envolve em ações de propaganda, mostrando-os colando adesivos em vários lugares. 

pastedGraphic_5.png 

Frente Integralista Brasileira (FIB)

Localização: São Paulo,* Bahia, Belo Horizonte, Fortaleza

Ideologia: antiLGBTQ+, anti-mulher, conspiração

Fundada em 2005, a Frente Integralista Brasileira (FIB) é a maior organização do movimento Integralista moderno do Brasil. A FIB se vê como uma reencarnação do movimento de Plínio Salgado na década de 1930 e é encarregada de resgatar a herança cultural, política e ideológica do movimento de Salgado. Depois que Salgado morreu em 1975, uma série de tentativas de reviver seu movimento fracassaram. Mas, em 2004, foi realizado em São Paulo o Primeiro Congresso Integralista para o século XXI. Foi no congresso que a ideia da FIB surgiu, embora tenha sido originalmente chamada de Movimento Integralista Brasileiro (MIB). Em 2005, a FIB foi oficialmente estabelecida por meio da união de várias associações Integralistas que funcionavam de forma autônoma. Desde o final de 2023, Moises Lima é presidente da Frente Integralista Brasileira (FIB). Ele foi consultor político do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). 

A FIB tem suas raízes no movimento integralista europeu de inspiração fascista da década de 1930. Em seu site, a FIB se descreve como uma organização que “cria uma escola de cultura e civilidade, inspirada nos valores cristãos, para despertar nosso povo em torno das possibilidades reais da nação, elevando sua autoestima e se afirmando para a construção da civilização mais bonita do século XXI! Sem vínculos ou compromissos com qualquer organização privada ou partido político existente, a Frente Integralista Brasileira surge como resultado das aspirações de verdadeiros nacionalistas.” Eles são altamente ativos online e trabalham com outros extremistas de extrema-direita, além de partidos políticos. Os símbolos, saudações e músicas da FIB são os mesmos da época de Salgado. A FIB usa a letra grega Sigma (Σ) como emblema e uma saudação romana acompanhada da palavra “Anauê!” . Lucas Carvalho, membro do conselho nacional de administração, disse que o Integralismo é um movimento que se baseia em Deus, na religião e no “nacionalismo”. O grupo é antiLGBTQ+, disse Carvalho, “A defesa da família natural é o núcleo fundamental da nação, uma fonte de verdadeira educação e uma fonte de vida”. O lema do grupo “Deus, Pátria e Família” reflete os valores que norteiam o Integralismo, que se opõe aos direitos LGBTQ+ e direitos reprodutivos das mulheres. A organização é firmemente antiaborto e tem uma visão tradicional do papel das mulheres. A FIB foi uma forte apoiadora de Jair Bolsonaro e alguns de seus diretores foram nomeados em sua administração. Eles ficaram especialmente orgulhosos quando, em 2022, “Bolsonaro repetiu o lema Integralista em seu discurso na ONU”.

A FIB é altamente organizada, liderada por uma secretaria geral, secretaria nacional de assuntos jurídicos, secretaria nacional de doutrina e estudos e secretaria de expansão. Eles se organizam em divisões estaduais e municipais que promovem propaganda e realizam protestos. Não está claro quantas divisões eles têm atualmente. Em determinado momento, o site da FIB contava com um mapa com suas divisões em todo o país, mas desde fevereiro de 2024, ele parece ter desaparecido, e agora os membros em potencial devem preencher uma solicitação de informações. A partir de sua propaganda, fica claro que as principais atividades da FIB são realizar reuniões, disseminar panfletos e boletins informativos, fazer manifestações, interagir com partidos políticos e internacionalmente com outros grupos de extrema-direita, como o Forza Nuova da Itália.

Em 2018, durante as eleições presidenciais, Jair Bolsonaro gravou um vídeo com o presidente da FIB, no final do qual ele gritou a saudação integralista “Anauê”. Em 2019, Paulo Fernando Melo da Costa, membro da FIB e ex-candidato do Patriota e do prona ao Congresso, foi nomeado assessor especial da ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, no governo Bolsonaro. Também em 2019, Eduardo Fauzi foi acusado de ser um dos agressores que jogaram coquetéis molotov no Porta dos Fundos, supostamente devido à estreia na Netflix de um filme que retratava Jesus como gay. Na época, Fauzi estava listado no site da FIB como chefe da divisão do Rio de Janeiro, mas o grupo contestou isso e se distanciou do ataque. Outro grupo acabou levando o crédito pelo ataque.

Em junho de 2021, a FIB informou que o Facebook excluiu contas vinculadas à FIB, afirmando que a rede “desativou milhares de contas de usuários reais vinculadas ao nosso movimento”. Eles também relataram que muitos membros foram expulsos da plataforma sem possibilidade de recorrer. Curiosamente, Moisés Lima denunciou a tentativa de golpe de janeiro de 2023, dizendo: “De forma alguma o vandalismo contra os símbolos de construção do poder político brasileiro poderia contribuir para a intenção dos insatisfeitos. Pelo contrário, independentemente das intenções ou manipulações da multidão, esta é uma vitória da esquerda e uma derrota de todos os amantes da liberdade, da paz, do progresso, em suma, de Deus, da Pátria e da Família, e aqueles que realizaram tal ato não poderiam contar, e não contam, com o nosso apoio.”

Desde 2022, a FIB se inclinou cada vez mais para mensagens antiLGBTQ+. Folhetos recentes zombaram dos esquerdistas como tendo “1000 gêneros diferentes” e outro dizia “Uma nação soberana de desviantes?”, referindo-se à comunidade trans. Outra propaganda aproveitou narrativas do movimento Incel anti-mulher, e falava sobre “‘O Chad Integralista’. Treina constantemente. Homem viril.” (Chad é uma referência aos machos alfa que Incels gostaria de ser). O trabalho da FIB também é propagado por redes online afiliadas, incluindo a Sigma Canais Reunidos. Essa é uma rede que distribui materiais da FIB e de outros Integralistas on-line e inclui sites e canais de rede social administrados pela Nova Acção, Offensiva Imperial, Defesa do Integralismo e Sigma Films. Os canais do Telegram, incluindo a Flama Verde Nacionalista e o site Páginas de Combate, também distribuem materiais da FIB, bem como outros escritos Integralistas.

pastedGraphic_6.pngpastedGraphic_7.png

Hammerskins Brasil/Crew 38

Localização: Santa Catarina

Ideologia: neonazista, nacionalista branca

A Hammerskin Nation (HSN) é um movimento neonazista skinhead fundado no Texas em 1988. A organização faz parte de uma comunidade internacional que se autodenomina “Hammerskin Nation” (HSN) e atua principalmente na Europa e nos Estados Unidos, mas há claramente membros no Brasil e em outros países ao redor do mundo. Os Hammerskins visam uma comunidade mundial racialmente pura de nacionalistas brancos. As regras para os membros são descritas na Constituição dos Hammerskin de 1998, e cada divisão pode adaptá-la às circunstâncias de seu respectivo país. A Crew 38 serve como uma organização alimentadora à qual os membros se juntam em período de experiência até serem aceitos nos Hammerskins, o que significa receber a associação e um patch oficial para suas roupas. O símbolo da HSN é o 38, que significa “martelos cruzados” (3 significa “C” e 8 significa “H”, de “crossed hammers”). A HSN é mais notável por organizar grandes festivais de música de ódio em muitos países e um “Hammerfest” anual nos EUA. A polícia brasileira descobriu que membros americanos da Hammerskin viajaram para o Brasil.

Pesquisadores antifascistas apoiados pela Fundação Alemã Rosa Luxemburgo afirmam que a divisão brasileira da HSN foi, na verdade, criada pelos Hammerskins de Portugal, que ajudaram a estabelecer uma divisão da Crew 38 no Brasil em 2016. Em 2020, o grupo recebeu permissão para se autodenominar uma divisão oficial da HSN, a Hammerskins Brasil (HSB). Fotos online mostram um membro brasileiro visitando a Alemanha em 2018 usando um patch da Crew 38 em frente à casa do chefe propagandista nazista Joseph Goebbels em Wandlitz. 

Como na maioria dos outros países onde operam, os membros já se envolveram em atividades criminosas consideráveis. Em 2021, um português afiliado aos Hammerskins brasileiros foi indiciado no Brasil por administrar uma “organização criminosa transnacional”. Ele foi identificado como uma das quatro pessoas que administram a divisão catarinense da HSB, chamada Southlands Hammerskins. Outros membros do grupo foram acusados de conspirar para matar negros e judeus. Em novembro de 2022, oito homens foram presos após serem suspeitos de envolvimento com uma divisão da Hammerskin em São Pedro de Alcântara. Em abril de 2023, dois homens afiliados aos Hammerskins brasileiros foram indiciados em Caxias do Sul por administrar uma organização criminosa e defender o nazismo. Em novembro de 2023, a polícia brasileira no estado de Santa Catarina realizou uma grande busca de neonazistas. Eles prenderam oito pessoas escondidas em uma propriedade rural que usava o nome Crew 38.  Vários dos homens tinham tatuagens de símbolos e frases nazistas em inglês, incluindo “White Power” (poder branco). As buscam também encontraram bandeiras vermelhas, brancas e pretas no estilo nazista, camisetas Hammerskin e CDs de música de ódio. Havia também banners da Crew 38 com o slogan “Todos por um, um por todos”. A polícia acredita que o grupo vendia os itens para as células da Hammerskins nos Estados Unidos e na Europa.

pastedGraphic_8.png

Impacto Hooligan (IH)

Localização: São Paulo, Paraná

Ideologia: nacionalista branca, neonazista, antiLGBTQ+

O impacto Hooligan (IH) é uma gangue de rua neonazista e antiLGBTQ+. Eles são fortemente influenciados pelo Integralismo. A IH é conhecida por ter realizado ataques violentos durante a Parada do Orgulho Gay de São Paulo de 2009. Os membros do IH agrediram um jovem negro gay, que mais tarde morreu no hospital. Eles também detonaram uma bomba caseira no desfile, deixando mais de 40 pessoas feridas. Em 2011, depois de ser condenado pelo ataque a bomba durante a Parada do Orgulho Gay de 2009, o adepto da IH Guilherme Witiuk Ferreira de Carvalho, também conhecido como “Chuck”, foi preso por crime de intolerância. Ele e outros quatro jovens foram acusados de agredir fisicamente quatro pessoas perto da Avenida Paulista. Durante um depoimento dado pelas vítimas à polícia, elas disseram que, enquanto eram socadas e chutadas, seus agressores gritavam: “Negros, nordestinos, filhos da puta, somos skinheads e vamos matar vocês, zumbis.” De acordo com a Polícia Civil, três machados, quatro punhais, um facão, uma caneta de ferro de dois gumes e um cinto com um soco inglês como fivela foram apreendidos do acusado. Um dos agressores usava uma camiseta preta com uma cruz celta cercada pela frase “orgulho branco no mundo todo“, que foi adotada como slogan por grupos skinheads racistas em todo o mundo. Outro acusado usava uma jaqueta verde com a palavra “skinheads” bordada nas costas e a sigla I.H.

Em 2015, um relatório de um grupo brasileiro antifascista descreveu a IH como conhecida “por suas ações extremamente violentas e racistas”, bem como “ataques constantes a pessoas sem-teto e minorias”. Além disso, o relatório afirmou que a IH “também é ativa no ambiente virtual, promovendo o nazismo e pregando o extermínio de minorias como judeus, negros, gays, nordestinos e pessoas de raça mista. Além disso, eles usam a Internet para atrair jovens e recrutar adultos.” Em 2016, a Casa Mafalda, um espaço de cultura e política em São Paulo, foi alvo do IH em dois ataques em menos de uma semana. A entrada do local foi vandalizada com suásticas e inscrições que fazem referência a Hitler e ao terrorista neonazista americano David Lane. Pichações feitas pela IH continuam sendo relatadas em áreas onde o grupo é ativo. Welker de Oliveira Guerreiro, também foi indiciado pelo Ministério Público Federal em 2021 por publicações feitas no site de rede social russo não moderado VK em 2015. Welker é afiliado à IH e foi preso em 2011 por agredir pessoas sem-teto no centro de São Paulo ao lado de outros neonazistas. Ele também criou uma página para a “Divisão Misantrópica (Brasil)” na mesma rede social, com a ajuda de Ferreira de Carvalho. Há fotos no site de rede social russo VK mostrando membros da IH com os rostos cobertos por um emoji e fazendo referência a Hitler, vestindo camisetas da Impacto Hooligan. Apesar de menos relatos policiais de incidentes envolvendo a IH nos últimos anos, o grupo ainda existe e, desde 2023, e tem membros em várias cidades brasileiras.

pastedGraphic_9.pngpastedGraphic_10.png

Instituto Conservador Liberal (ICL)/Formação Conservadora (FC)

Localização: Brasília

Ideologia: antiLGBTQ+, anti-mulher, nacionalista religiosa

O Instituto Conservador Liberal (ICL) é um think tank criado em 2021 por Eduardo Bolsonaro, o terceiro filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Como seu pai, Eduardo Bolsonaro é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e os direitos LGBTQ+ e quer criminalizar o comunismo. Ele ocupou vários cargos eleitos e é, desde 2024, deputado federal por São Paulo. A LCI é “pró-vida, pró-família” e defende o “acesso livre a armas de fogo, “a rejeição do socialismo e do comunismo”; é anti-aborto e nacionalista religiosa, focada na”liberdade de expressão religiosa ” e na ” família natural”.

A ICL, que é uma organização de membros que exige pagamento para acessar seus recursos, diz em seu site que “o Instituto Conservador-Liberal nasceu com a clara intenção de se tornar o maior instituto de educação política do país, trabalhando para recuperar, desenvolver e espalhar valores liberais conservadores pela sociedade brasileira”. A ICL parece particularmente interessada em estabelecer vínculos com organizações internacionais de extrema-direita. Ela trabalha com a organização americana de extrema-direita Conservative Political Action Conference (CPAC), que é solidamente pró-Trump e já recebeu Eduardo Bolsonaro, para realizar conferências da CPAC no Brasil. Eventos recentes da CPAC contaram com palestrantes antiLGBTQ+, ativistas anti-imigrantes e apresentações que disseminavam a teoria da conspiração da supremacia branca da “Grande Substituição”. No site da ICL, a CPAC de 2021 em Brasília é comemorada, “como o maior evento conservador da história do Brasil! Somando o público presencial e online, o evento alcançou quase 35.000 pessoas!” Eduardo Bolsonaro é celebrado na página como o primeiro brasileiro a se dirigir a um público da CPAC em 2019. A página da ICL mostra a CPAC Brasil como eventos oficiais realizados pelo grupo.  

Bolsonaro tem conexões profundas com pessoas do círculo de Trump. Em setembro de 2021, Jason Miller, ex-assessor sênior de Trump, e outros agentes de extrema-direita americanos foram detidos e interrogados por três horas no Aeroporto Internacional de Brasília após participação na Conferência CPAC Brasil de 2021. A investigação foi parte de um inquérito do juiz do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes sobre a desinformação supostamente perpetuada pelo governo de Jair Bolsonaro. Miller elogiou os apoiadores de Bolsonaro como “patriotas orgulhosos” e alegou que as autoridades brasileiras haviam os deixado sem plataforma e com um shadowban (bloqueio parcial em redes sociais). Miller dirige a Gettr, que  patrocinou a CPAC quando foi organizada no Brasil pela ICL, e também uma reunião regional chamada “Brasil Profundo”. Miller continuou aconselhando Jair Bolsonaro após sua derrota nas eleições de outubro de 2022, encontrando-se com Eduardo Bolsonaro em novembro de 2022.

Com o objetivo de organizar seminários e cursos para a divulgação de ideias de extrema-direita, além da CPAC, o Instituto também organiza a conferência Deep Brazil, realizada em vários lugares do país. Em seu Instagram, a ICL menciona as conexões globais da extrema direita, incluindo governos ditatoriais no mundo árabe, mas principalmente suas conexões com o trumpismo nos EUA. Eles trabalharam ativamente para a eleição de Jair Bolsonaro, bem como outros líderes executivos e legislativos de extrema direita. Em 2023, Eduardo Bolsonaro também lançou uma organização semelhante, a Formação Conservadora, usada para treinar apoiadores com suas ideias. 

A ICL também se envolveu em questões jurídicas internacionais. Ela se juntou a “27 outras organizações conservadoras e pró-vida” ao assinar como amicus curiae, ou amigo da corte, um recurso apresentado à Corte Interamericana de Direitos Humanos pelo governo de El Salvador no caso de “Manuela”, um pseudônimo para uma jovem demandante. O Tribunal já havia considerado El Salvador responsável pela morte de Manuela, que em 2008 foi injustamente condenada a 30 anos de prisão por homicídio qualificado depois de sofrer uma emergência obstétrica que resultou na interrupção da sua gravidez. Manuela morreu presa dois anos depois de câncer, depois de receber diagnóstico e tratamento médico inadequados. El Salvador foi considerado em violação dos direitos de Manuela à vida, saúde, proteções e garantias judiciais, liberdade de discriminação e violência de gênero, entre outros. El Salvador foi ordenado a reparar totalmente a família de Manuela e a reformar suas políticas legais e de saúde, que criminalizam as mulheres por buscarem cuidados de saúde reprodutiva. A ICL claramente não concorda com a decisão do tribunal.

A Formação Conservadora, de Eduardo Bolsonaro, que prega ideias semelhantes ao instituto, dissemina valores e políticas conservadoras para combater uma suposta predominância da esquerda em áreas como universidades, imprensa e mídia cultural. Ela também espera treinar “novos líderes conservadores”. A FC pretende servir como outro braço da extrema direita no Brasil, uma nova organização que fornecerá contato direto com Eduardo e outras autoridades eleitas de extrema direita e treinará líderes para o que a FC chama de “guerra cultural”. A primeira página do site diz: “Há uma guerra em andamento e o Brasil precisa de você!” O site diz que a FC é “uma escola de treinamento para conservadores que desejam participar ativamente do processo de resgate do Brasil” e sua missão é “treinar líderes e preparar os conservadores para retomar o espaço na guerra cultural, confrontando as mentiras da esquerda em suas vidas diárias, abrindo os olhos das pessoas ao seu redor e agindo nas comunidades locais”. Ela também promete aos membros “acesso exclusivo a uma conversa mensal com Eduardo Bolsonaro por meio de videoconferência”. Os membros pagam uma taxa para acessar os materiais da FC.

O treinamento da FC divulga materiais antiLGBTQ+ e fundamentalismo religioso. De acordo com uma investigação recente, um professor do “Treinamento essencial em política” é André Porciúncula, sócio de Eduardo Bolsonaro na Braz Global Holding LLC, uma empresa fundada em março de 2023 no Texas. No curso, Porciúncula, que é conhecido por compartilhar notícias falsas e apoiar os envolvidos no ataque de 8 de janeiro aos prédios federais do Brasil, fala como especialista em arte e afirma que a esquerda está tentando destruir a fé e a moral cristãs para implementar seus ideais políticos. Para “se aprofundar” o assunto, os instrutores sugerem documentários da produtora conservadora Brasil Paralelo. Outros instrutores da FC são os deputados federais Nikolas Ferreira, denunciado por transfobia; Gustavo Gayer, cujas críticas levaram à proibição de um livro de Marçal Aquino na Universidade de Rio Verde; Bia Kicis, investigada no inquérito de notícias falsas aberto no Supremo Tribunal Federal; Marcos Pollon; o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles; Chris Tonietto; Mario Frias, que agrediu um jornalista em uma sessão do Comitê de Comunicações da Câmara; e a senadora e ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves. O curso de meio ambiente é ministrado por Ricardo Salles, ex-ministro do meio ambiente, que deixou o governo Bolsonaro depois de se tornar alvo de uma investigação criminal por supostamente agir ilegalmente em nome de madeireiros, enquanto o curso de feminismo é ministrado pela deputada estadual Ana Campagnolo, que se diz “antifeminista”.

pastedGraphic_11.png

Kombat RAC (Rock Contra o Comunismo, KRAC)

Localização: Goiânia

Ideologia: nacionalista branca, neonazista

O Kombat RAC (Rock Contra o Comunismo, KRAC) é um grupo neonazista e de supremacia branca, conhecido por seu antissemitismo. A Polícia Civil do Brasil descreve o grupo como uma “gangue neonazista”. O KRAC distribui propaganda antissemita online e nas principais cidades do Brasil. O KRAC começou realizando eventos de música de ódio e se aliou de forma próxima ao grupo neonazista de skinheads, Hammerskins, sediado nos EUA, mas com muitas divisões internacionais, inclusive no Brasil. Em 2011, o KRAC se juntou a uma manifestação organizada por um líder do Ultra Defense em apoio ao então deputado federal Jair Bolsonaro. Em 2019, a pesquisadora Adriana Dias identificou suas atividades em Goiânia, no Estado de Goiás. O KRAC, junto com o Impacto Hooligan, se separou de outro grupo neonazista, o Front 88, que se desfez em algum momento dos anos 2000. Esse grupo é mais ativo online e sua presença foi rastreada por pesquisadores que monitoram redes online. O KRAC já usou a rede de mídia social russa VK para organizar debates e atividades. 

O grupo está profundamente ligado à violência. Em 2020, eles publicaram um vídeo que ameaçava um rabino que criticava a propaganda do grupo. Em 2017, quatro membros foram presos temporariamente e as casas de alguns membros foram revistadas. Em 2022, esses membros foram finalmente presos pelo crime brasileiro de defesa do nazismo. Em um incidente de 2018, um jovem neonazista que esfaqueou dois colegas depois de uma discussão sobre racismo em uma escola pública de São Paulo tinha conexões e mantinha comunicação com os membros do Kombat Rac. Em agosto de 2019, outro adepto foi condenado a sete anos de prisão por roubar um celular e agredir um aposentado de 80 anos em São Paulo. Ele cumpriu parte da pena e acabou sendo libertado. O indivíduo tinha várias tatuagens nazistas e uma no pescoço que dizia “Kombat RAC”. 

pastedGraphic_12.png

Divisão Misantrópica Brasil

Localização: desconhecida

Ideologia: neonazista, nacionalista branca

A Divisão Misantrópica Brasil é um desdobramento da Divisão Misantrópica, um grupo ucraniano conhecido por formar o Batalhão Azov em 2014. O Batalhão Azov lutou contra separatistas pró-Rússia no leste da Ucrânia após a anexação da Crimeia pelo governo do presidente russo Vladimir Putin. Há muito tempo é conhecida por abrigar neonazistas e antissemitas e atraiu extremistas raciais de todo o mundo. A Divisão Azov foi mais tarde integrada à Guarda Nacional Ucraniana e tem desempenhado um papel significativo na recente guerra ucraniana. Desde 2016, a Divisão Misantrópica Brasil tenta atrair brasileiros pela internet para lutar com Azov contra a Rússia. 

 

O grupo brasileiro parece ser muito pequeno, mas foi investigado pela Polícia Federal em 2020 por causa de publicações antissemitas e propaganda de ódio. Os membros já usaram o Twitter para exaltar Hitler, propagar mensagens de ódio contra os judeus e publicar montagens de fotos para criar a imagem de serem “bons nazistas”. Em 2017, o Financial Times identificou o recrutamento de nazistas brasileiros em sete cidades para servir como combatentes voluntários com Azov. O grupo também estava por trás da exibição do banner “vidas brancas importam” em 20 de novembro de 2022, o “Dia da Consciência Negra” no Brasil. É difícil estimar o tamanho do grupo, mas os relatórios identificam uma pequena rede que funciona on-line e off-line. 

 

Há uma preocupação no Brasil de que a experiência com Azov traga neonazistas militarizados de volta ao país. Em 2022, o Intercept informou que “os canalhas radicais do mundo todo que aderem à ideologia de sangue e solo das subculturas neonazistas, como a Divisão Misantrópica, têm uma oportunidade muito real de viajar para a Ucrânia, obter treinamento militar e participar de um intenso conflito armado contra um inimigo tecnologicamente avançado. Se sobreviverem, essa experiência de combate pode lhes dar confiança e capacidade de realizar atos de violência política em seus países de origem. Isso é claramente motivo de preocupação em um momento em que os incidentes de crimes de ódio e terrorismo doméstico estão em ascensão.” Houve relatos de apoiadores de Bolsonaro simpatizantes da supremacia branca que viajaram para a Ucrânia para lutar, embora não esteja claro se eles fazem parte da Divisão Misantrópica.

Em 2016, a polícia realizou oito batidas em todo o Rio Grande do Sul em endereços ligados a grupos radicais. Os policiais confiscaram munição, materiais de propaganda e livros sobre o nazismo e prenderam um homem de 26 anos. Naquela época, o objetivo da operação era a possível conexão de brasileiros com membros da Divisão Misantrópica. Em 2020, Ponte informou sobre uma investigação da Divisão Misantrópica, escrevendo que “os membros usam as redes sociais para exaltar Hitler, propagar mensagens de ódio contra os judeus e exibir montagens de fotos para criar a imagem de ‘bons nazistas'”. No Twitter, a polícia denunciou o grupo, mostrando imagens com o logotipo da Divisão ao lado de dois AK-47.